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Entrevistas 9. 12. 2020

Entrevista | Charles, James Charles: License to Blend

by Sara Andrade

 

But not blend in. É assim que o influencer com milhões de seguidores distribuídos pelo Instagram, Twitter, YouTube, Tik Tok e pelo mundo em geral se apresenta. E não podia ser uma descrição mais perfeita. Fotografia de Marcus Cooper. Styling de Olga Yanul.

Photography: Marcus Cooper

[Camisola em neopreno, BALENCIAGA. Ao longo de todas as imagens, James Charles usa: Primer Hydrogrip, MILK MAKEUP. Base Born This Way no tom Nude, TOO FACED. Corretor Shape Tape Concealer, no tom Light Sand, TARTE. Pó solto translúcido, LAURA MERCIER. Paleta de contouring nas tonalidades Fawn, e pó para sobrancelhas, no tom Medium Brown, ambos ANASTASIA BEVERLY HILLS. Blush em pó no tom Baddie on the Block, KYLIE COSMETICS. Pestanas So Extra Miami, LILLY LASHES. Sombras em pó e highlighter no tom Face, tudo JAMES CHARLES X MORPHE. Pigmentos diversos nunca antes lançados, estreia da marca própria ainda por lançar, JAMES CHARLES ARTISTRY.]

É esta espécie de slogan, “Blend, but not blend in”, que pode sintetizar sem margem para erro aquilo que o jovem de 21 anos parece preconizar aos olhos do mundo: ele mistura, todos os dias, tonalidades, produtos, estilos, géneros. Mistura--se com marcas e mistura públicos – consegue impactar o dobro das pessoas que veem a Fox News, a CNN e a MSNBC juntas, referia um dos muitos artigos sobre a personalidade, em 2019, se isso lhe der uma ideia da sua influência, que, entretanto, se exponenciou em 2020. Mistura plataformas sociais, como o Youtube, que lançou em 2015, e mistura conversa com alguns dos mais reverenciados rostos das Artes e do Cinema, tendo sido convidado para a restrita MET Gala o ano passado, por exemplo. Mas não se mistura, as in, não é só mais um entre a multidão. Destacando-se pelo talento para a maquilhagem, com uma camada extra de atenção pelo facto de ser um rosto masculino a dar a cara pela vertente de Beleza, ser mais um simplesmente é algo que não vai funcionar para o norte-americano que já sofreu tanto de popularidade como de bullying nas redes sociais, experimentando em primeira mão tudo o que a Internet na era dos social media tem de bom, de mau e de vilão.

Foi vítima de difamação no YouTube, à conta de um vídeo publicado pela influencer Tati Westbrook, recheado de acusações danosas – nomeadamente, que “usava os privilégios que tinha para jogar com as emoções das pessoas” – algo que o fez perder milhões de seguidores; o youtuber repôs a verdade, a contestar a curta difamatória, só que demorou meses a recuperar do dano cibernético. Mas fê-lo. Pelo caminho, conquistou mais seguidores, conquistou fronteiras (foi o primeiro homem a ser rosto de uma marca de makeup, a CoverGirl, em 2016 (e tinha apenas 17 anos), conquistou públicos, enquanto anfitrião do reality show Instant Influencer e, de uma maneira geral, conquistou um lugar ao sol da fibra ótica desse mundo paralelo com regras muito especiais chamado Internet. Hoje, não temos dúvidas que irá quebrá-la com a sua primeira capa de sempre, e que não podia ser melhor: a da Vogue.

Não é uma, ou melhor, duas capas dadas à toa: os que veem um jovem a tirar partido do protagonismo, nós vemos um empreendedor, um empresário, um gestor, constantemente a fazer jogo de cintura entre os que o adoram e os que o querem detestar, os que o amam e os que o querem por interesse. Vemos um role model que sofreu na pele o assédio da Internet e que saiu por cima, não sem antes colocar o mundo a questionar o impacto da cancel culture e a indagar onde é que a justiça acaba e o bullying começa. Vemos um homem que está sempre atento à manutenção da sua relevância, trabalhando arduamente pelo conteúdo que melhor sabe fazer – as maquilhagens que dia a dia (re)inventa e que publica nas suas plataformas de vídeo e de fotos – ao mesmo tempo que batalha por cumprir sonhos. Como o de ter a sua própria linha de maquilhagem. Que estreia nesta produção da Vogue, prometendo que está para breve, mas que ainda não pode revelar muito. Misturámos a pessoa com o influencer – não foi realmente necessário, eles são um só, nada na sua imagem das redes sociais pretende ser uma persona além daquilo que ele é na sua essência, com mais ou menos maquilhagem – e questionámos o nova-iorquino sobre o seu amor pela make up art, o significado que dá à palavra “imperfeição”, e o poder esmagador, tanto positivo como negativo, das redes sociais.

[Casaco em feltro de lã, camisola em algodão e nylon e calças em sarja de algodão, tudo JIL SANDER. Sapatos em pele envernizada, LOUIS VUITTON.]

The Beauty of Imperfection é o tema desta edição: acredita que há beleza na imperfeição? Sem imperfeições, seríamos todos iguais e isso é aborrecido. A imperfeição é impossível de definir. O que uma pessoa pode achar "menos ideal", outra pode achar completamente bonito, é realmente tudo uma questão de perspetiva. A imperfeição é o que nos torna especiais e únicos, e isso é o que há de mais lindo nos humanos.

A maquilhagem é um lifestyle para si. O que pensa sobre o conceito de maquilhagem? Porque a abordagem é sempre divertida e artística, nunca é algo que está lá para "aperfeiçoar" de acordo com os padrões sociais. Sente que a beleza é mais para realçar características, para nos divertirmos, ao invés de algo para “mascarar imperfeições”? Não uso maquilhagem para cobrir imperfeições ou sentir-me mais confiante; uso maquilhagem para me expressar e para misturar, mas não para me disfarçar. Como social media influencer, tenho responsabilidade acrescida em mostrar aos meus seguidores que a beleza não é fazer check numa lista, mas um sentimento que vem de dentro. Esse sentimento é confiança, e tento empoderar os meus seguidores com essa confiança sempre que posso. A maquilhagem remove-se ao final do dia, é por isso que incentivo sempre quem me segue a não ter medo de experimentar e encontrar o que faz com que se sintam confiantes. Se quiseres usar lábios nude, usa lábios nude. Se quiseres fazer um smokey eye em azul, faz um smokey eye em azul. Se quiseres cobrir as sobrancelhas e pintar tudo em modo drag, força! A coisa mais importante, é ainda assim amares a tua tela em branco quando lavares o rosto de tudo isso.

[Top em malha de algodão, SPORTMAX.]

Há sempre o seu quê de tentativa e erro quando experimenta novos looks. É uma parte natural do processo criativo. Errar é humano – errar também é criativo? Toda a minha carreira com maquilhagem foi de tentativa e erro, e [isso foi algo] que documentei nas minhas contas de redes sociais. Nunca retiro ou pratico looks de antemão, por isso, o meu rosto é sempre a minha primeira tentativa. Através da prática, fui capaz de me ajustar, experimentar novas técnicas e definitivamente tornar-me um artista melhor. Mas isso é irrelevante, porque grande parte da diversão é simplesmente tentar coisas novas e aprender a transformar os erros numa obra-prima!

Como é que cada look de beleza lhe surge? De onde vem a sua inspiração? Nunca sei como responder a essa pergunta. A inspiração vem de todo o lado! Inspira-me o mundo ao meu redor, os meus fãs, outros artistas incríveis na comunidade de beleza e, mais frequentemente, os meus próprios pensamentos e sonhos. Criar novos visuais nem sempre é fácil, mas fazer o brainstorming para o próximo mega momento de maquilhagem é sempre eufórico.

Quando soube qual era o tema desta edição, que looks de beleza pensou instantemente que podiam ser uma reflexão desse tema? The Beauty of Imperfection representa tudo o que defendo como criador. Eu diria que sou um perfeccionista, porque me esforço sempre por trabalhar muito e para ser a melhor versão de mim mesmo, mas estou constantemente a mostrar aos meus fãs, dentro e fora das câmaras, que a perfeição é impossível de alcançar. Nos meus stories, faço atualizações em tempo real sobre as minhas emoções, o bom, o mau e o feio. Nos vídeos, cometo sempre erros e percalços, mas depois explico como superá-los. Um retrocesso é apenas uma preparação para uma recuperação. Eu escolhi vários looks para esta edição que me guiam ao longo do meu processo de maquilhagem do início ao fim. A começar nas minhas sardas naturais e pele nua, à qual lentamente vou adicionando maquilhagem até ter uma pintura completa do arco-íris no meu rosto… Não importa quão “perfeita” uma obra de arte final possa parecer, o processo de criação dessa arte é imperfeito e isso é o que é bonito.

A perfeição existe? E o que é "perfeição" para si, pessoalmente? A perfeição é um mito, um padrão impossível de se alcançar. Há um ditado popular que diz que se deve apontar para a lua e que, em caso de falha, se aterrará nas estrelas. Por mais que possa parecer um clichê, é muito verdade. Eu aponto para a grandeza, porque isso me pressiona a trabalhar mais, mas é importante aceitar que podes conquistar algo que é imperfeito.

Apresenta o programa Instant Influencer, no YouTube Originals. E o The Guardian disse sobre esta “nova competição para encontrar o próximo vlogger de maquilhagem do YouTube” que “pode ser o reality show mais transparente de 2020”. Acha que o mundo precisa de mais programas como este? E vê-se cada vez mais neste papel de anfitrião? Digo sempre que criar, produzir e apresentar o Instant Influencer é o momento de maior orgulho da minha carreira. Uma coisa é tornares-te um influencer, mas ser capaz de estender essa oportunidade a tantos artistas menos conhecidos que [também] merecem é um sentimento como nenhum outro. Era importante para a minha equipa de produtores executivos e para mim que o Instant Influencer fosse transparente porque é exatamente assim que esta indústria é! Habilidade é apenas parte do trabalho. A dura realidade é que a comunidade de beleza é um espaço muito saturado e há um milhão de artistas qualificados por aí. Não importa o quão talentoso possas ser, é muito desafiador ser notado e pavimentares o teu próprio caminho. Tornares-te um influencer de sucesso é realmente uma questão de personalidade, construíres a tua marca e, o mais importante, quão bem és capaz de entreter e inspirar outras pessoas. Esse é o verdadeiro teste que queríamos colocar aos nossos artistas em vez de apenas focar a habilidade, e acho que é isso que o tornou tão único. A maioria dos reality shows foca-se no drama ou nas eliminações escandalosas (e não me interpretes mal, eu amo e vejo todos estes programas), mas queríamos concentrar-nos na educação e na transparência. Conseguimos dar a vários pequenos artistas plataformas que eles trabalharam arduamente para conquistar, mas também educar milhões de espectadores com dicas e truques secretos para terem sucesso como influencers, ao mesmo tempo que encorajamos as pessoas a perseguir os seus sonhos.

Desenvolveu alguns produtos com a marca de Beleza Morphe. A próxima etapa será criar a sua própria marca? Sempre adorei arte e negócios, por isso, desenvolver as minhas paletas com a Morphe e ver todas as minhas sisters (fãs) a libertar a artista dentro delas espoletou uma faísca em mim para continuar a desenvolver produtos. Criar a minha própria marca de maquilhagem é o sonho absoluto. Não posso revelar muito, mas direi que sim, está em andamento e trará consigo os meus valores como criador, o princípio de sempre seres fiel a ti próprio e de misturares, mas não te deixares misturar na multidão.

Foi o primeiro porta-voz masculino da CoverGirl, em 2016. Acredita que esse possa ter sido um momento maior do que apenas uma conquista pessoal? Quando me ligaram a propósito da CoverGirl, eu jamais poderia imaginar o quão enorme se tornaria. Claro que fiquei honrado com a oportunidade, mas não percebi como o anúncio poderia chocar o mundo. Sempre houve homens incríveis na beleza, mas colocar essa realidade sob os holofotes e mostrar ao mundo que os homens na maquilhagem podem ser mainstream, foi um grande passo em frente. Maquilhagem não tem limites nem fronteiras. A maquilhagem é para todos.

É um dos os criadores mais seguidos em termos de social media. Qual é a maior imperfeição das redes sociais – e não queremos dizer de um modo belo? Acho que a razão pela qual as redes sociais podem ser belas é a mesma razão pela qual são perigosas: a falta de privacidade. Ao permitir que as pessoas entrem na minha vida, sou capaz de construir uma conexão forte com os meus fãs que as celebridades não eram capazes de fazer antes da era das redes sociais. Dito isto, nada na minha vida é privado. A cada restaurante que vou, cada rapaz com quem converso, cada pessoa de quem sou amigo ou não amigo torna-se um tópico de discussão e especulação. Torna-se difícil movimentares-te quando o mundo é capaz de criticar cada movimento teu.

No seu entender, a cultura de cancelamento poderá ser um dos maiores erros decorrentes dos social media? E o seu efeito na saúde mental, também? Como lida com isso? Já disse isto muitas vezes: a “cultura de cancelamento” é um parasita. É completamente irónico pedir às pessoas que cresçam e aprendam com os seus erros enquanto, simultaneamente, lhes retiram a plataforma, privando-os da oportunidade de mudar. Ninguém é perfeito e nós, como sociedade, devemos ter mais empatia com os outros que estão dispostos a tornarem-se melhores. Para mim, é sobre a pessoa e se a sua intenção e o seu coração estão no lugar certo. Todos cometemos erros e um dia adoraria ver esta empatia a ser a nossa primeira reação online.

Acredita que, numa época de redes sociais – ou melhor, de julgamento social, e sabe melhor que ninguém o que isso é –, não há espaço para erro, para se ser imperfeito? Está tudo à espera que cometa um erro apenas para o julgar e condenar? Porque acha que isso acontece? A razão pela qual as pessoas são tão rápidas em perceber as imperfeições dos outros é porque elas não conseguem aceitar as suas próprias imperfeições. Todos nós precisamos de nos concentrar em ser empáticos para com os erros e elevarmo-nos uns aos outros, que é algo que tenho trabalhado e continuarei a trabalhar em mim mesmo. É nossa responsabilidade usar as plataformas para trazer alguma consciência para as injustiças na sociedade moderna e fazer uma mudança para o melhor, não nos destruirmos uns aos outros.

Os haters das redes sociais têm demasiado poder? Se sim, quem acha que o está a permitir? Nós? Eles mesmos? Os haters de social media só têm o poder que lhes deres. Infelizmente, algumas pessoas vão sempre regozijar-se com a queda dos outros. No início da minha carreira, sentia sempre uma necessidade de me justificar e argumentar contra o ódio, mas à medida que fui crescendo, aprendi a concentrar-me nos milhões de fãs que me apoiam, em vez do contrário.

Qual foi o maior dano colateral que as redes sociais tiveram na sua vida? E o que lhe trouxeram de melhor? As redes sociais definitivamente tiveram um impacto positivo na minha vida maior que o negativo. Através da minha plataforma consigo chegar, impactar e inspirar diretamente milhões de pessoas, e nunca teria tido essa oportunidade sem social media. Por mais que eu seja capaz de impactar os outros, a maior vantagem é, no entanto, os meus fãs impactarem-me a mim. Ainda no outro dia, fiz retweet de um vídeo de um menino a dizer à mãe: ‘Eu quero ser como o James Charles e trabalhar em maquilhagem!’. Ao ver o meu retweet, a mãe comproulhe a minha paleta nesse mesmo dia. E ver o entusiasmo no seu rosto e poder seguir os looks que tem criado são as motivações pelas quais eu trabalho nisto todos os dias.

É mais difícil lidar com tudo isto, o bom e o mau, sendo um jovem de 21 anos? O que é o mais difícil? Acho que a minha idade é tanto uma bênção como uma maldição. É incrível ter a mesma idade de muitos dos meus seguidores porque nos podemos identificar a tantos níveis, mas, ao mesmo tempo, crescer sob os holofotes é muito difícil. Relacionamentos são com certeza a coisa mais difícil de gerir. Nunca se sabe as verdadeiras intenções das pessoas, por isso, tenho sempre tendência para me proteger. Aprendi isso da maneira mais difícil e, infelizmente, da maneira mais pública, mas tornei-me uma pessoa muito mais forte e mais inteligente quando se trata de namoros e desgostos.

É um modelo para muitos. Para milhões. Que tipo de influência se esforça para passar? E, se pudesse escrever o seu próprio legado, o que gostaria que ele dissesse? Eu quero encorajar cada pessoa que me segue a ser ela mesma e a amar quem essa pessoa é. A vida é muito curta para a desperdiçares a interpretar um personagem e esconder quem realmente és. Eu estaria a mentir se dissesse que não espero deixar um legado para trás, mas no final do dia, não me preocupo muito em ser uma lenda, preocupo-me em inspirar as lendas que hão de vir.

Projetos vindouros: o que nos pode dizer sobre o que tem planeado e o que tem na wishlist, em termos profissionais? Estou sempre focado em criar conteúdo interessante e inovador para o meu canal de YouTube, em tirar fotos giras para o Instagram, e em partilhar o que me vai na alma, no Twitter. tenho tantas coisas em andamento que gostava de poder revelar mais, mas posso dizer que há algo em grande a chegar para os meus apoiantes mais fervorosos, perto do Natal.

A sua vida é perfeita? Nem de perto nem de longe. A minha vida é perfeitamente imperfeita, e é assim que eu gosto.

Fotografia: Marcus Cooper. Styling: Olga Yanul. Maquilhagem: James Charles. Produção: Tony Jay @ On The Map Creative. Set Design: Isaac Arron. Assistente de styling: Diana Melnikova. Assistente de fotografia e iluminação: Alicia Prince. A Vogue Portugal agradece a Walter Young e ao L1N3 Studios todas as facilidades concedidas. Editorial realizado em exclusivo para a Vogue Portugal.

Publicado originalmente na edição The Beauty of Imperfection da Vogue Portugal, de novembro 2020.
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