© Cortesia Escola de Ballet do Porto
Durante duas horas, o Coliseu do Porto esqueceu-se de que estava a ver alunos.
A Escola de Ballet do Porto levou Dom Quixote a uma sala esgotada e provou que o ensino artístico em Portugal pode atingir uma escala raramente vista.
Avizinhava-se uma noite chuvosa daquelas a que o Porto já nos habituou. O espetáculo estava marcado para as 21 horas, no passado dia 9 de maio, e, meia hora antes, a entrada do Coliseu Porto Ageas já se enchia de pessoas para assistir a mais um espetáculo da Escola de Ballet do Porto.
Entre pais, filhos, avós e tios, o burburinho era constante — uma mistura de entusiasmo e expectativa que tornava o ambiente quase tão vivo como o que iria acontecer em palco.
Já dentro da sala, a dimensão começava a impor-se de outra forma. Só quando me sentei é que a escala se tornou evidente: cerca de 1.700 pessoas ocupavam o Coliseu Porto Ageas para assistir a um espetáculo protagonizado por alunos da escola. Não eram apenas “muitas pessoas” — era um Coliseu esgotado.
Mas o que se iria ver em palco não era um bailado qualquer do repertório clássico adaptado a uma escola. Era uma escolha assumida, exigente, quase arriscada.

Dom Quixote, no Coliseu do Porto.
Escola de Ballet do Porto
Foi essa decisão que definiu a noite — e que partiu da diretora da escola, Cuca Anacoreta: “É um bailado alegre, vivo, cheio de história, muito fiel a Cervantes e à vida de Espanha, que eu adoro”, conta à Vogue. Confessa que a decisão não foi unânime: “Havia professores que achavam que eu estava maluca — e isto já me acontece com alguma frequência”.
Dom Quixote pertence ao grande repertório do ballet clássico, com música de Ludwig Minkus e coreografia original de Marius Petipa. Inspirado na obra de Cervantes, atravessa a fronteira entre realidade e fantasia, seguindo um cavaleiro errante e um escudeiro que se cruzam com o casal Kitri e Basilio, numa narrativa marcada por humor, fuga e celebração. Ao longo da narrativa surgem diferentes personagens e quadros cénicos que dão corpo ao imaginário do bailado.
Mas uma escolha destas não existe sem consequência — nem sem tempo.
A preparação para um espetáculo desta dimensão não se faz de ânimo leve, mesmo com a experiência com a qual esta escola já conta: “Fazemos produções de repertório clássico há mais de dez anos e o Coliseu é já uma casa para nós — desde 2015”, aponta Cuca.
E, a partir daí, entram as decisões que verdadeiramente definem a escala de um projeto deste tipo, como a escolha dos bailarinos principais. “É sempre uma escolha difícil, porque somos uma escola e temos de dar oportunidades a todos, e portanto não é fácil escolher o A, o B ou o C”, explica a diretora da escola.

Dom Quixote, no Coliseu do Porto.
Escola de Ballet do Porto
No caso de Dom Quixote, essa complexidade tornou-se ainda mais evidente na construção do terceiro ato — o mais exigente do bailado para os papéis principais. “Até meados de março, havia quase a convicção de que iriam ser bailarinos convidados”, refere. A hipótese esteve mesmo em cima da mesa: “Chegou a estar apalavrado com dois bailarinos da Companhia Nacional de Bailado para virem ao Porto fazer o pas de deux e a coda do terceiro ato”.
No entanto, a decisão acabaria por mudar. Cuca Anacoreta interrompeu esse caminho. “Depois fiz travão a fundo e decidi apostar nos meus alunos. Mesmo sendo um risco, achei que eles mereciam esse desafio”, afirma.
E foi essa escolha que redefiniu o próprio espetáculo — transformando aquilo que poderia ter sido uma solução externa num gesto interno de confiança. “Foi a prova de que os meus alunos não são profissionais — ainda — mas tiveram a uma altura quase profissional. O que demonstraram em palco foi decisivo para tornar tudo isto muito grandioso.”
Mas essa dimensão só se torna verdadeiramente legível quando o espetáculo começa. Em palco, a escala não se mede em idades ou em formação. Mede-se na forma como o corpo coletivo sustenta o espaço.

Dom Quixote, no Coliseu do Porto.
Escola de Ballet do Porto
Em Dom Quixote, essa presença coletiva ganha uma nitidez particular. O corpo de baile não surge como fundo, mas como estrutura viva — um tecido contínuo que sustenta e amplia os momentos solistas.
Há uma energia que não se explica apenas pela técnica, mas pela forma como cada entrada parece pertencer a um todo maior, quase respirado em conjunto. Kitri e Basilio não se isolam do resto do palco; antes, condensam essa energia que se acumula em camadas sucessivas de repetição e precisão.
Depois disto, o Coliseu responde como responde aos momentos em que algo ultrapassa a expectativa — com aplausos longos, contínuos, quase insistentes.
E é nesse intervalo breve, entre o fim da dança e a permanência do aplauso, que se instala a leitura final da noite — nas palavras de Cuca Anacoreta: “Encher o Coliseu é um privilégio. Já tínhamos feito isso no ano passado, e este ano voltou a acontecer. É uma alegria imensa. Fiquei com um sentimento de orgulho do tamanho do mundo.”

Dom Quixote, no Coliseu do Porto.
Escola de Ballet do Porto
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