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Charlize Theron: "Precisamos de uma conversa sobre as nossas caixas de géneros"

14 Jan 2020
By Radhika Seth

Com o filme Bombshell a chegar às salas de cinema portuguesas, Charlize Theron, uma das três protagonistas, fala sobre os desafios de interpretar Megyn Kelly e de que maneira é que os movimentos #MeToo e Time’s Up mudaram Hollywood.

Com o filme Bombshell a chegar às salas de cinema portuguesas, Charlize Theron, uma das três protagonistas, fala sobre os desafios de interpretar Megyn Kelly e de que maneira é que os movimentos #MeToo e Time’s Up mudaram Hollywood. 

© Amy Harrity
© Amy Harrity

Charlize Theron não é nenhuma estranha a mudanças dramáticas. Em 2004, ganhou um Óscar por interpretar a serial killer Aileen Wournos no filme Monster, de Patty Jenkins, um papel que exigiu que a atriz colocasse próteses, dentes falsos e que andasse de uma maneira grotesca. Mais tarde interpretou uma mineira para defender um caso de assédio sexual no filme North Country; depois uma guerreira pós-apocalíptica em Mad Max: Fury Road; uma espia em Atomic Blonde; e uma mãe de três filhos privada de sono no filme Tully. 

Mas a última aventura de caracterização de Theron pode ser, estranhamente, a mais convincente de todos os tempos: em Bombshell de Jay Roach, a atriz interpreta Megyn Kelly, apresentadora da Fox News. Com um corte angular, nariz falso e um guarda-roupa de executiva, Charlize deixa de parte o seu lado mais sensual e incorpora uma heroína improvável numa história verdadeira sobre exploração no local de trabalho. 

A longa-metragem foca-se no escândalo de 2016 que levou ao afastamento o CEO da Fox News, Roger Ailes. Nicole Kidman interpreta Gretchen Carlson, uma importante apresentadora que entrou com um processo de assédio contra Ailes, enquanto Margot Robbie é Kayla, uma funcionária fictícia que representa uma amálgama de acusadores. Na sua interpretação, Theron é meticulosa com uma convicção fortíssima. “Eu não sou feminista”, diz Charlize em determinada cena. “Eu sou uma advogada.” 

Quais são os desafios de interpretar uma figura pública com grande destaque como a Megyn Kelly?Eu já interpretei pessoas reais, mas ninguém tão conhecido, pelo menos no sentido contemporâneo. Quer se goste ou não, ela está na televisão, está nas nossas vidas e nós sabemos como é que ela é e como é que ela se parece, mesmo que não vejas a Fox News. Enquanto pessoa, ela é muito específica - na voz, na maneira como se comporta, da maneira de ser - então tudo isso foi muito esmagador numa primeira fase.  

De que maneira é que conseguiu captar os trejeitos e a voz dela?Eu vi e li o máximo que pude sobre ela, mas acho que às vezes ao imitarmos o físico de uma pessoa pode parecer que estamos a fazer uma caricatura. Eu tinha entender o porquê de ela soar da forma que soa, e isso tem a ver com o lado emocional de cada pessoa. Quanto mais eu a conhecia, mais tudo fazia sentido para mim. Estávamos especialmente preocupados com a voz. Eu trabalho com esta mulher incrível, a Carla Meyer, e nas primeiras seis semanas não estava convencida de que chegaríamos perto da voz de Megyn Kelly. Há um elemento na maneira de se apresentar e de falar que pode parecer muito escandaloso. É preciso que te comprometas com isso e quanto mais vezes o fazes, mais confortável te sentes. Depois disso tudo, tornou-se muito fácil. 

A transformação física é também muito incrível. Envolveu longas passagens na cadeira de maquilhagem?Trabalhamos com o Kazuhiro Tsuji. Só tínhamos 43 dias para filmar, então não podíamos passar duas horas e meia numa cadeira. A minha transformação foi, sobretudo, nos olhos: havia um pedaço da minha pálpebra que ia da linha das pestanas até à linha da testa e para o lado do olho. Também fizemos um queixo pequeno e uma ponta de nariz também pequeno, mas depois o Kazuhiro moldou duas peças de plástico no meu nariz para ampliar as minhas narinas. No final do filme, já estava acostumada a elas e até me esqueci que existiam. 

A Kelly é também muito divisava. Tinha algumas reservas sobre isso quando decidiu aceitar este papel?Houve coisas que ela disse no passado que me incomodaram, então tive que me sentar e pensar sobre o assunto. Foi uma conversa que tive com o Jay Roach, realizador, me fez perceber que este filme não era uma biopic sobre a Megyn Kelly. Ela era apenas uma parte de uma história muito maior do que ela, uma história historicamente importante. Eu sabia que ela daria uma personagem incrível, mas para isso teríamos de a mostrar com todas as suas arestas. Infelizmente, ainda vivemos numa época em que muitas pessoas não se sentem confortáveis com o facto de as mulheres serem abrasivas. Eu sabia que se pudéssemos contar esta história de uma maneira que parecesse verdadeira e não tivesse a manipular o público para sentir emoção, então eu sei que poderia interpretá-la por completo.  

Interpretar a Kelly fez com que olhasse para ela de uma forma diferente?A conclusão a que cheguei é que, de uma maneira estranha, somos parecidas. Nós somos as duas ambiciosas, temos uma grande motivação e queremos ter sucesso. Estas são qualidade aplaudidas nos homens e nem sempre aplaudidas nas mulheres. Eu tenho empatia para com isso e por isso mesmo me relacionei com ela. A Megyn queria ser uma rockstar na Fox e fez isso e muito mais ao ter que lidar com os colegas do sexo masculino. 

A luta moral dela (sobre denunciar Roger Ailes) também foi muito interessante. Nunca pensei que seria capaz de entender isso porque há uma parte de mim, como mulher, que quer acreditar que as mulheres vão sempre apoiar as mulheres. Mas, as complexidades da situação, o facto dela estar a renegociar o contrato e de gostar do Roger, eram coisas muito obscuras. Quanto mais ouvimos histórias como estas, mais percebemos que esses vilões não são aqueles vilões por excelência. Estes vilões são paternos, ótimos conselheiros, investem e fazem tudo o que desejas. Mas fazem, também, coisas que são inaceitáveis. Acho que a Kelly lutou com isso tudo. 

Bombshell é sobre a era #MeToo, mas antecede o escândalo Weinstein. De que maneira é que isso entrou na narrativa?Acho que as pessoas esquecem que o Time’s Up e o #MeToo não estavam por perto quando isso aconteceu. Isso só aumenta quando Gretchen foi procurar um advogado e se apresentou e não havia qualquer apoio. Não havia nenhum movimento por perto e ela estava completamente sozinha. Ela foi muito importante para a história, aliás ela tornou-se em história. É algo pelo qual qualquer mulher deseja ser definida, especialmente uma mulher ambiciosa que quer ser reconhecida pelo seu trabalho. Todas as mulheres envolvidas tiveram que enfrentar isso. Foi incrivelmente corajoso - agora ainda é difícil, mas é reconfortante ver que já não estás sozinha. 

O Time’s Up está ativo há dois anos. Como é que viu este movimento a mudar Hollywood?Agora quando fazemos filmes, passamos muito tempo com os recursos humanos. As pessoas falam sobre esses problemas com muito mais empatia. Há uma consciência e as pessoas estão a controlar-se muito mais. Mas essa ideia de que agora não podemos mais brincar com nada, que nada tem mais piada. É uma tolice. Podemos divertir-nos sem termos que derrubar ninguém. Sei que as pessoas estão preocupadas em corrigir tudo, mas sempre que ouço alguém a dizer: “Isso é perigoso!”, acho que têm alguma coisa a esconder. 

Há mais coisas que precisam de mudar em Hollywood? A Charlize já falou sobre a importância de cerimónias sem género, por exemplo. Alguém me perguntou sobre isso na red carpet e eu disse: “Claro”. Não estava nos meus planos, mas acho que precisamos de uma conversa sobre as nossas caixas de géneros e o porquê de existirem. Vivemos num mundo em que quero acreditar que existem duas caixas, mas na verdade o espectro é muito mais interessante e colorido do que isso. 

A Charlize co-produziu o Bombshell sob a sua empresa Denver and Delilah. O que é que se segue?Estamos a desenvolver uma segunda parte para o filme Atomic Blonde. Se tudo correr bem, filmaremos dentro de um ano. Também temos um filme filmado no verão passado que será lançado no próximo ano: um filme de ação para a Netflix, chamado The Old Guard. Também temos muita coisa a acontecer na televisão. Estamos muito ocupados, o que é ótimo, mas ainda é uma empresa pequena, por isso as coisas que assumimos são realmente muito importantes para nós.  

Bombshell chega às salas de cinema portuguesas no próximo dia 23 de janeiro. 

Radhika Seth By Radhika Seth

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