Fotografia de David Paige. Editorial Mestres da ilusão, da edição Magic da Vogue Portugal, publicada em outubro de 2018.
Para a primavera/verão 2026, a Moda descobre o livro. Não para o ler, mas para o segurar.
Por acaso, pus o livro que estava a ler no bolso de trás das minhas calças de ganga. Não me apetecia andar com uma mala para o carregar e estava um dia tão bom que o queria ter para ler enquanto estava no metro, ou se visse um banco ao sol particularmente sedutor. Escolho ignorar as alegações de “performative male” que com certeza estão corretas até certo ponto — não foi por acaso que a camisola que decidi vestir era de uma cor complementar à da capa do livro. Mas fora a minha futilidade natural, a decisão foi feita por questões que não a vaidade. Ia passar uma boa parte do dia sozinho até me encontrar com um grupo, por isso achei que sempre seria uma melhor forma de me ocupar do que estar no meu telemóvel. Assim que me encontrei com os ditos amigos, mais do que um notou o facto de eu ter um livro no bolso. Não me davam os parabéns por ler — o tipo de medalha que sinto que mereço por escolher a leitura em vez de estar no TikTok — mas elogiavam-me o livro como acessório. Sem querer, participei numa das tendências mais insidiosas da estação estival que se aproxima: literacia.
Dias antes da sua estreia para a Dior, em junho do ano passado, Jonathan Anderson publicou fotos que seriam teasers para a coleção histórica. Entre as fotos de artistas como Basquiat, surgiam capas de livros como a da edição de Drácula de Bram Stoker em amarelo e vermelho. Não demorou muito para que investigadores online fizessem a ligação entre as imagens e uma das carteiras mais icónicas da maison: a book tote. Introduzida em 2018 pela então diretora criativa Maria Grazia Chiuri, e inspirada por desenhos de Marc Bohan, foi de facto alvo de uma makeover. Com o mesmo formato prático, a carteira era agora adornada com as mais variadas capas de livros vintage. Talvez mais que qualquer outro acessório, a reinvenção da carteira simboliza a perspetiva de Anderson para a marca. Com pronto-a-vestir que é decididamente feminino, o acessório define a mulher Dior como alguém que é tão delicada como intelectual. Os livros são ilustrações desta mentalidade. A posse de uma book tote com a capa de um livro é um sinal, a prova de que existe profundidade para além da Moda. De uma forma semelhante (ou talvez ainda mais direta), a Coach introduziu um bag charm que é um livro — literalmente. A marca americana de acessórios apresenta mini- versões de obras como Sei por que o pássaro canta na gaiola, de Maya Angelou, e Sensibilidade e bom senso de Jane Austen. Estas versões miniatura podem ser lidas, mas algo em nós duvida que alguém o faça, não só porque seria necessária uma lupa ou visão perfeita para tal leitura, mas porque estes não são livros: são acessórios.
Os livros são ilustrações desta mentalidade. A posse de uma book tote com a capa de um livro é um sinal, a prova de que existe profundidade para além da Moda.
Mas não são só os livros; os próprios escritores são transformados em acessórios perante a indústria. No mais recente fashion month para as apresentações de outono/inverno 2026, várias marcas substituíram modelos por figuras literárias. Em Nova Iorque, a marca de culto Eckhaus Latta convidou Samuel Hines, editor da GQ americana, como modelo. Enquanto em Paris, na Givenchy, a escritora Constance Debré fez parte do elenco do desfile. Vamos pôr os pontos nos is. Colocar escritores na passerelle não é uma novidade: desde cedo que a relação entre a literatura e a Moda é íntima — Elsa Schiaparelli, por exemplo, incluiu Jean Cocteau na corte de artistas da qual se rodeava e na qual se inspirava. O que denotamos aqui é uma frequência acentuada. No paralelo exato da situação, aparecem mais e mais fotos de paparazzi que fotografaram modelos com livros. Entre os exemplos, Gigi Hadid, apanhada à saída de um desfile com O Estrangeiro, de Albert Camus, cuidadosamente inclinado num ângulo, não como quem vai ler o livro, mas como quem quer que seja fotografado. Não é um ataque. Não vivemos sob a noção de que “modelos não leem livros”, nem que pela sua profissão sejam menos cultos do que qualquer outra pessoa. Mas, com a mesma energia que Addison Rae foi fotografada a passear com o nariz numa cópia do Manifesto Comunista de Karl Marx, a linha entre ficção e não ficção é cada vez mais difícil de decifrar. Nos dois casos, o livro foi o acessório que fez o outfit.
Como em tudo na vida, há duas formas de olhar para esta tendência. Primeiro, e talvez a menos popular, de forma positiva. Na era da dependência total do telemóvel e de compreensão literária progressivamente reduzida, qualquer tipo de motivação para ler é boa. Não importa se a leitura é feita a favor do narcisismo desmedido gerado pela noção de que, na era das redes sociais, somos sempre uma foto à espera de acontecer. Desde que os nossos olhos deslizem pelas frases e o nosso cérebro retenha pelo menos 65%, já é uma vitória. Claro que a menção deste facto é raramente encontrada online. Normalmente, a conversa rodeia factos de apropriação, interpretações do significado de tal tendência. Ainda que seja do contra e, portanto, queira ignorar estes argumentos como combinações letais de vocabulários complexos e substância nula que caracteriza a maioria destes “video essays", o facto é que a tendência é interessante de um ponto de vista sociológico. Porque é que agora, que passamos por uma crise de literacia e um momento anti-intelectual assustador, surge tal tendência na indústria da Moda?
Podíamos passar uma eternidade a dissecar teorias académicas que explicam o porquê da situação, a forma como numa sociedade neocapitalista o valor da performance supera o da própria vida, mas não o faremos. Em vez disso, escolhemos pensar em como capitalizar a tendência para um futuro mais intelectual. O Miu Miu Literary Club é uma iniciativa que torna a Moda num pretexto para educação. À medida que o resto da indústria cultiva uma fixação algo superficial pela literatura, Miuccia Prada substancia a obsessão. À semelhança de Women's Tales — o projeto da marca que convida realizadoras a produzir curtas-metragens originais —, o Literary Club promove conversas entre escritoras, abertas ao público e, através do programa Summer Reads, distribui gratuitamente milhares de exemplares dos seus livros, em pop-ups espalhadas pelo mundo. Há uma tentativa de devolver ao livro a sua função primordial: a de ser lido. O projeto não existe no vácuo. Após a coleção primavera/verão 2026 da Miu Miu, que explorou a domesticidade como uma forma de opressão, a literacia surge como antídoto às questões colocadas por um desfile marcado por aventais e roupões. Se a Signora Prada o diz é porque tem de ser verdade: não há nada mais chique do que ler.
Originalmente publicado no The Heart & Reason Issue, a edição de maio de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui.
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