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Tendências 3. 12. 2019

Deixem o amor-próprio em paz

by Mónica Bozinoski

 

Jennifer Lopez cantava que o amor (pelo menos, o dela) não custava nem um cêntimo, mas nunca a ouvimos dizer que era fácil. Muito menos quando é de nós para nós. Numa altura em que o self-love se tornou uma expectativa mais social do que pessoal, desmistificamos o porquê de ser mais complexo do que simples.

©Getty Images

“Gostava de escrever algo sobre a nossa ‘obsessão’ com o amor-próprio. Isto é, sobre o porquê de, hoje, existir esta ideia de que já não podemos não gostar de alguma coisa em nós, e muito menos falar abertamente sobre o porquê de não gostarmos. Parece que esta coisa do amor-próprio significa que temos que gostar de tudo em nós, porque se não gostarmos, algo de errado se passa connosco.” O tema surgiu numa tarde de um qualquer fim de semana um tanto cinzento, alguns meses antes de me sentar e tentar discorrer sobre o universo tão vasto, tão complexo e tão subjetivo em que ele se insere. Alguém dizia precisamente que, nos dias que correm, parecia que já não podíamos não gostar do nosso nariz, ou da nossa barriga, ou das nossas pernas. Concordei sem pensar duas vezes, não estivesse eu a sentir exatamente o mesmo. “Claro que o amor-próprio é importante. Mas isso não significa que tenhamos que estar bem com tudo a toda a hora. Este assunto dá pano para mangas.” Naquele momento, a troca de opiniões não se estendeu por mais de uma ou duas mensagens, mas esta ideia de um self-love quase fundamentalista, quase radical, sem desculpas, falhas ou dias maus, ficou ali a espreitar à janela, a bater à porta, desejosa de sair.

Depois de vivermos demasiado tempo assombradas com a ideia de que o nosso amor por nós mesmas dependia de um determinado número na balança, de que a nossa felicidade pessoal dependia do dito sorriso perfeito, com lábios voluptuosos e dentes assimétricos, de que nunca estaríamos completas se não coubéssemos completamente naquele estereótipo, naquele grupo, naquele espaço, naquele molde, naquelas medidas, o discurso daquilo que realmente define este ideal de self-love mudou. Números na balança? Sorrisos perfeitos? Lábios voluptuosos e dentes assimétricos? Estereótipos? Isso é tudo tão 2009 – e ainda bem que é. Mas o que é que acontece quando, em pleno 2019, os movimentos de positivismo, as imagens de aceitação e os discursos de amor-próprio chegam até nós como uma espécie de ultimato de ou vale tudo, ou não vale nada? “Muitas pessoas acham erradamente que o apreço por partes de si é sinónimo de amor-próprio ou que a satisfação sentida em alguns momentos favoráveis da vida traduz amor-próprio”, explica Filipa Jardim da Silva, psicóloga clínica e coach profissional. “Há muitas pessoas que consideram que gostar de si mesmas implica gostar de tudo em si, e isso não é verdade. Amor-próprio traduz respeito e aceitação, o que é diferente de resignação e apreço por tudo de igual forma. Quando nos amamos verdadeiramente somos capazes de reconhecer aquilo que gostamos mais e aquilo que gostamos menos em nós, sem que isso interfira na forma como nos percecionamos, nem nos julgando melhor do que os outros nem nos considerando piores.”

 “Desde que o amor-próprio de tornou numa buzzword vemos discursos um bocadinho problemáticos nesse âmbito”

Como elabora a psicóloga, “não é expectável gostarmos de tudo em nós mesmos, e não certamente da mesma forma e com a mesma intensidade. O amor-próprio não pode depender disso. O amor-próprio tem de assentar no respeito por nós, independentemente do que gostamos em nós em determinado ponto da nossa vida.” Esta ideia é partilhada, também, por Mafalda Gomes. “Desde que o amor-próprio de tornou numa buzzword vemos discursos um bocadinho problemáticos nesse âmbito”, partilha a blogger plus size quando lhe pergunto, durante a nossa troca de e-mails, se sente que as pessoas confundem o self-love com a ideia de que precisam de gostar de tudo em si mesmas. “Não estamos à espera de que ninguém goste do seu corpo da noite para o dia, e que desempacote anos de sentimentos menos positivos em meia dúzia de dias. Cria a ideia que gostar de tudo em nós mesmas é um pré-requisito para sermos felizes e cria uma expeptativa e uma pressão tão grande e pesada quanto àquelas às quais já estávamos habituadas.” Como defende Mafalda, “o importante é como nos sentimos interiormente, quando estamos sozinhas, quando fazemos scroll no feed do Instagram e não sentimos uma necessidade doentia de nos compararmos a todas as pessoas que nos aparecem à frente. Criar expectativa à volta deste conceito [de amor-próprio] só vai acabar por minar algo que estava destinado a ter um impacto positivo.”

Num artigo intitulado “Has imperfection become the latest unrealistic beauty ideal?”, publicado no site da revista Dazed no início deste ano, Clementine Prendergast colocava a questão da seguinte forma: “A ideia de alcançar a felicidade e a realização já não nos é vendida através da procura pela perfeição, mas antes através da aceitação da imperfeição. De condições de pele inflamatórias ao excesso de pelos no corpo, o zeitgeist de hoje é o amor-próprio, e a imperfeição é a nova e brilhante aspiração rebocada pelos media.” E acrescentava: “Nos dias de hoje, a prática do amor-próprio é uma expectativa social e a celebração das nossas ‘falhas’ corporais um ritual de passagem (...). Em 2019, se não conseguires adorar as tuas imperfeições, é quase como se tivesses falhado num nível fundamental. Olhando para as narrativas de beleza dominantes, será que a imperfeição se tornou no mais recente ideal de beleza irrealista?” Refleti um pouco sobre a pergunta que Clementine Prendergast deixa no ar, e a verdade é que a consigo ver um pouco por toda a parte. Não quero com isto dizer que a imperfeição se tenha transformado num ideal de beleza absoluto, até porque não consigo acreditar nisso de forma absoluta. Mas quando somos confrontadas com a imagem de alguém que se sente 100% confortável na e com a sua pele, com todas as suas falhas e imperfeições, de manhã à noite, 24 horas por dia, 7 dias por semana, 30 dias por mês, 365 dias por ano, não haverá uma parte de nós mesmas que se questiona sobre o porquê de não conseguirmos alcançar um estado de tal plenitude connosco mesmas?

“Na minha perspetiva, se estamos a trabalhar no amor-próprio, de uma forma consciente, temos que perceber que o amor-próprio não é perfeição”

“Essa linha de pensamento e essa questão da perfeição até no amor-próprio leva-nos precisamente ao mesmo sítio que origina a falta de amor-próprio, o que é curioso”, diz Helena Morais Cardoso, terapeuta de amor-próprio, enquanto conversamos sobre todas estas ideias pelo telefone. “Essa procura pelo perfecionismo, essa busca nossa, que é muito nossa, da nossa geração, da atualidade, de uma rede social perfeita, de uma vida perfeita, com os filtros perfeitos, é aquilo que origina a nossa insegurança. Porque tu tens um dia mau e de repente vais ao Instagram e está tudo com os filtros certos, na medida certa, e ninguém tem problemas. Na minha perspetiva, se estamos a trabalhar no amor-próprio, de uma forma consciente, temos que perceber que o amor-próprio não é perfeição.” Numa altura em que parece existir tanta pressão à volta dele, pergunto a Helena o que significa, para ela, o amor-próprio. “É aceitação. É tu aceitares a autoimagem que tens de ti.  Não aceitares na totalidade, porque também deves questionar. Existem algumas coisas que tu aproprias e que não estão certas, algumas ideias que tu tens de ti mesma que acabam por não ser corretas. Para mim, a pedra basilar [do amor-próprio] é a aceitação. E isto também implica [a aceitação] das coisas que não gostamos. Se eu não gosto de uma determinada característica física em mim, por exemplo, e falando numa questão mais estética, trata-se de aceitar. Mas isso não significa que tenhamos que ir para um extremo cor de rosa e sem racionalidade, porque isso não é quem nós somos.”

Esse extremo de que a terapeuta fala leva-me a colocar-lhe a questão dos discursos de amor-próprio que, na falta de melhor expressão, podem fazer soar os alarmes do fundamentalismo. “Acaba por exercer em nós o mesmo tipo de insegurança das modelos nas revistas”, defende Helena. “É, de facto, outro tipo de ditadura.” Esta ditadura a que a terapeuta de amor-próprio se refere é, como a própria diz durante a nossa conversa, “uma ditadura do positivismo” – um “estereótipo inalcançável” que não só “cria mais tensão em nós”, como nos leva também a um estado emocional de insuficiência. “Neste momento, eu já não sou insuficiente por não ser magra, sou insuficiente por não gostar de mim. O que é surreal. É o perfecionismo. (...) Agora, tens que aceitar que não cabes num determinado estereótipo. Mas a sensação é a mesma, o sentimento que estamos a propagar socialmente com este tipo de pensamento é o mesmo, insuficiência e comparação. É pensares: ‘Aquela pessoa gosta todos os dias dela, e eu não. Deve estar algo de errado comigo.’ Essa insuficiência e essa comparação vão alimentar o meu desamor próprio, vão levar-me a pensar que nunca vou alcançar aquilo, que nunca vou conseguir chegar àquele patamar de amor-próprio, de aceitação.”

“O maior equívoco que temos em relação ao amor-próprio, e é aí que começa a minha história, é acharmos que ele não é mutável, que não o podemos mudar. É como se fossemos impotentes perante a imagem que temos de nós mesmas”

Quando questiono Filipa Jardim da Silva sobre estes mesmos discursos, a psicóloga defende a importância de “desmistificar algumas mensagens mais absolutas.” “É muito apelativo dizermos um conjunto de palavras que sabemos que vão ser apreciadas, mas as quais não sentimos verdadeiramente. O pseudo amor-próprio pode ser usado como uma máscara ou como uma proteção para as críticas, e é importante que criemos consciência do que é o quê”, defende a psicóloga. “Repetirmos muitas vezes em cima de um palco que celebramos as nossas imperfeições não irá fazer diferença no momento em que olhamos ao espelho e sentimos repulsa pelo reflexo projetado. Assim, antes do que é projetado, importa que o amor-próprio ligado ao autorrespeito e valorização pessoal esteja sedimentado e seja fortalecido, de dentro para fora.”

Ninguém disse que falar de amor-próprio era fácil, pois não? “Eu acredito que, antes de pregarmos amor próprio e confiança corporal, devemos perceber que podemos simplesmente ser neutros em relação ao nosso corpo e looks, e que não há nada de errado com isso”, diz Mafalda Gomes. “É o chamado body neutrality, que acaba por ser uma iniciação mais suave ao amor-próprio e ao body positivity. A verdade é que as pessoas que são mais felizes com o seu corpo são neutras em relação a ele, pois a sensação de não gostar ou de sobrevalorizar alguma parte não lhes passa pela cabeça, e se passar, não lhes ocupa muito tempo.” Apercebo-me que, de forma talvez inconsciente, esta neutralidade é algo bastante presente na minha relação comigo mesma. Não adoro as minhas mãos, não gosto particularmente do meu nariz, não morro de amores pelo pequeno espaço entre os meus dentes. Mas será que alguma vez vou conseguir eliminar o “não” destas frases?

“Amor-próprio é perceber que há dias e dias, mas é também encarar os dias menos bons com maior leviandade” 

“O maior equívoco que temos em relação ao amor-próprio, e é aí que começa a minha história, é acharmos que ele não é mutável, que não o podemos mudar. É como se fossemos impotentes perante a imagem que temos de nós mesmas. A grande pergunta que me fazem no início da terapia é, ‘será que eu ainda vou a tempo, será que eu ainda consigo?’ Muitas pessoas acham que não”, diz Helena Morais Cardoso. “Mas o amor-próprio é um processo, e eu digo que o meu processo é para a vida toda. Tu descobres outras camadas em relação ao teu amor-próprio que precisam de ser trabalhadas. Eu, pessoalmente, estou numa busca pela humanização. Acho que a humanização das pessoas é necessária. Não está sempre tudo bem, mas isso não significa que eu deixo de gostar de mim. Acho que a ideia chave aqui é se estás em paz com isso, se aceitas quem és. Podes não adorar e podes continuar a não adorar alguma coisa em ti, mas consegues estar em paz e aceitar. Vão sempre existir coisas que nós nunca vamos gostar. Mas precisamos de estar em paz com isso e não nos sentirmos inferiores e insuficientes.”

Para Mafalda Gomes, “estar em paz com o que menos nos agrada” é “mais importante do que gostar de algo em nós.” Como me escreve a blogger, “adoro os meus olhos, mas mais importante que isso, já parei de lutar contra o meu rabo panqueca. É um ótimo rabo, faz tudo o que lhe compete [risos]. Posso dar outro exemplo pessoal: cresci muito complexada com o meu peito e considerei cirurgia de redução durante muitos anos. Quando tive o meu primeiro trabalho como bra fitter vi muitos corpos e, consequentemente, muitas maminhas. Percebi que o meu peito era perfeitamente normal e os pensamentos negativos que tinha em relação a ele desvaneceram. Passei por uma fase neutra, em que não me incomodava, até chegar a um ponto em que comecei a considerá-lo um dos meus maiores atributos. Não foi algo linear, tive os meus altos e baixos, mas cheguei aqui. E isso é algo que gostaria de reforçar: amor-próprio é perceber que há dias e dias, mas é também encarar os dias menos bons com maior leviandade.” Ninguém disse que falar sobre amor-próprio é fácil. Mas é sempre possível erguer a bandeira branca.

Artigo originalmente publicado na edição de novembro de 2019 da Vogue Portugal. 

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