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Notícias 21. 9. 2022

Uma London Fashion Week histórica

by Pedro Vasconcelos

 

Independentemente dos acontecimentos trágicos que a precederam, a Semana de Moda de Londres persistiu. Homenagens à Rainha Isabel II foram recorrentes nas propostas britânicas para a primavera/verão 2023.

© ImaxTree

Esta estação, a Semana da Moda de Londres foi um reflexo do marco histórico com o qual coincidiu, a morte da sua monarca com o reinado mais longo da História britânica. No dia 8 de setembro foram decretados 10 dias de luto nacional deixando o futuro da London Fashion Week, agendada para começar no dia 15, incerto. Domingo à noite, à medida que milhares se juntavam para visitar o caixão da Rainha Isabel II numa fila que era vista do espaço, algumas dezenas aprontavam-se para ir ver um desfile de Moda. A decisão de persistir com o calendário da London Fashion Week não foi fácil, mas foi o consenso a que a maioria (mas não a totalidade) das marcas chegaram. Titãs como Burberry ou Raf Simons decidiram adiar a apresentação das suas coleções primavera/verão 2023 indefinidamente. Estas decisões foram sentidas de forma intensa, particularmente pela Burberry cujo desfile iria marcar o retorno da marca britânica ao calendário de Moda londrino.

Mas, para as marcas mais recentes, esta opção não era uma possibilidade. O panorama de Moda de Londres, conhecido pelas suas marcas up and coming, foi forçado a persistir respeitosamente. O desperdício de um investimento como o de organizar uma coleção, e o seu consequente desfile, poderia ser catastrófico, se não mesmo fatal para marcas de uma escala mais reduzida. Harris Reed, um dos nomes mais ascendentes do mundo da Moda, confessa, breves momentos antes do desfile da marca homónima, “têm sido dois anos muito difíceis para a Moda.” Reed, cuja coleção inaugurou a London Fashion Week, enfatiza a necessidade de apoiar as pequenas marcas de Moda britânica. As suas propostas de primavera/verão 2023 não vagueiam longe do estilo característico dê designer, com silhuetas dramaticamente ampliadas. Tendo os bailes de debutantes como ponto de inspiração fulcral, Reed amplia noções de feminilidade e fluidez de género. Um look em particular inverte noções do convencional, quando um vestido de gala é, literalmente, virado do avesso.

 © Harris Reed

Por falar em designers que conquistaram o mundo da Moda a partir da capital britânica: Nensi Dojaka, conhecida pela transparência e assimetria das suas peças, apresentou a sua coleção de primavera/verão 2023 no domingo. Os olhos do mundo encontravam-se virados para a designer britânica, à medida que a sua estética se vê replicada em não uma, nem duas, mas praticamente todas as marcas de fast fashion. Mantendo-se fiel aos elementos que já são indissociáveis da jovem marca, como a inspiração lingerie, Dojaka apresentou uma coleção romântica. Vermelhos e rosas complementam os expectáveis neutros e, em certos looks, pequenos corações foram colocados no busto.

 © ImaxTree

Cores garridas foram, ironicamente, uma das tendências da semana de Moda de um país em luto. Michael Halpern apresentou uma coleção da Halpern repleta de cores e padrões animais arrojados. No que foi uma homenagem à sua mãe, o designer americano, utilizou veludo e lantejoulas de modo a enquadrar o período da sua inspiração. Ombros exagerados, jumpsuits, capas: todas formam uma clara visão da extravagância da década dos anos 80. Molly Goddard, por sua vez, utilizou a cor como forma de encapsular o prazer da diversão. Adicionando pops de cor ao característico tule, a designer britânica criou uma coleção tão divertida como wearable, misturando dramáticos tutus com simples t-shirts.

 © ImaxTree

Mas, ainda que o espírito positivo tenha estado presente em algumas marcas, outras demonstraram o papel da Moda enquanto catalisador da mudança social. A coleção de primavera/verão 2023 de Christopher Kane foi um comentário declarado contra o retrocesso dos direitos reprodutivos nos Estados Unidos. Através de ilustrações rigorosas, o designer homónimo da marca utilizou vestidos como forma de dar uma lição de anatomia feminina. Como se a simbologia não fosse explícita o suficiente, o soundtrack do desfile foi a leitura de uma lição de anatomia. A abordagem forense foi levada ao extremo através de transparências plásticas e a utilização de um verde verdadeiramente clínico.

 © ImaxTree

Também JW Anderson criou uma coleção temática, baseando-se na possibilidade de nos misturarmos irreversivelmente com os nossos telemóveis. Numa coleção tão camp como temos vindo a esperar da marca britânica, o conceito foi levado ao seu expoente máximo. Teclas de computador num vestido, prints de screensavers e até os já virais vestidos que imitam um saco transparente com um peixe dentro (À Procura de Nemo core is that you?). De uma forma quase chocante, após uma coleção tão divertida, o designer irlandês fecha a sua coleção de primavera/verão 2023 com um t-shirt preta com as seguintes palavras: "Her Majesty The Queen 1926-2022 Thank you”.

© ImaxTree 

O momento mais impactante da semana foi certamente o seu fecho, com o desfile de Richard Quinn que, para a surpresa do mundo da Moda, construiu 23 looks que são uma verdadeira homenagem à Rainha Isabel II. De acordo com o designer britânico, após tomar conhecimento da morte da monarca, e apenas dez dias antes do desfile, a sua equipa trabalhou incessantemente para produzir o tributo. Esta dedicação não é surpreendente tendo em conta a relação que a Rainha estabeleceu com a marca. A primeira (e única) vez que a monarca presenciou a London Fashion Week foi no desfile de Richard Quinn em 2018, onde entregou a este o prémio de British Design. Além do expectável preto fúnebre, Quinn inspirou-se em silhuetas vitorianas, assim como as próprias roupas que a Rainha Isabel II e a sua irmã, Princesa Margarida, utilizaram durante o funeral do seu pai.

 © ImaxTree

Para os céticos, os cínicos e os incompreendidos, a decisão de persistir com a Semana de Moda de Londres pode parecer intrigante, fútil até. Mas esta forma de entender a Moda não era partilhada pela monarca. A Rainha Isabel II, ao longo dos seus 70 anos de reinado, destacou-se pela importância que atribuía ao simbólico. Cada olhar, cada outfit, cada acessório, tornaram-se a forma como a Rainha comunicava com o seu povo, com o mundo. Foi através da importância que atribuiu à sua imagem que a monarca contribuiu para estabelecer, não só a Moda britânica, como a identidade estética do Reino Unido.

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