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Ouro sobre azul

29 Oct 2020
By Pureza Fleming

É a cor escolhida pela Pantone para 2020, mas há séculos que o seu legado se inscreve na história. Com 111 tons, o azul alastra-se um pouco por todo o universo da Moda. De passadeiras vermelhas, a passerelles que imitam obras de arte, é de harmonia que se pinta o planeta mais azul do sistema solar.

É a cor escolhida pela Pantone para 2020, mas há séculos que o seu legado se inscreve na história. Com 111 tons, o azul alastra-se um pouco por todo o universo da Moda. De passadeiras vermelhas, a passerelles que imitam obras de arte, é de harmonia que se pinta o planeta mais azul do sistema solar.

Sangue Azul 

©Getty Images
©Getty Images

Trata-se de uma tela de grandes dimensões (2,77m x 1,94m) em que o rei Luís XIV (1638-1715), também apelidado de Rei Sol, surge “altivo, omnipotente, magnífico, orgulhoso”, tal como gostava de ser retratado, num tamanho bastante superior à sua altura real. Símbolo de proteção, pureza moral e da sua incorruptibilidade, aquele monarca, da Corte de Versalhes, vestia um manto azul forrado de pele de arminho, uma cor que, em tempos do Antigo Testamento, era reservada aos grandes sacerdotes. Tal como vem sucedendo ao longo da história da Moda, já naquela época as indumentárias — e as cores com que estas se pintavam —, teriam um papel fundamental no processo de representação dentro da sociedade. Naquela célebre obra de Hyacinthe Rigaud, com data de 1701, Luís XIV, com então 63 anos, evidenciava a sua posição e reafirmava o seu poder (foi ele que proferiu a controversa afirmação “L’État, c’est moi”, ou “O Estado sou eu”), através daquele suntuoso manto bordado com fios de ouro e com a profusão do azul da realeza. Na sua teoria das cores, o poeta Goethe (século XIX) dissertava, em relação ao azul, que esta seria uma cor que “parece estar distante de nós, mas que gostamos de contemplar, não porque ela avance na nossa direção, mas por nos incitar a persegui-la”. O azul acabaria por se tornar, decisivamente e por excelência, na cor das cortes — e somente das cortes, comme il faut.

Into the Blue Jeans 

No início, eram os verbos resistir e durar. Criados, em 1873, por Jacob Davis e por Levi Strauss (sim, o responsável por essas mesmas Levi’s que leva vestidas agora), os blue jeans (termo que descende de "bleu de genes" ou azul de Génova), eram a aposta de trabalhadores que davam no duro, como seria o caso dos mineiros, e que precisavam de roupas resistentes — qual outfit of the day, qual quê. Até que a Moda os descobrisse, sacudisse a sua poeira e os transformasse naquilo que hoje representam — o material das nossas vidas — traçar-se-ia um longo e agitado percurso. A aceitação da icónica peça, enquanto item fashion, iria acabar por coincidir com o movimento cultural cunhado, em 1965, pela diretora da Vogue americana, Diana Vreeland. Referimo-nos ao Youthquake, que anunciava a aceitação generalizada da individualidade, e que seria fortemente influenciado pelas ruas. De acordo com uma edição da revista, em 1971 o “look blue denim” era “o uniforme do mundo”, uma forma “solta e veloz” de se estar na vida. Num ápice, os blue jeans tornar-se-iam no ícone americano por excelência. E, num estalar de dedos, na peça que todos os guarda-roupas desejavam ter — e que continuam a almejar hoje e, seguramente, amanhã. Porquê? A resposta pode ser tão simples como aquela proferida pela mesma publicação, lá para meados de 1999: “Os jeans são sempre cool — e estão sempre a evoluir”. Na dúvida, espreite o seu closet e constate esta afirmação.

Ceci n’est pas une robe 

Se há coisa que, em janeiro passado, não se assistiu na apresentação de Alta-Costura de Schiaparelli, foi a uma simples sucessão de luxuosos looks couture. Presenciou-se fantasia. Sentiu- se ousadia. Surrealismo, até, não fosse esse o nome do meio daquela história casa. Mas aquele vestido azul revestido a joias — que acabaria por ser usado pela atriz Regina King, na (também surreal) entrega dos Emmys, que aconteceu em tempos de COVID-19 — transportou-nos para bem mais longe. E deu as boas- -vindas a uma não-realidade (como aquela que vivenciamos hoje), que tem sido, ao longo da sua vivência, uma das chancelas da maison francesa. Schiap, como foi apelidada, era visionária, inovadora e ousada. Seria ela a responsável por dar corpo e vida ao rosa-choque — se hoje o contempla no seu armário, é a ela que tem de agradecer. Já naquela couture week, o diretor criativo, Daniel Roseberry, quis fazer um tributo “ao impulso de criar”, numa altura em que o eterno fascínio de Elsa “por inverter a realidade do quotidiano” nunca havia sido tão oportuno. Roseberry, que há coisa de um ano havia colocado a questão “como é que nos vestimos para o fim do mundo?”, sem fazer ideia do que aí vinha, encontrou, na obra de arte que é aquele vestido azul, o caminho direto para o céu. 

Céline Klein

Pensar na Céline de Phoebe Philo é suspirar de saudades e ansiar por um possível regresso da designer francesa (pausa longa para esse murmúrio). Mas relembrar a Céline de Philo é, também, trazer à memória o melhor da Moda enquanto Arte — ou da Arte ao serviço da Moda, you name it. À boleia desta nostalgia, regressamos à primavera/verão 2017, e mergulhamos, quase literalmente, em charcos de tinta azul Klein, numa coleção que fez ode à Anthropométrie de L'Époque Bleue (ANT 82) produzida, em 1960, pelo artista Yves Klein.

©Getty Images
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Os trabalhos monocromáticos de Klein eram, quase sempre, produzidos num matiz azul intenso, de tal forma que acabou por patenteá-lo como International Klein Blue. Naquela sua coleção para a maison francesa, Phoebe mostrou vestidos que se pintavam daquele tom, incluindo as formas de uma das suas mais famosas pinturas — as tais manchas azuis artisticamente salpicadas em fundo branco, qual tela. No convite para o desfile (performance?) podia ler-se uma citação do artista e escritor, Dan Graham: “Quero mostrar que os nossos corpos estão ligados ao mundo, quer gostemos ou não.” A avaliar por esta coleção, arriscamos dizer que sim, Dan, gostamos e muito.

Paraíso na Terra

Poetizou, assim, Caeiro de Pessoa: “O meu olhar azul como o céu / É calmo como a água ao sol / É assim, azul e calmo”. Havendo espaço para a hesitação, ficaria claro que no azul — mesmo para o desassossegado Pessoa —, não cabe o senso negativo. Na indústria da Moda a crença não é exceção. E não nos referimos (só) às coleções, mas aos cenários para onde, tantas vezes, nos transportam os desfiles. Recuemos, plácidos, até à apresentação da coleção masculina outono/inverno 2020, da Louis Vuitton. Intitulada de Heaven on Earth, o desfile fez o público emergir até ao céu, num cenário que se pincelou de azul com nuvens desenhadas, uma pintura que deu lugar a celestiais estampados nos itens da coleção. Mais terra-a-terra, mas igualmente into the blue, esteve a Balenciaga. Na mostra das suas propostas para a passada estação quente, a maison transformou a Cité du Cinéma num palco que replicava a sede do Parlamento Europeu, pronto a receber um batalhão de políticos. De bancos dispostos em espiral, a sala pintou-se, integralmente, de um azul que refletia os tons da bandeira da União Europeia. Do céu e da terra, às profundezas do oceano, chega-nos a Versace. Como pano de fundo para a temporada de verão 2021, a casa italiana concebeu “um mundo feito de cores vibrantes e de criaturas fantásticas”, conduzindo a plateia até uma viagem imaginária ao fundo do mar, como uma metáfora para o momento em que vivemos — o início de um mundo incerto. Posto isto, decretamos que sim, o paraíso na terra existe: chama-se Moda.

O diabo veste cerúleo

Quando Andy, uma jornalista com zero pretensões em vingar no fashion world, vai parar à revista Runway para ser assistente de Miranda Priestly, mal pode imaginar que há certas coisas que nunca deve dizer. Como por exemplo, referir-se à Moda com expressões do estilo “this stuff”. A cena desenrola- -se em O Diabo Veste Prada (2006) quando, na hora de escolher entre dois cintos azuis aparentemente iguais — e em nada semelhantes —, a jovem, interpretada por Anne Hathaway, omite um riso cínico acompanhado daquelas duas palavras. Meryl Streep, no papel de Priestly, responde à letra: “Entendo. Tu achas que isto não tem nada a ver contigo. Tu vais até ao teu armário

e escolhes ‘a camisola azul básica’ porque tentas dizer ao mundo que te levas demasiado a sério para te importares com o que vestes. O que tu não sabes é que ‘essa camisola’ não é só azul, não é turquesa, não é lápis-lazúli, é, na verdade, azul cerúleo. Também não sabes que, em 2002, Oscar de la Renta fez uma coleção de vestidos cerúleo. E, creio que foi Yves Saint Laurent, que mostrou casacos militares azul cerúleo? E, então, o cerúleo alastrou-se pelas coleções de mais oito designers, para depois chegar até às lojas e escorregar num ‘canto' onde tu o pescaste. No entanto, aquele azul representa milhões de dólares e incontáveis empregos e é, por isso, cómico, que consideres teres feito uma escolha que te exclui da indústria da Moda quando, na verdade, vestes uma camisola que foi selecionada pelas pessoas desta sala. De uma pilha de ‘coisas’”. Andy, claro, sai de cena.

A fashion fairytale

Outras cores, além do azul original do vestido da Cinderela, foram consideradas. Mas Sandy Powell, a célebre figurinista que já arrecadou mais de uma mão cheia de Óscares pelos seus trabalhos, decidiu que nenhuma outra chegava perto do deslumbrante azul cerúleo — entre outros tons de azul que também foram rebuscados. No remake do clássico da Disney, que chegou às telas em 2015, a atriz Lily James interpreta a gata borralheira transformada em princesa. E, qual princesa, não o faz por menos. Senão vejamos. O vestido constitui- -se de várias camadas de tecido fino pintado à mão em tons de aquarela de azul, entre os quais se insere o cerúleo e o turquesa, mas também outras tonalidades, como é o caso do lilás, do lavanda e do branco. A peça contou com mais de 10.000 cristais Swarovski e levou 500 horas para ser concluída, contando com a mão de obra de 20 alfaiates. Costurado com seis (!) quilómetros de linha, o vestido deixava-se mover, sem esforço, flutuando graciosamente a cada passo que Lily-Cinderela dava. A atriz chegou a dizer que se sentia como a princesa que sempre tinha sonhado ser enquanto criança. Porque não há bela-Cinderela sem senão, James demorou 45 minutos para entrar e para sair do vestido. A peça, que valeu a Powell mais um Óscar para melhor guarda-roupa, contou ainda com uma inauguração especial numa montra do Saks Fifth Avenue, em Nova Iorque. É caso para dizer que sim, a magia acontece. 

Let it glow, let it glow

Pedimos desde já desculpa, Lily James, e agradecemos  o esforço que terão sido aqueles 45 minutos para entrar e sair da criação da figurinista Sandy Powell — garantimos: o empenho valeu cada segundo. Acontece que o fashion world já antes tinha ficado de queixo caído com outra princesa – referimo- nos a Elsa, a estrela do filme de animação da Disney, Frozen – O Reino do Gelo (2013) – e voltaria a ficar, pouco depois, com Blake Lively, de se cair para o lado, na estreia do filme de Steven Spielberg, O Amigo Gigante (2016), que decorreu no âmbito da 69ª edição do Festival de Cannes. A atriz optou por um vestido em chiffon, revestido a lantejoulas, no tom icy blue (há quem considere aquele azul mais turquesa do que gelo), com a assinatura de Atelier Versace (que é, aliás, uma das suas casas de eleição). Que o imaginário da Disney já foi apontado como sendo uma constante nas aparições da ex-protagonista de Gossip Girl, quando o tema é passadeira vermelha, é um facto. Porém, desta vez a atriz foi mais longe, uma vez que ostentou também uma barriga denunciadora de gravidez. Justíssimo, apesar do estado de graça da Lively, o vestido de uma só alça contou ainda com uma longa cauda que em tudo fez recordar a princesa Elsa a vaguear pelos meandros do seu castelo de gelo. E, tal como Elsa, Lively brilhou. 

Anna Wintour is feeling blue

Quando, em 2014, o designer Oscar de La Renta morreu, a diretora da Vogue americana, Anna Wintour, partilhou, numa carta aberta difundida na publicação, as seguintes palavras: "Muito se tem dito acerca de como o seu falecimento, ontem, marca o fim de uma era. Não é verdade. Ele era o homem mais democrático que conheci e teria vivido feliz e definido em qualquer época.” Acerca dos seus vestidos, defendia que se tratavam de criações que “refletiam a sua extraordinária personalidade. Otimista, divertida, romântica e ensolarada.” Dúvidas houvesse, no que diz respeito ao apreço de Wintour pelas criações do designer, pelo menos três aparições suas a usar o mesmo vestido azul turquesa, parte da coleção Resort 2009, bastariam. Os eventos, esses, foram: a festa de noivado de Tommy Hilfiger e de Dee Ocleppo, em junho de 2008; a cerimónia de abertura do U.S. Open Tennis Championships, também nesse ano (onde foi vista sentada lado a lado com o designer), e ainda a after party da estreia de Sex And The City – The Movie, que teve lugar no MoMa, Nova Iorque, em maio de 2008. Das duas uma: ou Wintour andava sem tempo — e paciência — para escolher looks; ou quis aderir à tendência que obriga a triplicar o uso de uma peça, a bem do planeta. Ou, ainda, gostou muito daquele vestido. Na incerteza, apostamos em todas.

Lady Gaga pode tudo (tudo tudo tudo)

Há quem se tenha referido àquela cor como sendo lilás. Contudo, e de acordo com a maison Valentino, o nome correto é azul periwinkle, e trata-se de um tom que faz parte da família da lavanda e do violeta. Mas vamos ao que interessa. Quando o tema é a passadeira vermelha, Lady Gaga é a personalidade, por excelência, que dispensa apresentações. Por norma, as suas aparições falam por si. É que se há algum tipo de peça que, de tão extravagante, não pode (ou não deve) ser usado por ninguém, eis que Gaga surge para mostrar que há sempre uma exceção à regra — ela mesma. Sim, a cantora e, agora também atriz, tem arcaboiço para usar tudo — tudo, tudo, tudo. Tal como pôde, também, aparecer na 76ª edição dos Globos de Ouro, em 2019, com um vestido de Alta-Costura criado por Pierpaolo Piccioli, especialmente para ela, num tom que fez correr tinta e que suscitou falatórios. O volumoso vestido seria uma homenagem à atriz Judy Garland (1922-1969), que usou um modelo idêntico na versão de 1974 do filme A Star Is Born. Como sempre, Gaga foi mais longe e resolveu pintar o seu cabelo da mesma cor que o seu look, fazendo um pandã ao melhor estilo matchy-matchy, ao mesmo tempo que criava discórdias entre os entendidos da Moda — as if she cared. Vencedora do red carpet award para os gostos mais afoitos, Gaga venceu, também, na categoria de melhor música original, por Shallow, que escreveu propositadamente para o remake de A Star Is Born. É que de Lady a astro vai sempre — sempre, sempre, sempre — um pequeno passo.

Pureza Fleming By Pureza Fleming

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