The Sleeping Issue da Vogue Portugal, publicado em abril de 2026.
Entre o bom e o menos bom (que, segundo a própria, nunca chega a ser mau) de longos anos passados à frente da câmara, Emma Chamberlain cresceu no mundo digital com uma fluência rara e vanguardista. Agora, ao invés de se deixar moldar pela experiência, assume um rumo que, apesar de novo, se faz sentir tão natural quanto os simples vlogs que lhe conquistaram um lugar nos pódios da Internet — e nós, a audiência, viajamos com ela, pela deriva e até ao destino, seja ele qual for.
Quando me sentei para falar com Emma Chamberlain, senti um nervoso miudinho. É normal, faz parte e, honestamente, recomenda-se. Com apenas 25 anos e uma quantidade de job titles que quase roça o absurdo, não tinha a certeza sobre o que esperar da personalidade que é tão carinhosamente apelidada como a “melhor amiga da Internet”. Durante o shooting para o tema de capa do The Sleeping Issue da Vogue Portugal, Emma conquistou todos os membros da equipa que deram vida a este editorial; e, durante esta entrevista, conquistou-me a mim.
Numa conversa que me fez sentir como se estivesse apenas a descobrir cada vez mais sobre a minha personal close friend (porque se há situação em que slang da Internet se adequa, esta é, sem dúvida alguma, uma delas), Emma levou-me numa aventura pelos cantos e recantos da autenticidade que torna a sua carreira tão fascinante e a sua personalidade verdadeiramente irreplicável. Pode parecer paradoxal, numa edição que celebra o sono, entrarmos no mundo de alguém que não só navega pelos algoritmos da Internet como também dá nome (e marca) a um dos hábitos mais contraproducentes ao ato de dormir: beber café. Mas Emma é muito mais que uma mera criadora digital ou a empreendedora por detrás da Chamberlain Coffee; como a própria indica, após anos à frente da câmara, tornou-se agora uma espécie de tela criativa para a Moda e, claro, para a arte que a encerra.

Casaco, THOM BROWNE. Brincos, TIFFANY & CO.
Passaste grande parte da tua vida à frente de uma câmara, mas estou curiosa para saber: o que é que, de facto, te levou a pegar numa câmara e a começar a documentar a tua vida?
Bem, primeiramente, devo dizer que cresci a ver YouTube. Em vez de ver filmes ou séries de televisão, cresci a consumir YouTube, e os youtubers eram, de certa forma, as minhas estrelas de cinema. Acho que foi esse amor pela plataforma e pelo conteúdo que lá existe que me levou a gravar e a criar vídeos. Gostava tanto de ver YouTube que também quis fazer os meus próprios vídeos. Foi algo inato, mas acho que ver YouTube em criança teve definitivamente um papel enorme no meu começo.
Construíste a tua carreira com base numa autenticidade inabalável. Isto foi uma decisão consciente, ou alguma vez sentiste que teria sido benéfico se te tivesses conformado a algum padrão?
Já pensei muito nisso porque, até para mim, é um pouco misterioso. Acho que, por alguma razão — e não sei bem de onde vem nem como aconteceu —, é simplesmente assim que o meu cérebro funciona: tenho de dar tudo de mim, em todos os momentos. É como se fosse o meu tipo de personalidade. E isso surgiu de forma muito natural, para mim, na Internet. Devo dizer que, no início, estava definitivamente a tentar ser um pouco mais recatada e bem comportada, porque era mais ou menos isso que via as raparigas da minha idade a fazerem, enquanto crescia. No início, estava a tentar imitar o que tinha sucesso na plataforma naquela altura. Mas muito rapidamente isso pareceu-me errado — e de forma bastante clara — porque sou naturalmente bastante aberta e autêntica. E, mais uma vez, é um mistério para mim porque é que sou assim, simplesmente sou. [Conformar-me] não durou muito tempo, porque sentia que era errado, e rapidamente pensei: “A única coisa que preciso de fazer é ser eu mesma e ver o que isso dá”. E assim que o fiz, teve um grande impacto.
Desde então, acho que, no que diz respeito à minha presença na Internet, gosto de acreditar que mantive um certo nível de autenticidade. Acho que a única altura em que isso talvez tenha vacilado foi quando, a nível pessoal, na minha vida privada, tive dificuldade em ser autêntica, porque isso acontece às vezes até aos melhores de nós. Mas acho que isso tem menos a ver com a Internet e mais com a vida pessoal. Não sinto necessariamente uma pressão da Internet; diria que é mais um desafio pessoal.

Vestido, GIORGIO ARMANI. Brincos, TIFFANY & CO.
Acho que manter esse nível de autenticidade é também o que torna o teu conteúdo e a tua personalidade tão cativantes para o público. Aliás, és muitas vezes apelidada “melhor amiga da Internet”. Como é que lidas com as relações parassociais que advêm disso?
Tenho tido muita sorte porque, sinceramente, tenho vivido uma experiência muito bonita devido a isto. Acho que, sim, houve alguns desafios, mas vou começar por falar do que tem sido tão bonito nisto tudo. Sinto que conheço pessoas que seguem o meu conteúdo na vida real e tenho experiências maravilhosas e gratificantes com essas pessoas, porque, de certa forma, elas conhecem-me. Não me conhecem completamente, mas conhecem-me surpreendentemente bem. Estas pessoas conhecem-me melhor do que alguns dos meus amigos superficiais que vejo de vez em quando em LA. Sabem mais sobre mim do que eles, sinceramente. E talvez eu os conheça num contexto diferente. Por isso é muito estranho: sim, é parassocial, mas também é estranho porque conheço estas pessoas e elas sabem realmente muito sobre mim. Eu não sei nada sobre elas, mas elas sabem muito sobre mim. E há um companheirismo imediato e uma ligação imediata que acho que é realmente especial. E, obviamente, há limites: a minha privacidade é importante para mim. Mas tenho tido tanta sorte que o meu público, na sua maioria, tem respeitado isso de forma esmagadora e tem sido tão maravilhoso e fantástico. Tenho muita sorte por poder viajar pelo mundo e conhecer pessoas constantemente, de uma forma que a maioria das pessoas talvez não tenha oportunidade de fazer, e isso é muito, muito especial; sinto-me muito grata por isso, porque quase que sinto que tenho um amigo em qualquer lugar.
Devo dizer, no entanto, que também há desafios: por vezes existe uma espécie de expectativa para eu produzir um certo volume de conteúdo para, de certa forma, alimentar a relação. Isso pode ser complicado, porque há momentos em que preciso de ter mais privacidade. De me manter mais reservada, por assim dizer. E encontrar esse equilíbrio tem sido um desafio para mim, e causou-me definitivamente muitos momentos de esgotamento, durante os quais exigi demasiado de mim e acabei por entrar em burnout muitas, muitas vezes — o que acaba por fazer com que, na verdade, publique menos conteúdo. Isso é algo com que ainda lido, porque existe uma espécie de expectativa do tipo: “Bem, Emma, somos teus amigos, por isso tens de estar sempre disponível para nós”. E essa pressão desafiou-me psicologicamente e criou alguns bloqueios mentais, mas vale a pena o desafio. Nem sequer estou a queixar-me disso. É apenas a verdade.

Casaco e calças, DILARA FINDIKOGLU. Brincos, TIFFANY & CO.
Também te tornaste adulta sob o escrutínio público. Foi fácil aprender a lidar com os teus próprios relacionamentos e amizades?
No que diz respeito às minhas relações pessoais e à minha carreira, sou muito protetora em relação às pessoas que fazem parte da minha vida e tenho muito cuidado ao incluir pessoas no meu conteúdo e coisas desse género. Sou muito cautelosa nesse aspeto e não tendo a misturar trabalho com lazer. Não que nunca o tenha feito, porque definitivamente já o fiz, mas sou muito cuidadosa com isso e, muitas vezes, quando misturei as duas coisas, acabei por me arrepender mais tarde, para ser sincera. Nem sempre, mas acho que, no que diz respeito às minhas relações pessoais, aprendi sobre todas as facetas da vida sendo já uma figura pública e isso mudou a forma como me desenvolvi em todos os aspetos. Acho que, na verdade, de uma forma muito bonita, há uma série de circunstâncias invulgares que acrescentam variáveis invulgares. Mas acho isso muito interessante porque, na verdade, acho que sou uma pessoa melhor, uma amiga melhor, todas essas coisas, por causa da variável bizarra que é ser uma figura pública. Acho que isso desafiou certas partes normais da vida, como fazer amigos e namorar. Desafiou-as de certa forma porque acrescenta uma dinâmica estranha. E acho que superar isso, não só como indivíduo, mas também com as pessoas na minha vida, fortaleceu essas relações e fez-me confiar mais em mim mesma e nas escolhas que faço em relação às pessoas com quem me relaciono.
Há alguma versão de ti mesma dos teus primeiros tempos no YouTube da qual te sentes particularmente protetora agora?
Sinceramente, provavelmente devia ser mais protetora em relação à minha versão mais jovem, mas devo admitir que, regra geral, acho só cringe. Vou ser sincera, acho cringe. Provavelmente não sou tão protetora comigo mesma como devia ser. Eu era literalmente uma criança quando comecei, e acho que sou particularmente dura comigo mesma, o que é algo em que estou a trabalhar ativamente e provavelmente vou trabalhar para o resto da minha vida, porque parece estar meio enraizado em mim como pessoa, ser muito dura comigo mesma. Acho que a maioria das pessoas é assim. Mas eu sou uma pessoa de extremos, por isso levo isso ao auge, quer queira quer não. Mas também sou gentil comigo mesma. Eu era uma criança. Com a maioria das crianças, essa idade não fica documentada a este ponto. A maioria das pessoas consegue esquecer um pouco como eram aos 16, 17, 18, 19, até 20 anos, e eu não consigo esquecer. Mas não queria que fosse de outra forma. Estou tão grata pela forma como tudo acabou por correr. Tem valido totalmente a pena, mas é definitivamente desconfortável de ver, às vezes.

Macacão, LOUIS VUITTON. Brincos, JUSTINE CLENQUET.
Como é que o teu conteúdo mudou ao longo dos anos? Porque, obviamente, cresceste na Internet mas tu própria também cresceste. De que forma é que o teu conteúdo refletiu isso?
Como o meu conteúdo reflete muito da minha pessoa, acho que, quando era mais nova, o meu trabalho tinha definitivamente um espírito mais jovem. Era mais acelerado e caótico. À medida que fui envelhecendo, acho que o ritmo do conteúdo abrandou bastante, especialmente quando cheguei aos 20. Agora que estou quase a chegar aos 25, estou prestes a entrar numa nova fase. Mas, no início dos meus vintes, passei definitivamente por um período muito desafiante e, por isso, acho que os meus vídeos e o meu conteúdo abrandaram um pouco. Também desenvolvi uma paixão muito profunda pela Moda e pelas artes visuais, tornando-me uma espécie de tela para a Moda, para shootings editoriais e coisas do género. E isso passou também a estar na vanguarda da minha criação. Estou numa fase em que me sinto, de certa forma, à beira do precipício do que me espera a seguir. Estou mesmo a tentar perceber isso neste preciso momento, a tentar descobrir: como será a minha presença na Internet? Como será a minha presença noutros meios? Como adulta. Porque o meu córtex pré-frontal já está quase totalmente desenvolvido, e deixem-me que vos diga, não era assim quando comecei. Por isso, abrandei e amadureci. Agora, acho que estou a voltar a ser eu mesma. Passei por um período difícil e acho que agora estou realmente a estabilizar; a recuperar o meu humor e todas essas coisas diferentes que sinto que perdi por um tempo, durante uma fase mais desafiante. Estou pronta para reintegrar isso na minha presença online, porque, agora, tenho isso para oferecer, e não o tinha durante um tempo. Está tudo meio que num limbo neste momento, mas eu própria estou curiosa para ver o que vai sair daqui, porque também é um mistério para mim.
Li que, no que diz respeito à criação de conteúdo, sentes que estás a seguir uma direção um pouco oposta às tendências atuais — como publicar vídeos mais longos e não usar cold opens — e que ter a liberdade de o fazer é um privilégio. Quando é que percebeste, pela primeira vez, que podias, de certa forma, ir contra o algoritmo dessa maneira?
Acho que nem sequer foi uma questão de ter chegado a essa conclusão. É mais como se nunca me tivesse importado realmente com o algoritmo, e sei que isso é um privilégio, sem dúvida. É mesmo, e estou muito grata por isso. Mas, ao mesmo tempo, acho que, para mim, a minha prioridade número um é criar coisas das quais me orgulhe no momento, apesar de sofrer imenso de síndrome do impostor. Acima de tudo, o meu objetivo é sentir o máximo de orgulho possível e que algo venha do meu coração. As pessoas podem não gostar. Às vezes, até eu posso não gostar uma semana depois. Mas desde que flua de mim naturalmente naquele momento, e não seja forçado, e seja uma ideia que me entusiasma genuinamente e me faz sair da cama, então é isso que vou fazer. E, por isso, o algoritmo é menos importante para mim. Não consigo criar só para o algoritmo. Se houver uma ideia que, por acaso, seja algorithm-friendly, ótimo, mas não estou focada nisso. Estou mais focada em ter uma ideia que me entusiasme executar — o que acho que é um modelo mais desafiante. É um modelo menos consistente. Quando o trabalho é menos pessoal, é mais fácil criar conteúdo com frequência.

Collants, da profdução.
Começaste no YouTube. O que te levou a criar uma marca de café e como é que surgiu a ideia da Chamberlain Coffee?
Comecei a marca há bastante tempo, provavelmente há seis anos. Na verdade, talvez até há sete anos. Tudo começou porque estava a filmar o meu dia a dia e algo que era muito frequente era o meu consumo de café. Tornei-me conhecida por beber muito café. A minha equipa, na minha agência, disse-me: “podíamos criar uma marca de café. Estás sempre a falar de café, adoras café, és conhecida por beber tanto café, podemos transformar isso numa coisa a sério”. Fiquei boquiaberta, mas tê-los como parceiros tornou isso possível — eles abriram a minha mente para essa ideia. Começámos a Chamberlain Coffee e acho que o que tem sido mesmo fantástico é que começámos a abrir cafés. Bem, na verdade, abrimos um café, deixa-me abrandar. Mas, pensando no futuro, também adoro que [esta nova faceta] tenha a ver com arte, design e visuais. Até porque, de certa forma, tornei-me conhecida pela minha casa. Fiz uma tour à minha casa e as pessoas ficaram fascinadas depois de verem o vídeo. É incrível porque, daqui para a frente, à medida que esperamos tornar-nos mais uma empresa de cafés, estou entusiasmada por combinar a minha paixão pelo design de interiores, e pelo design em geral, ao café e fundi-las. Tem sido interessante ver como a minha relação com tudo evoluiu. Começou por ser apenas o gosto pelo café em si, mas, à medida que o meu interesse pelo visual e pelo design foi crescendo, agora anda de mãos dadas com a abertura de cafés Chamberlain Coffee.
Acho que o que é tão interessante na tua carreira é que já experimentaste vários papéis diferentes. Já alguma vez sentiste que encontraste o teu nicho, ou há alguma coisa que gostasses de experimentar a seguir?
Sem dúvida. Há tantas coisas que adoraria experimentar, e é algo com que estou a lidar neste momento, a tentar perceber: “Ok, então, o que é que vou realmente fazer?” De certa forma, sinto-me quase com uma espécie de cansaço de tomar decisões em relação a isto. Mas acho que o que mais adoro é criar vídeos e estar à frente de uma câmara. Mas há tantas maneiras diferentes de fazer isso... Seja um vídeo no YouTube, um documentário, um filme... Gosto muito de criar entretenimento para as pessoas e contar uma história que, espero, possa trazer conforto a alguém de uma forma ou de outra; seja um conforto óbvio — através do meu podcast, que tem uma ligação muito direta com o público, no sentido de ter uma conversa aberta — ou participar num filme que acho que tem temas interessantes e potencialmente mais profundos. Estou a debater-me com todas as diferentes opções e com o que acho que melhor me representa. Neste momento, estou a testar várias coisas e a ver o que resulta. Não sei bem qual é o meu próximo nicho neste momento. Para ser sincera, sinto-me um pouco perdida.

Vestido, SAINT LAURENT BY ANTHONY VACCARELLO.
Dito isto, tenho de perguntar: já tiveste algum pinch-me moment?
Sabes o que é mesmo incrível? Acho que o editorial que fizemos para esta edição. Nem estou a brincar. Liguei a toda a gente: à minha mãe, ao meu pai, a toda a gente, a dizer: “Foi o shooting mais mágico da minha vida”. Despertou uma nova paixão para ser uma espécie de tela para editoriais de Moda. Tive mesmo, genuinamente, um momento em que pensei: “Uau, isto foi tão divertido e tão inspirador”. Senti mesmo que consegui quase atuar neste shooting e tornar-me numa personagem de uma forma que nunca tinha feito antes. Sinto que reprogramou a química do meu cérebro e que nunca mais vou ser a mesma. Este shooting foi um momento crucial no limbo em que estou, foi realmente especial. Ainda assim, se tivesse de escolher um momento diferente, mais no início da minha carreira, acho que a Met Gala. Foi, estranhamente, menos chocante do que imaginava, mas também um pouco incompreensível ao mesmo tempo. Foi um momento incrível para mim.
A Moda tem claramente um papel importante na tua vida. Como é que a tua relação com a Moda e o teu estilo pessoal mudou à medida que entraste nesta indústria?
Acho que, para mim, a Moda tornou-se algo que agora vejo através de duas perspetivas. Tenho o meu estilo pessoal, e a minha filosofia sobre o estilo pessoal evoluiu bastante ao longo dos anos. Tive muitas revelações sobre como construir um guarda-roupa intemporal, ser uma consumidora responsável, não comprar em excesso, não comprar coisas que não preciso e construir um guarda-roupa que dure o máximo de tempo possível. Acho que é muito tentador encher o armário com o máximo de coisas possível; e acho que aprendi da maneira mais difícil que isso, na verdade, não é a atitude certa. É um clichê, mas invisto em qualidade em vez de quantidade. É nesse ponto que estou no que diz respeito ao meu estilo pessoal: construir um guarda-roupa intemporal de forma lenta e constante e ser uma consumidora responsável. Isso é muito importante para mim. Por outro lado, de certa forma, faço parte de uma indústria em que sou uma tela para a Moda e crio arte interessante através da mesma, especialmente em shootings editoriais ou em campanhas publicitárias para marcas. Isso fez com que eu passasse a encarar a Moda também como uma forma de arte. Tenho muita sorte por poder participar nela como forma de arte, porque é algo que, a nível pessoal, não pratico assim tanto. Há arte nisso, diria eu. Acho que pode haver arte em qualquer faceta da vida, se acreditarmos e se tentarmos. Mas não é a mesma coisa. Criar um look para uma sessão editorial, para assistir a um desfile de Moda ou até para ir a uma red carpet, isso é, para mim, uma forma de arte. A criação de um look que transmite uma sensação e me transforma noutra coisa. Gosto imenso dessa experiência e desse processo, e adoro ser uma tela para isso. Adoro porque adoro encarnar essa arte. Sou apaixonada por o fazer.

Brincos, TIFFANY & CO.
Posto isso, nesta fase da tua vida, o que é que mais influencia os teus gostos?
Diria que grande parte é intuição e não tem muito a ver com “adoro esta década ou adoro esta época”. É mais intuitivo, diria eu, para mim. [Encontrar] algo que, por alguma razão, nem consigo explicar, me faz sentir eu própria. (...) É uma combinação de encontrar coisas que me representam tanto que nunca deixarão de ser eu. Algo que vá tão ao encontro do meu gosto que pareça pessoal. Que não me faça sentir que estou a tentar ser outra coisa, ou que estou a tentar encaixar ou seguir uma tendência. Algo no qual eu sinta que sou eu. Que quando visto essa peça, sinta que é uma extensão de mim. É isso que procuro: aquele momento de afinidade, quase Say Yes to the Dress, onde parece que encontro uma peça alma-gémea. É isso que procuro. Mas também reparo nas tendências e passo por um momento de reflexão antes de comprar algo: Será que estou a comprar pelas razões certas? Estarei a comprar esta peça porque me faz sentir eu mesma ou porque está na Moda? Acho que esse tipo de prática também me ajudou imenso.
Esta edição da Vogue Portugal é inteiramente dedicada ao sono. A par da tua rotina antes de dormir, tens alguma forma mais analógica de te afastares das redes sociais?
Sinceramente... Já quase não entro nas redes sociais para fazer scroll. Já quase que não consumo conteúdo de Instagram ou TikTok. A única coisa que vejo é YouTube — sinto que o YouTube é o meu refúgio. Vou ao YouTube, ao Pinterest, ao Spotify... Gosto de ouvir um podcast ou música. Acho que, muitas vezes, a minha fuga é ser social, por estranho que pareça. Seja ligar a alguém, ir jantar com amigos ou, se tiver tempo livre, em vez de fazer scroll, tento fazer algum tipo de conexão. A vida pode ser tão conveniente hoje em dia. E deixa-nos muito tempo para estar online. Por exemplo, hoje em dia, não precisamos de ir ao supermercado, podemos encomendar as compras online. Mas tomo a decisão consciente de ir ao supermercado e estar lá pessoalmente, porque isso impede-me de ficar, de certa forma, consumida pela Internet. Numa época em que é muito fácil não estar ligada ao mundo real, tento fazer o que há de mais real e com os pés no chão o mais possível, quando tenho tempo e quando me faz sentido. Mas também uso definitivamente coisas relacionadas com o trabalho como uma fuga. Ou uma distração; mas, na verdade, acaba por não ser tão produtivo como se pensaria. Porque depois acabo por ficar esgotada e entrar em burnout.

Vestido e brincos, CHLOÉ.
Por falar em burnout, a tua definição de sucesso mudou, desde que começaste a tua carreira, devido a isso?
Sem dúvida. Quer dizer, quando era mais jovem, nem sequer sabia bem o que o sucesso significava para mim. Não fazia ideia. Não tinha nenhuma convicção filosófica sobre o assunto, na medida que agora tenho, sem dúvida. Acho que, para mim, o sucesso é, na verdade, o equilíbrio entre a realização a nível pessoal, a nível espiritual e alcançar algo profissionalmente. Como é que eu explico isto? Nem sequer se trata de números. Não se trata de estatuto. Nem sequer se trata necessariamente de dinheiro, mas sim de alcançar um objetivo profissional. Mas isso pode significar qualquer coisa. É muito único. É muito difícil de definir para mim, para ser honesta, porque é algo muito individual. Diria que, para mim, a nível pessoal, o sucesso pelo qual me esforço constantemente é um equilíbrio entre a realização e o bem-estar — e causar um impacto positivo no mundo de uma forma ou de outra. Se conseguir fazer ambas as coisas, estou a ter sucesso. É definitivamente um sentimento. É mais abstrato para mim. E, mais uma vez, acho que essa é também uma forma muito privilegiada de encarar a situação. Acho que tenho muita sorte por poder ver as coisas desta forma neste momento.
Tiveste muitos momentos que se tornaram virais. Qual é aquele que gostarias que nunca tivesse acontecido e um que achas que devia ter recebido mais atenção?
Uma coisa que eu preferia que não tivesse acontecido, embora eu não fosse eu mesma se isso não tivesse acontecido, é o meu discurso nos Streamy Awards. Dispensava esse momento. Doi-me um bocado ver. Mas acho que o lado positivo é que evoluí imenso na minha presença como pessoa, na minha confiança e na minha eloquência nestas situações. Cheguei tão longe que até é interessante que esse momento se tenha tornado viral para mim, porque cheguei tão longe. Acho que, na verdade, é um lado positivo. Já um momento que acho que devia ter sido mais viral... [risos] Bem, na verdade, o que me vem à cabeça é: eu estava a sair do desfile da Mugler [na Semana de Moda de Paris], a descer as escadas para tentar encontrar o meu carro, e estava a andar um pouco depressa demais e acabei por tropeçar. Ninguém notou ou gravou! Podia ter sido um vídeo muito engraçado de mim, com o meu look em látex e largo nas ancas, a cair nas escadas e a magoar os joelhos. Também sei que fiz uma cara engraçada quando me levantei, porque fiquei mesmo envergonhada. E é preciso muito para me envergonhar, mas havia imensa gente com câmaras a uns 30 metros de distância, por isso pensei: “Meu Deus! Aposto que fizeram zoom e captaram aquilo”. Mas não vi nada [online]. Podia ter sido um momento viral engraçado. Eu não teria gostado, teria sido um pouco embaraçoso. Por isso, até foi uma espécie de sorte. Mas se tivesse sido engraçado, acho que poderia ter sido um momento fantástico. Do género: “toda a gente na Semana de Moda se leva tão a sério, e depois aparece a Emma a tropeçar nas escadas”. Podia ter sido um momento engraçado. Mas não era a minha hora. Veremos. Provavelmente vou tropeçar outra vez. Há sempre a próxima temporada...
Originalmente publicado no The Sleeping Issue, a edição de abril de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui.
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