Fotografia: Stephane Cardinale - Corbis/Corbis via Getty Images
Após 10 anos, Anthony Vaccarello deixa o cargo de diretor criativo da Saint Laurent. Ainda não foi nomeado um sucessor.
A despedida é agora oficial: Anthony Vaccarello deixa o cargo de diretor criativo da Saint Laurent, anunciou hoje a casa. A Saint Laurent anunciará em breve a sua nova liderança criativa.
Luca de Meo, CEO da Kering, afirmou: "Gostaria de expressar a minha sincera gratidão ao Anthony pelo seu contributo para a Saint Laurent ao longo dos últimos 10 anos. Através da sua visão criativa e dos seus elevados padrões de exigência, contribuiu para reforçar a influência duradoura de uma das maiores casas de Alta-Costura de França, numa altura em que iniciamos um novo capítulo da sua história."
Na sua crítica ao que hoje foi confirmado como o último desfile do designer na casa, na semana passada em Paris, Nicole Phelps escreveu que Vaccarello "é tão determinado como discreto na forma de falar, um criador resolutamente avesso a ceder às tendências e igualmente firme no seu desdém pela democratização da moda, um dos temas dominantes da temporada". Concluiu-a, de forma premonitória, com o verso de Robert Frost: "Nada que é dourado pode ficar."

Saint Laurent SS27, a última coleção de Anthony Vaccarello.
Alessandro Lucioni / Gorunway.com
Cédric Charbit, presidente e CEO da Saint Laurent, afirmou: "Gostaria de agradecer calorosamente ao Anthony pelos seus dez anos de dedicação à casa. Durante o seu mandato, o Anthony conduziu a Saint Laurent numa trajetória notável, elevando a casa ao topo do desejo e da imagem, ao mesmo tempo que realizou um trabalho excecional, tanto a nível criativo como através do seu impacto cultural."
O anúncio de hoje põe fim a um mandato cuja duração e êxito poucos teriam previsto quando começou, em abril de 2016. Vaccarello tinha 36 anos quando a então CEO da Saint Laurent, Francesca Bellettini, o nomeou diretor criativo, apenas quatro dias após a saída de Hedi Slimane.
Na altura, Vaccarello era bem visto no setor, graças ao seu trabalho de sensualidade poderosa como diretor criativo da segunda linha da Versace, a Versus, que dirigia desde 2015 e com a qual colaborava desde 2013. Desde 2009, liderava também a sua própria marca, pequena mas em crescimento, que encerrou depois de aceitar o cargo na YSL. Outro trunfo no seu currículo foi a vitória, em 2011, no ANDAM Fashion Award, então presidido por Pierre Bergé, cofundador da Yves Saint Laurent.
Durante os quatro anos de Slimane como diretor criativo, as receitas da YSL passaram de 354 milhões de euros em 2011 para 974 milhões em 2015: só em termos de negócio, o legado de Slimane parecia um enorme desafio para Vaccarello.

Saint Laurent FW26.
Alessandro Lucioni / Gorunway.com
Em muito pouco tempo, o designer belga fez jus ao mesmo e foi mais além, aproveitando a onda de crescimento que varreu o setor do luxo entre 2016 e 2023 (passando pela quebra da Covid). Sob a sua direção, as receitas da Saint Laurent mais do que triplicaram, atingindo 3,3 mil milhões de euros em 2022. Dessa receita, pouco mais de 30%, ou 1,019 mil milhões de euros, correspondeu a resultado operacional corrente. Os números de 2025 da Kering situam as receitas da Saint Laurent em 2,6 mil milhões de euros.
Vaccarello traçou esse caminho para o sucesso em parte através de uma mistura de criatividade progressista, fruto da infância em Bruxelas e da formação em La Cambre, e de um instinto para o provocador e o enérgico, herdado dos pais sicilianos. Como disse à Vogue Austrália em 2015: "Tenho a forma belga de construir roupa, mais ligada à construção e desconstrução das peças, e talvez o meu lado italiano seja o lado sexy."
Outro fator-chave foi o seu trabalho de construção de imagem, que alargou o âmbito da YSL para além do brilhante documentarismo subcultural, marca de Slimane, e repôs a Yves Saint Laurent como a casa de Moda moderna mais tipicamente parisiense de todas. O seu primeiro desfile no Trocadéro, com a Torre Eiffel como pano de fundo, foi o mais visto da temporada na Vogue Runway. A partir do outono de 2019, as coleções de Vaccarello começaram não só a evocar os gestos da Saint Laurent, mas a expandi-los e a modernizá-los, testando os extremos das silhuetas e dos códigos do fundador para gerar uma tensão visual quase insuportável.

Saint Laurent SS26.
Alessandro Lucioni / Gorunway.com
Essa trajetória chegou ao fim com o desfile da primavera de 2027 de Vaccarello, a 29 de setembro, realizado 10 anos e dois dias depois da sua estreia na Saint Laurent. Sob a Torre Eiffel e três imponentes candelabros iluminados por velas, apresentou 49 looks em tons de dourado, antes de fechar com 10 em preto. Sahariennes, trench coats, saias lápis, brocados e vestidos de noite revisitaram o vocabulário da casa com o rigor amplificado que se tornou a assinatura de Vaccarello. A sequência de cores inverteu o final da coleção Rive Gauche de outono de 1991 de Yves Saint Laurent, que terminara em dourado: aqui, o desfecho foi um fade para preto.
Mesmo antes de o desfile começar, já tinha o ambiente de uma despedida: a sua saída era rumor desde o verão. Vaccarello, o que é invulgar, recusou entrevistas prévias e ofereceu antes copos-de-leite pretos, acompanhados de uma nota que descrevia a coleção como pessoal e emocional. Antes do desfile, tocou a banda sonora de Miles Davis para Ascensor para o Cadafalso, de Louis Malle; no final, Charlotte Gainsbourg surgiu para uma atuação surpresa. Vaccarello saiu rodeado pelas suas modelos e depois atravessou a passerelle para entregar algo ao filho: muitos (mal)interpretaram o gesto como a entrega das chaves da casa. Fosse qual fosse o significado do pormenor, foi a sua despedida da Saint Laurent.

Anthony Vaccarello a abraçar Charlotte Gainsbourg após o desfile SS27 da Saint Laurent, durante a PFW.
Vittorio Zunino Celotto/Getty Images
Durante a sua década na casa, a atuação de Vaccarello refletiu e amplificou alguns dos padrões primeiro esboçados pelo grande designer fundador da casa. Se Yves Saint Laurent desenhou os figurinos de Catherine Deneuve em Belle de Jour, Vaccarello concebeu o lançamento, em 2023, da Saint Laurent Productions, cuja produção inclui Emilia Pérez, vencedor de dois Óscares, e Parthenope, de Paolo Sorrentino. E tal como Saint Laurent apoiou e foi apoiado por um círculo restrito de mulheres, entre as quais Deneuve, Loulou de La Falaise e Betty Catroux, a geração de mulheres Saint Laurent do século XXI de Vaccarello inclui Anja Rubik e Charlotte Gainsbourg.
Em 2018, Vaccarello disse à Vogue: "Toda a gente tem uma visão do que acha que a Saint Laurent deve ser, e isso era algo que eu sabia quando comecei. Sabia que, fizesse o que fizesse, haveria quem adorasse e quem detestasse. Aconteceu o mesmo com o Hedi, e com o Stefano [Pilati] antes dele. Não me incomoda. Aliás, até gosto bastante."
Essa observação aplicava-se também a Tom Ford, que desenhou o ready-to-wear da Yves Saint Laurent entre 2000 e 2004, depois de o Gucci Group ter adquirido a casa, em 1999, por cerca de mil milhões de dólares, segundo as notícias. Quando Vaccarello chegou, a Yves Saint Laurent estava sob o controlo operacional da CEO Francesca Bellettini desde 2013, o mesmo ano em que o Gucci Group, mais tarde PPR, foi rebatizado como Kering.
Depois do pico de desempenho financeiro da Yves Saint Laurent em 2022, a casa atravessou três anos de receitas em queda, até 2,64 mil milhões de euros em 2025, e uma contração da margem operacional de 30,9% para 20%. Grande parte disto, porém, deveu-se tanto ao declínio generalizado do setor do luxo como ao agressivo reposicionamento da YSL, em 2023, com afastamento do canal de wholesale. Entretanto, as coleções de Vaccarello tornaram-se cada vez mais intransigentemente distintas na sua interpretação do modelo revolucionário de Yves Saint Laurent.
Bellettini, agora presidente e CEO da Gucci, foi sucedida na Yves Saint Laurent por Cédric Charbit, no início de 2025. Tal como Bellettini, Charbit é uma estrela da equipa de topo da Kering, tendo apanhado essa mesma onda de crescimento do luxo ao lado de Demna, como CEO da Balenciaga, a partir de 2016. Antes disso, foi vice-presidente executivo responsável por produto, merchandising de retalho e comunicação na Yves Saint Laurent, onde coincidiu com Vaccarello durante os primeiros meses após a chegada do designer.

Saint Laurent SS17, a primeira coleção de Anthony Vaccarello
Yannis Vlamos / Indigital.tv
Em maio, em declarações ao Financial Times, Charbit comentou o boom intermitente do luxo: "O crescimento do setor tem sido extraordinário, mas não é sustentável." Apesar disso, sob a liderança do CEO do grupo, Luca de Meo, a Kering está a pressionar-se intensamente para reafirmar uma tendência ascendente de desempenho e valor: em abril, de Meo afirmou que, até 2030, a YSL pretende mais do que duplicar as vendas de menswear, triplicar as de joalharia, duplicar as de clientes VIC e atingir um mínimo de 500 milhões de euros de vendas nas categorias de preço de entrada. Cumprir estas metas caberá agora, em parte, a quem for nomeado sucessor de Vaccarello.
Vaccarello, entretanto, já deu a entender que os seus próximos passos poderão levá-lo para além da moda. Em conversa com Pamela Golbin para o título de entretenimento The Wrap, em 2024, perguntaram-lhe o que poderia seguir-se ao seu tempo na Yves Saint Laurent. Respondeu: "É complicado, porque estar aqui já é um sonho. A Saint Laurent, para mim, é a casa mais bonita, o Santo Graal das casas. O que pode superar isso? A única coisa que se pode fazer é começar algo completamente diferente… Temos de aspirar a novos sonhos que eu ainda não tenho necessariamente."
Traduzido do original, disponível aqui.
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