Alugar: o futuro da indústria da Moda?
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Tendências 9. 8. 2018

Alugar: o futuro da indústria da Moda?

by Mónica Bozinoski

 

Como um serviço de streaming ou um Airbnb para o guarda-roupa, o futuro da indústria da Moda pode estar cada vez mais próximo de um modelo baseado no aluguer de peças de roupa. 

©Warner Bros

Foi durante o primeiro episódio da sexta e última temporada de O Sexo e a Cidade que Carrie Bradshaw proferiu a famosa frase "Gosto do meu dinheiro onde o consigo ver - pendurado no meu armário". Esta expressão pode ter ficado para a história, mas outras como "Ir às compras é a minha aula de cardio" ou "Gastei quarenta mil dólares em sapatos e não tenho onde viver? Vou ser a mulher que viveu nos seus sapatos" provam que Bradshaw não estava sozinha nos muitos exemplos da obsessão pelo material, pela ostentação e pelo luxo que invadiram a indústria, particularmente, durante os anos 2000. 

"Não pratico desporto", disse em tempos Jessica Simpson. "O único exercício que faço é ir às compras. Mas envolve andar muito... e correr às vezes, se alguma coisa estiver em saldos". Com o despertar do novo milénio, a fantasia de comprar, ter e mostrar estava mais in do que nunca - dos episódios de MTV Cribs, que abriam as portas a um mundo onde ter um walking closet maior do que qualquer apartamento em Lisboa era perfeitamente normal, passando pela tendência do logomania ou por Confessions of a Shopaholic, o filme que nos mostrou o lado mais negro de não medirmos os limites dos nossos desejos, a ideia inconsciente de "quanto mais, melhor" traçava o caminho para uma sociedade cada vez mais centrada no consumo. 

Fast-forward para 2018. Numa era governada pelo imediatismo, pelas tendências cada vez mais passageiras, pelas lojas de fast fashion, pelo e-commerce à distância de um clique e pelo universo irrealista das redes sociais, consumir é sinónimo de fast and furious - e, quer queiramos quer não, somos todos vítimas. Porque é que queremos um colar com conchas que, provavelmente, não vamos usar mais do que duas vezes? Porque todas as it girls usam. Porque é que queremos uns tiny sunglasses que, provavelmente, vamos detestar daqui a um ano? Porque Bella Hadid, Kim Kardashian ou Kendall Jenner usam. Porque é que queremos uma simples saia em cetim que, para além de estar fora do nosso paycheck, está esgotada há meses? Porque vimos no feed de miúdas cool como Camille Charrière ou Lucy Williams. Mas é para isso que o carrinho de compras imaginário existe, certo? 

Os nossos hábitos de consumo descartáveis e rápidos não só deixam um sentimento de vazio por não termos nada para vestir, apesar de termos um armário cheio de roupa, como levantam também uma questão ambiental alarmante. De acordo com um artigo publicado pelo Fashion Revolution, um movimento global com o objetivo de alcançar uma indústria mais transparente, ética e sustentável, a indústria da fast fashion produz cerca de cem mil milhões de peças por ano, afigurando-se como uma das mais poluentes do mundo. Os dados não acabam aqui.

Segundo um estudo publicado pela Ellen MacArthur Foundation em novembro do ano passado, o equivalente a uma carga de camião de roupa é desperdiçado a cada segundo em todo o mundo e menos de 1% dos materiais utilizados para produzir roupa são reciclados em novas peças. Para além destes números, o estudo aponta ainda para a diminuição do tempo de utilização de uma peça de roupa antes de ser descartada, que decresceu em 36% em relação à percentagem registada há 15 anos atrás, com 60% dos cidadãos da Alemanha e da China a admitirem que têm mais peças de roupa do que aquelas que realmente precisam. 

Apesar de gigantes da fast fashion como H&M ou & Other Stories incentivarem os seus consumidores à reciclagem de peças que já não usam, e apostarem em opções cada vez mais éticas e sustentáveis, com marcas como Oysho, Zara, Topshop ou Josefinas a seguirem o ideal, a questão permanece: será suficiente para diminuir o impacto negativo da indústria da Moda no ambiente? 

"A coisa mais importante que aprendi é que ter um guarda-roupa sustentável não significa apenas comprar peças de marcas sustentáveis ou éticas", escreveu Pandora Sykes para a edição britânica da revista Elle. "Para mim, ser sustentável é estender a vida de alguma coisa: revender, trocar ou comprar em segunda-mão. A sustentabilidade não é uma posição absoluta. A sustentabilidade significa fazermos o melhor que conseguimos e considerarmos, cuidadosamente, tudo o que entra no nosso lar - de formas pequenas e significativas", defendeu a jornalista. 

Segundo o relatório The State of Fashion 2018, publicado pelo Business of Fashion, "a sustentabilidade estará no centro da inovação na indústria da Moda em 2018", com um número cada vez maior de empresas a mudarem o seu foco para uma economia circular, onde a ideia de sustentabilidade não será apenas uma parcela de iniciativas fragmentadas, mas antes uma parte integral e carcaterística da cadeia de valor da indústria da Moda.  

"O consumo não é apenas uma questão financeira - é uma questão de ética."

Para além do número de projetos emergentes, como o exemplo de Glam to Glam, o primeiro marketplace português dedicado exclusivamente à compra e venda de peças em segunda mão, criado por Catarina Nogueira e Sara Couto em 2017 com foco na circulação de peças como forma de criar uma indústria cada vez mais sustentável, passando por nomes como Vestiaire Collective, uma plataforma de e-commerce dedicada à venda e compra de artigos de luxo em segunda mão, ou Mia Luxury Vintage, um showroom baseado em Lisboa com peças vintage de maisons como Chanel, Yves Saint Laurent ou Christian Dior, a consciência ética da indústria está a estender-se, também, a uma nova forma de consumir. Bem-vindos ao mundo em que ter um closet como o de Cher Horowitz em Clueless significa alugar, e não comprar. 

Em 2017, o centro comercial londrino Westfield testou um serviço pop-up de aluguer de roupa como uma possível solução para elevar a sustentabilidade da indústria a um novo patamar. Segundo um estudo conduzido pela própria entidade, este modelo de negócio tem o potencial de gerar cerca de 923 milhões de libras apenas no Reino Unido, com 46% dos consumidores a mostrarem interesse na possibilidade de alugar peças de roupa, não só pela facilidade de adaptação às tendências, mas também à abordagem mais sustentável que representa. A par com estes dados, o estudo mostrava que o aluguer de peças de roupa está a tornar-se uma opção cada vez mais popular, particularmente para eventos como casamentos ou festas. 

"A Moda é muito rápida e está sempre a mudar", disse Shika Bodani, fundadora do site de aluguer Front Row, à edição britânica da Harper's Bazaar. "É impossível acompanhar tudo o que acontece só com algumas peças-chave. Não é, de todo, económico". Com uma lista de marcas de luxo como Dior, Prada, Valentino, Chanel, Dolce & Gabbana, Versace ou Gucci, para nomear apenas algumas, a plataforma criada em 2016 funciona como um serviço completo de lifestyle, onde é possível alugar peças de vestuário e acessórios de luxo para qualquer ocasião, por períodos de cinco dias. Para Bodani, o sucesso deste tipo de modelo está intimamente ligado à questão da sustentabilidade e à ideia de menos desperdício, sem sacrificar o desejo de seguir as últimas tendências. 

"Quando alugas uma peça de roupa, o desejo de ter alguma coisa nova acaba por sair do teu sistema". 

Este tipo de serviços, como um Netflix ou um Airbnb para o seu guarda-roupa, não acabam com o exemplo de Front Row. Em 2008, quando percebeu que a irmã tinha gasto dois mil dólares num vestido só para ir a um casamento, Jenn Hyman foi confrontada com uma ideia: não seria mais rentável se pudessemos alugar artigos de luxo em vez de os comprarmos? Depois de partilhar o conceito com a amiga Jenny Fleiss, as bases para Rent The Runway, um serviço de aluguer de vestuário e acessórios com três planos de subscrição mensal possíveis, estavam oficialmente lançadas.

O conceito de trocar o ideal de comprar uma só peça numa loja de fast fashion pela possibilidade de alugar quatro num serviço como Front Row ou Rent The Runway, uma espécie de armário no iCloud, é também partilhado por Anna Bance, fundadora da plataforma Girl Meets Dress. Em entrevista ao The Guardian, Bance defendeu que, na economia atual, "a ideia de propriedade está a tornar-se cada vez mais irrelevante", traçando um novo caminho para um modelo de aluguer que se afigura não só rentável, como mais amigo do ambiente. 

Poderá o futuro da indústria da Moda passar por um guarda-roupa inteiramente alugado, onde ter menos mas vestir melhor é mais importante do que ter mais e vestir pior? Seja através de uma carteira vintage, de um casaco em segunda mão ou de um vestido alugado, a única certeza que temos é que, à medida que caminhamos, torna-se cada vez mais importante repensar o modelo fast fashion e a indústria da Moda como um todo: afinal de contas, e porque ter muito nem sempre significa ter mais, até Carrie Bradshaw teve que limpar o armário dos sonhos de qualquer mulher. 

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