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Project: Vogue Union | Carla Pontes, sensibilidade e (muito) bom senso

03 Sep 2020
By Ana Murcho

No princípio eram peças de roupa, depois transformaram-se em sonhos de algodão que todos podemos vestir.

No princípio eram peças de roupa, depois transformaram-se em sonhos de algodão que todos podemos vestir.

Carla Pontes © José Fernandes via carlapontes.com
Carla Pontes © José Fernandes via carlapontes.com

Tudo em Carla Pontes tem um sentido, uma razão de ser. A começar pelas coleções, que têm nomes fortes, normalmente ligados à inspiração que ditou o rumo da agulha. A primeira feita já com marca homónima, para a primavera/verão 2013, chamou-se Pedra. Seguiram-se títulos como BLOCO, na estação imediatamente a seguir, MOUNTAIN (outono/inverno 2016), ou REMEMBER (outono/inverno 2019). Em todas elas, sente-se uma preocupação com a construção das peças que vai além do objeto em si, como se cada uma delas fosse encarada como algo com vida própria, que é “descosido” até ficar apenas o essencial. Mas de onde vem este cuidado, este “apuramento formal e da simplicidade contemporânea”, como escreve o seu site oficial? “Na realidade penso que começou quando ainda nem tinha noção do que era design de Moda. Era uma criança muito curiosa e em constante procura por meios de expressão física e plástica. Cresci entre a indústria têxtil familiar, aulas de ballet e um grande gosto pelo desenho e pela pintura. Acabo por me licenciar em Design de Equipamento [em 2008] e de seguida vou tirar o curso de Design de Moda [no CITEX/MODATEX]. Esta formação inicial ainda hoje influencia em muito a minha forma de desenhar Moda.”

“Estamos numa nova fase, mais consciente e sem pressa para produzir coleções enormes e em todas as estações."

Isto foi só o começo. O minimalismo depurado com que Carla Pontes agora nos presenteia refinou-se nos anos seguintes. Meses após terminar o curso de Design de Moda, foi uma das vencedoras de um concurso de design do Portugal Fashion, o que lhe deu a oportunidade de apresentar a sua primeira coleção, na plataforma de jovens criadores BLOOM. Estávamos em 2012. Desde então passou a ser presença regular nas apresentações do Portugal Fashion, dentro e fora de portas. Em 2014 começou a ser formadora no MODATEX e, no ano seguinte, foi a vencedora portuguesa do European Young Designers Contest. Pelo caminho, fez roupas que são uma espécie de sonho tornado realidade, e desceu à terra, para mais perto de nós, ao abrir o CARLA PONTES // lab store, em Barcelos, um espaço “de caráter multifacetado dedicado ao desenvolvimento, exposição e venda das criações da marca.” É precisamente sobre isso que queremos falar, sobre as criações da marca. Há alguma que seja particularmente representativa do seu ADN? “Sim, sem dúvida que há, e a instalação PAUSA foi criada com o propósito de apresentar o processo de criação e reforçar o meu ADN enquanto designer. Nesta criação quase escultórica é apresentado o casaco LEAF em três dos principais momentos de sua criação: inspiração - a tulipa; modelação - molde único e contínuo que reflete a tulipa aberta; e a peça confecionada e fechada - que numa relevância de eterno retorno volta a ser reconhecida com uma representação do elemento de inspiração. O curioso é que nenhum destes momentos representa a peça vestida, porque este era o formato que todos já conheciam, a peça, sem saber como se chegou àquele desenho.” 

E se PAUSA é um bom reflexo do seu ADN, que slogan se poderia associar a Carla Pontes - hipoteticamente falando, claro está? “Neste momento acho que seria algo que valorize o tempo dedicado à criação, bem como o tempo que ela pode perdurar. Algo como: ‘do meu tempo, para todo o teu tempo.’" E por falar em tempo, como tem sido este que agora vivemos? Como é que se faz, e pensa, Moda neste período pós-pandemia? “Estamos numa nova fase, mais consciente e sem pressa para produzir coleções enormes e em todas as estações. Como queremos criar objetos que se prolongam no tempo, não acreditamos na necessidade constante de novas propostas. Vamos fazer propostas pertinentes, provavelmente alargando projetos como o Project: Vogue Union ou procurando criar colaborações com propósito. Portanto, a próxima coleção vai manter os princípios de intemporalidade e mais uma vez será apresentada sem estação. Vai continuar a envolver outros mundos criativos e a ser programada em apresentações que contemplam o processo e as peças, quer em formatos de instalações vivas, ou formatos mais expositivos.” Estas alturas, arriscamos, podem destruir muitos negócios. Por tudo em causa. Alguma vez pensou em desistir? “Sim, faz parte das inseguranças de se ser humano. Mas nunca conseguimos desistir de algo que nos define. Não são os momentos de criação que me trazem essas vontades de desistir, são mais a dificuldade inerentes à comercialização de produtos de autor num meio que os desvaloriza três meses depois de entrarem nas lojas.” E quando é que sente que tomou a decisão certa, que nasceu para ser designer - e não bailarina? “Os momentos de reconhecimento trazem sempre bons sentimentos e renovam energias.” 

Carla Pontes está ciente do rumo a seguir. Tem um dom, e sabe-o. É por isso que desenha ao sabor da sua inspiração, e não ao sabor do calendário. Quando questionada sobre a possibilidade de voltar atrás e refazer alguma coleção, é assertiva: “Depois de cada apresentação tenho essa sensação de querer voltar atrás para a melhorar ou afinar uns pequenos pontos que não ficaram como queria. Contudo, não me martirizo, porque sei que fiz o melhor que consegui naquele momento e no tempo que tive para fazer a coleção. E é neste sentido, o de querer mais tempo para dedicar aos detalhes, que as minhas últimas coleções e as coleções futuras não se prendem a estações e são apresentadas segundo um calendário mais natural para mim.” As pernas só lhe tremem (metaforicamente) quando perguntamos o nome de um colega, português, com quem gostaria de colaborar. “Não tenho dúvidas que escolhia o Felipe Oliveira Baptista. Admiro muito o trabalho e os seus universos criativos. Seria uma aprendizagem incrível para mim, uma colaboração super estimulante que me traria muito gosto em humildemente partilhar também o meu processo.” De resto, falar com Carla Pontes é ter a certeza que do outro lado está alguém com um gigantesco mundo interior. Este perfil tem várias “perguntas da praxe”, uma espécie de make or break, e ela não as falha. O que é que gostaria que lhe perguntassem numa entrevista, mas nunca o fazem? “Nunca pensei muito nisso, mas tenho especial gosto em responder a questões que me surpreendem pela positiva.” E qual é a pior pergunta que lhe podem fazer numa entrevista? “Qual a tendência para a próxima estação? Isto apenas porque eu não trabalho com tendências.” Por último: a união nesta indústria é possível ou é uma utopia? “Sem dúvida que é possível, a união já existe nesta indústria! Considero que a velocidade imposta pelo mercado retira aos designers, sobretudo os que têm estruturas pequenas, o tempo e o distanciamento necessário para planear projetos sólidos de parcerias que possam viver em paralelo com as suas marcas.” Carla Pontes dixit.

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