Moda  

Ai, que coisa bela tão feia: entre o camp e o kitsch, afinal, o que é o mau gosto?

21 Oct 2026
By Rita Petrone

Valentine Charrasse fotografada por Branislav Simoncik, com direção criativa e styling de Sasa Thomann, para a edição Hope da Vogue Portugal, publicada em setembro de 2020.

Uma reflexão sobre a história cultural do mau gosto.

Quem nunca pensou “ai que giro” após pôr os olhos em cima de algo objetivamente feio, que atire a primeira pedra. Seja um clash entre padrões que, contra todas as regras e estéticas, funciona, inequivocamente, bem; um jogo de conjugações tão inusitado quanto pouco prático; ou até uma tendência que, após jurarmos a pés juntos nunca adicionar ao guarda-roupa, se vê como protagonista da mais (in)ofensiva rotação de looks. Entre termos como camp, kitsch ou cringe, há muito que nadamos com e contra a corrente de uma filosofia de mau gosto. “É tão mau que dá a volta” tornou-se um elogio — e, para muitos, uma medalha de honra a conquistar. O dilema surge quando nos deparamos com a questão de que, tecnicamente, toda a beleza é subjetiva. Por isso mesmo, até as estéticas que visam fazer pouco de si mesmas têm o poder (e a possibilidade) de se tornarem porta-voz de uma beleza singular.

A corrente estética do mau gosto traduz-se em mais do que meras mensagens subliminares que se escondem em diferentes cortes e costuras. É um escape à normalidade, uma procura por um ecletismo desmedido. Por outras palavras, é tornar o ato de vestir num desporto radical, onde desafiar as regras se transforma na única máxima a ter em conta e uma dose diária de dopamina e adrenalina visual se assumem como os verdadeiros troféus em jogo.

Diz-se que o bom gosto não se ensina; que apenas se treina; que nasce connosco e é instintivo. Mas se tudo isto se aplica a um tipo de gosto pelo qual se ambiciona, no outro lado da moeda, o mau gosto surge como uma arma de batalha contra o convencional. Na sua plenitude sociológica, o mau gosto é uma tríade: é fácil de descartar, difícil de definir e impossível de ignorar. É comum pensar no mau gosto como o antónimo do requinte e da sofisticação, e há muito que este se tornou numa espécie de ovelha negra da família estética.

É importante referir que a estética do feio é um campo de estudo cuja investigação acumula séculos de história. No século XVII, surgiu o termo homme de goût (homem de bom gosto), uma entidade quase mítica que possuía uma aptidão especial para apreciar Arte e definir diferentes categorias estéticas como norma. Em 1757, o aristocrata francês Montesquieu enumerou os adjetivos belo, agradável, simples, delicado, nobre e gracioso como qualidades que definem algo como bom gosto. Na mesma altura (e obra), Voltaire admitiu que o gosto consiste não só em apreciar o sentimento de beleza, mas também as falhas existentes em todas as artes. Por outro lado, em A Estrutura do Mau Gosto, Umberto Eco descreve esta dualidade de forma concisa, aplicando-a à Moda e afirmando o bom gosto como recatado, minimalista e discreto, e o mau gosto como obsceno, maximalista e chamativo, afirmando que “um vestido concebido para realçar a forma de quem o veste não é, por definição, um produto de mau gosto (embora o fosse se chamasse a atenção do observador apenas para os atributos mais óbvios de quem o veste, reduzindo assim a sua personalidade a um mero adereço para uma característica física específica)”.

O mau gosto surge como uma arma de batalha contra o convencional. Na sua plenitude sociológica, o mau gosto é uma tríade: é fácil de descartar, difícil de definir e impossível de ignorar.

Pondo os pontos nos is, hoje, é possível afirmar que não existe propriamente uma entidade que determina a linha que define o bom do mau gosto, mas, regra geral, o mau gosto tende a ocupar duas categorias: a primeira estende-se a tudo o que é ousado, exagerado ou excessivo; a segunda foca-se em tudo o que é demasiado sentimental ou evidentemente piroso. É, quando a exceção não foge à regra, uma consequência direta dos mais variados clichês, assumindo uma condição estereotipada e repetitiva. Ainda assim, é impossível negar que existe sempre uma certa moralidade associada ao gosto. Aliás, o próprio ato de gostar não se cinge apenas a fazer juízos estéticos; ao invés disso, está intrinsecamente ligado a dinâmicas políticas, culturais ou sociais.

Esta distinção entre “bom”, “mau” e, quiçá, “neutro” tem muito que se lhe diga; mas, vai na volta e o ponto de partida é sempre o mesmo: o trabalho de Pierre Bourdieu. Segundo o sociólogo, o mau gosto, por si só, não é uma falha nem natural nem universal, mas sim um rótulo elitista que define fronteiras culturais sob o objetivo de manter o poder nas classes mais altas. Na sua obra, Distinção, o autor esclarece que o que a sociedade denomina de “bom” ou “mau” é, na verdade, única e exclusivamente, um produto da educação, da formação e da classe social. É o equivalente a uma roda de hamster: o bom gosto reflete, produz e mantém as estruturas sociais da sociedade, ao mesmo tempo que se assume como um pré-requisito para entrar nos escalões superiores da mesma.

Como a receita de um karma delineado com ironia, Paul Valéry, ensaísta francês proeminente no século XX, afirmou que “o gosto é feito de mil desgostos”. Para o bem ou para o mal, existe uma reversibilidade entre os dois pólos estéticos que é difícil de es- conder, resultado de uma inclinação dialética entre o bom gosto e a sua contraparte: as suas fronteiras são semiopacas na melhor das hipóteses, completamente inexistentes na pior das mesmas. Talvez seja por isso que nos é tão fácil apontar conceitos como o kitsch, o camp ou o cringe como correntes estéticas, dignas do seu espaço no campo de batalha das tendências.

Mas vamos por partes: quando se fala de kitsch, fala-se no paralelismo entre a (falta de) inteligência e o mau gosto. O escritor austríaco Hermann Broch definiu kitsch como o elemento do mal no sistema da Arte, retirando o conceito do universo estético e direcionando o mesmo para o âmbito da ética. No seu cerne, o termo acabou por se tornar uma denominação política que se revê em noções como produção em massa, repetição, inautenticidade e sentimentalismo. Mas o kitsch funciona também como um mecanismo de defesa, assumindo-se como uma barreira estética contra as verdades desconfortáveis da vida. Esta é uma teoria visada por Milan Kundera, no seu romance A Insustentável Leveza do Ser, no qual o autor descreve o kitsch como algo que exclui do seu campo de visão tudo o que é categoricamente incompatível com a existência humana.

O kitsch é, então, uma manifestação desta negação visual e humana. É uma rebelião paradoxalmente silenciosa e ruidosa contra a estetização que advém do pré-concebido. Esta estetização do conceito tornou-o tão abrangente que acabou por perder o seu próprio sentido. Transformou-se em nada mais do que uma automatização estética — o porta-voz do feio. Hoje, lado a lado com a ironia, o kitsch sabe que é kitsch, e vive bem no seu absurdo de estereótipos — ainda que o conceito original sobreviva no limiar da ignorância e na ilusão de beleza.

Segundo Susan Sontag, camp define-se como “uma visão do mundo em termos de estilo (...). É a predileção pelo exagerado, por aquilo que está ‘fora’, por coisas que são o que não são”.

Por outro lado, quando se fala de camp, o diálogo muda ligeiramente. Segundo Susan Sontag, cujo ensaio Notas Sobre o Camp inspirou o tema da Met Gala de 2019, como conceito, camp define-se como “uma visão do mundo em termos de estilo (...). É a predileção pelo exagerado, por aquilo que está ‘fora’, por coisas que são o que não são”. É uma ousadia estética desmedida, que transita entre o belo e o feio com uma fluência que apenas uma corrente estética confiante de si mesma consegue alcançar. Para Sontag, a mera existência do camp afirma que o bom gosto não é simplesmente bom gosto; que, de facto, existe um bom gosto pelo mau gosto.

É aliado a essa autenticidade que o cringe se assume como a estética no patamar seguinte da hierarquia da estética do feio. Neste sentido, cringe é uma escolha deliberada que valoriza o constrangimento, o mau gosto e o estranho para provocar um misto de sensações perante quem a observa — e, consequentemente, julga. É uma corrente estética que permite simultaneamente sentir simpatia e aversão por quem opta por este universo, provocando uma sensação mista de repulsa e de pertença. É uma combinação explosiva e exclusiva a este conceito, e o facto de envolver, em grande parte, a cultura pop e a Internet torna o cringe acessível a todos e, honestamente, inescapável à grande maioria.

Estamos perante uma era de mau gosto assumido — e intencional. De repente, “quanto mais, melhor” parece ter-se tornado a receita inevitável do sucesso. Tudo é mais brilhante, mais barulhento, mais atrevido. Escapar para uma realidade regida pelo silêncio ou pelo minimalismo deixou de ser apelativo, mesmo numa era onde os estímulos com os quais lidamos no dia a dia assumem proporções cada vez maiores.

Na Moda, isto traduz-se numa efervescência de cores, silhuetas e padrões que, provavelmente, não deviam fazer sentido; mas fazem — especialmente quando em sintonia com uma narrativa e criatividade desmedidas. O mau gosto tornou-se uma bandeira de autenticidade, uma espécie de antítese ao bom gosto no sentido em que se tornou algo nicho, pensado para quem sabe e não para quem quer fazer apenas juízos de valor.

Tornámo-nos esteticamente omnívoros, ainda que não imunes às hierarquias do gosto ou ao estigma cultural que acompanha o mau gosto. Pondo tudo em cima da mesa (leia-se: em pratos limpos), como o cineasta e ator John Waters afirma no seu livro Shock Value, “o mau gosto é a essência do entretenimento” — e, sejamos sinceros, hoje em dia, quem é que pode dizer, com plena confiança, que não quer ser entretido, a toda a hora, todos os dias?

Originalmente publicado no The Humor Issue, na edição de outubro de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui.

Rita Petrone By Rita Petrone
All articles

Relacionados


Coleções  

Tem graça: Uma junção de Arte e Moda na Longchamp Art Festival

09 Oct 2026

Moda  

Deve ser para rir: o regresso do humor à Moda

14 Oct 2026

Lifestyle  

Se rir, vai para o Inferno: uma análise ao humor negro

19 Oct 2026