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Curiosidades 1. 2. 2021

Aguenta, coração, esse órgão que é símbolo do amor

by Sara Andrade

 

<3. Até atalhos no teclado já aprendemos a fazer para desenhar esse emoji multiusos que, no fundo, é símbolo do amor em todas as suas vertentes. Mas o < e o 3 estão longe de se parecer com o órgão que se aloja na nossa caixa torácica. Nem sequer o emoji mais estilizado se assemelha ao verdadeiro. Então, como foi que chegámos a ele? E, afinal, será mesmo o coração que encerra todas as nossas emoções?

Nem só de atalhos no computador vive a icónica forma nos nossos dias. Double tap numa fotografia e sai um coração. Unam-se os polegares direito e esquerdo e respetivos dedos indicadores arqueados e sai um coração – depois é vê-los multiplicarem-se pelo público de um concerto e desenhados em GIF animados para stories. Pressione-se o delineado num livestream de Instagram e é vê-los jorrar da caixa de comentários. Espalhar amor internauta nunca foi tão fácil porque há uma forma fácil de o fazer: um coração vale mais que mil palavras. Afinal, até se quisermos dizer que estamos apaixonados temos smiles com olhos de coração. O símbolo é de tal modo forte que virou verbo: quando o designer gráfico Milton Glaser criou o famoso logo “I heart NY”, em 1977, como forma de incrementar a moral de uma cidade em crise, estava longe de perceber que aquele coração iria sair do grafismo para o vocabulário do mundo. A matemática é a linguagem universal? Talvez logo a seguir ao coração, atrevemo-nos a dizer. Mas por mais mérito e fama que o heart nova-iorquino de Glaser tenha ganho, ele não foi o primeiro. O coração, nesta forma de dois semicírculos superiores que acabam numa base pontiaguda, alimenta muitas teorias, como por exemplo, o inspirar-se nas folhas da videira, depois de se descobrirem cálices de vinho gravados com o formato de coração, mas também com a ideia de ter sido modelado pela forma dos seios e nádegas e outras partes da anatomia humana – por norma, femininas. Uma das mais peculiares teorias relaciona a figura com o da planta silphium, uma espécie de funcho que outrora crescia na costa do Norte de África, perto da colónia grega (e depois romana) de Cirene (agora Shahat, na Líbia). Na Grécia e Roma Antigas, as suas propriedades aromáticas e medicinais eram sobejamente conhecidas, até como xarope para a tosse, mas a sua utilidade mais famosa era o uso das suas sementes enquanto método contracetivo. A forma desta planta, de tal modo popular que foi cultivada até à exaustão, leia-se, extinção – diz-se que o imperador Nero ficou com a última dose – deu azo à sua representação em forma de coração e esta associação foi o que primeiro contribuiu para globalizar o símbolo. Outra teoria semelhante fala da sua parecença com a folha de hera, muito associada na Grécia Antiga com o deus Dioníso, divindade para o vinho, certo, mas também para tudo o que era coisa libidinosa e sensual. Curioso que a primeira associação do coração, mais do que amorosa, é sexual. Da intimidade (carnal) ao amor foi um passo que a História depois tratou de documentar de forma mais ou menos ilustrada.

O SÍMBOLO É DE TAL MODO FORTE QUE VIROU VERBO: QUANDO O DESIGNER GRÁFICO MILTON GLASER CRIOU O FAMOSO LOGO “I HEART NY”, EM 1977, COMO FORMA DE INCREMENTAR A MORAL DE UMA CIDADE EM CRISE, ESTAVA LONGE DE PERCEBER QUE AQUELE CORAÇÃO IRIA SAIR DO GRAFISMO PARA O VOCABULÁRIO DO MUNDO.

Esta indagação histórica, por deveras interessante que seja, não deixa de ser um conjunto de hipóteses especulativas. A génese deste coração representado pode, na verdade, ter origens nos escritos de Galen e no filósofo Aristóteles, defendem académicos como Pierre Vinken e Martin Kemp, que descreveu o coração como tendo três câmaras com uma pequena reentrância no meio. Fast forward para a Idade Média, quando artistas e cientistas tentaram desenhar representações do órgão a partir de textos médicos da Antiguidade (era pecado profanar o corpo de um falecido, por isso, o conhecimento era retirado destes testemunhos e não do órgão em si): no século XIV, por exemplo, o físico italiano Guido de Vigevano desenhou uma série de esboços anatómicos que se assemelhavam a este coração descrito por Aristóteles, esse senhor que atribuiu ao órgão supremacia total em todos os processos humanos. Aliás, no século IV a.C., o filósofo dizia que era o primeiro órgão a formar-se, de acordo com o que observara na evolução do embrião de pintainhos, atribuindo-lhe papel central na inteligência, razão e sensação. Não foi o único a correlacionar sentimentos e coração, nesta era da Grécia Antiga, sendo que os filósofos gregos concordavam, de forma mais ou menos consensual, que o coração estava ligado às nossas emoções mais fortes, entre elas o amor: como a poeta Sapho, no século VII a.C., que descreveu a agonia do seu “coração louco” por amor, escrevendo que “o amor abalou o meu coração, como o vento nas montanhas inquieta os carvalhos”; ou como Platão, que argumentou a favor do forte papel do peito na paixão e em emoções negativas como o medo, a raiva, a ira e a dor. Na Roma Antiga, a percepção repetia-se: Vénus, a deusa do amor, era a culpada por incendiar corações com a ajuda do seu filho Cupido, cujas setas que apontava ao coração humano eram certeiras e poderosas, fortalecendo esta ideia de vínculo entre o órgão, enquanto símbolo, e o amor. “Eu acho que o coração, de facto, está muito ligado a uma concepção romântica ou idílica ou amorosa que não tem absolutamente relação nenhuma com a função do órgão”, explica-nos o Dr. Rui Anjos, Cardiologista Pediátrico, Diretor do Serviço de Cardiologia Pediátrica do Hospital de Santa Cruz, CHLO. Fomos saber mais sobre esta máquina da nossa anatomia, mas não resistimos a que nos falasse dela enquanto símbolo do amor. Saiu da zona de conforto para nos tentar responder: “Eu acho que é pelo facto de, antigamente, muito antes de nós termos a noção do funcionamento de todos os órgãos e sistemas do corpo, as pessoas ligarem o facto de ficarem mais emocionais como resposta a determinados estímulos – sentiam o coração bater mais rapidamente, com mais força ou menos força –, e isso transformou um bocadinho o coração num órgão central para as relações amorosas ou emocionais, de um modo geral, mais lato. Ao sentirem o coração a bater, achavam que era no centro do corpo, na zona do coração, que de facto estavam concentradas as suas paixões, as suas emoções mais fortes. Mas, hoje em dia, sabemos que é o sistema nervoso central. O nosso sistema nervoso comanda o coração, e comanda muitos outros órgãos, […] o nosso coração não está diretamente relacionado com as emoções, mas sofre com as emoções, trabalha de forma diferente. E é por isso que desde há muitos séculos se liga mais o coração às emoções, porque é o órgão que mais rapidamente, ou de uma forma mais notória, manifesta as nossas emoções de uma forma diferente.” E acrescenta que “o coração é uma boa metáfora para o amor, porque todos nós o sentimos. Quer dizer, eu acho que a maior parte das emoções fortes se traduz por alterações do sistema cardiovascular de que nós nos apercebemos imediatamente. Tal como noutros órgãos, mas nós de facto sentimos muito no sistema cardiovascular, a tensão arterial, os batimentos cardíacos, e quando nós dizemos as palpitações no amor, o meu coração palpita por aquela pessoa, é porque de facto a nossa frequência cardíaca aumenta, etc., quer dizer, traduzimos mais rapidamente e de uma forma mais direta o funcionamento do coração quando temos emoções fortes, tal como no amor.”

Este paralelismo foi fulcral para as representações do coração enquanto símbolo do amor terem proliferado a partir da Idade Média, como metáfora dos amores das Cortes, por exemplo, tendo ganho especial multiplicação nas Artes a partir do Renascimento, usado não só na Arte Sacra – como o Sagrado Coração de Cristo –, mas também sendo assumido como o naipe de Copas nos baralhos de cartas. A primeira gravura conhecida com o símbolo surge por volta de 1250, numa ilustração do manuscrito francês Roman De La Poire, na qual um homem ajoelhado oferece o seu coração a uma donzela. O órgão em si assemelha-se mais a uma pinha, manga ou cone disforme do que a um coração, mas o formato entre os dedos enquanto o apaixonado agarra no objeto forma as linhas que hoje conhecemos do coração estilizado. As opiniões divergem sobre se o que segura na mãos é mesmo o seu coração ou apenas uma pera (o manuscrito traduzido em inglês chama-se Novel Of The Pear), ainda assim, uma referência curiosa para esta cronologia da figura, que aparece aqui pela primeira vez. Até porque este aspeto de pinha a ilustrar um coração invertido ocorre ainda em pinturas como a de Giotto na Capela Scrovegni, em Pádua (1305), que mostra uma alegoria da Caridade a oferecer o seu coração a Cristo, ou ainda, inspirados em Giotto, trabalhos na porta de bronze do Baptistério, em Florença, por Andrea Pisano (c. 1337); no Palazzo Publico em Siena, por Ambrogio Lorenzetti (c. 1340), e ainda Andrea da Firenze, em Santa Maria Novella, em Florença (c. 1365). O lado angular do coração começou gradualmente a apontar para baixo, mais ou menos pela mesma altura em que começou a ter aquela reentrância no topo, aproximando-se do coração que agora conhecemos – Documenti De Amori, por Francesco Barberino, do início do século XIV toca já ao de leve na figura; The Heart Offering, de Jehan de Grise, uma ilustração do The Romance Of Alexander (1338-1344), mostra uma mulher a oferecer o seu coração ao amado, naquela forma cónica, mas de ponta para baixo e com o corte superior. Esse “corte” no topo do coração começa a ficar mais pronunciado ao longo das décadas, chegando ao século XV e continuando pelo século XVI em inúmeros quadros e ilustrações, já muito próximo das linhas populares de hoje em dia – veja-se a miniatura de Petit Livre D’Amour, onde o autor Pierre Sala deposita o seu coração num campo de margaridas (a sua amante chamava-se Marguerite) ou a miniatura de duas mulheres a tentar apanhar corações voadores com uma rede, com uma série de corações alados já na figura que hoje conhecemos (mas com asas), ambos exemplos de inícios do século XVI. Mas essa forma já existia? Já. Só que, nestas épocas, a figura enquanto símbolo para o amor ganhou particular representatividade, crescendo em múltiplas demonstrações artísticas, da pintura à literatura e à música – as serenatas por trovadores eram uma declaração porexcelência no amor medieval, por exemplo. Quando o Dia de São Valentim surgiu, no século XVII, já a ilustração se assumia como a escolha óbvia enquanto símbolo para a data. Mesmo quando a medicina conquistou largos conhecimentos sobre o órgão e o seu funcionamento, por volta desta altura, mesmo quando os cientistas provaram que esta peça do corpo humano tinha pouco ou nada a ver com esta representação, a figura não esmoreceu. Torná-la viral, mesmo em séculos longe das redes sociais, foi fácil, e o símbolo cresceu até hoje se tornar no emoji que bem conhecemos e amamos, ou melhor, que <3.

“O CORAÇÃO É UMA BOA METÁFORA PARA O AMOR, PORQUE TODOS NÓS O SENTIMOS. QUER DIZER, EU ACHO QUE A MAIOR PARTE DAS EMOÇÕES FORTES SE TRADUZ POR ALTERAÇÕES DO SISTEMA CARDIOVASCULAR DE QUE NÓS NOS APERCEBEMOS IMEDIATAMENTE. TAL COMO NOUTROS ÓRGÃOS, MAS NÓS DE FACTO SENTIMOS MUITO NO SISTEMA CARDIOVASCULAR" - RUI ANJOS

Mas não foi só no emoji que o coração se tornou uma metáfora para o amor. O seu funcionamento tem sido alvo de inúmeras analogias em expressões mais ou menos fidedignas ao seu papel na fisiologia humana – por norma, menos, muito menos fidedignas. O “papel do coração e do sistema cardiovascular é basicamente distribuir o sangue a todos os órgãos e sistemas do corpo”, explica o cardiologista. Já que estamos a falar do coração, vamos conhecê-lo a três dimensões, em vez das duas em bits e bytes a que nos habituámos. “E com o sangue vão os nutrientes, e vai sobretudo aquilo que nos faz mais falta, segundo a segundo, que é o oxigénio. Portanto, o sangue que é distribuído a todos os orgãos transporta produtos que são essenciais, nomeadamente todo o tipo de nutrientes, que nós já absorvemos através do tubo digestivo ou que formamos no nosso corpo, e ao mesmo tempo, uma coisa que é essencial, que é promover a respiração celular, que é entregar oxigénio aos tecidos e trazer dióxido de carbono dos tecidos. Esta respiração celular permite às células obter energia a partir de produtos como, por exemplo, as moléculas de glicose, que é a molécula mais básica para fornecer energia; a partir da glicose, nós produzimos, ao nível das células, energia e libertamos dióxido de carbono. Portanto, é o mecanismo da respiração. Para que isso aconteça, o coração tem de entregar esses nutrientes e esses produtos, a todos os órgãos e tecidos, portanto, basicamente, é o órgão que promove o transporte de tudo ao nível do nosso corpo”. Junto do Dr. Rui Anjos, agora a mexer-se completamente na sua área de conforto, fomos averiguar se expressões como “o meu coração palpita por ti”, “até tive uma síncope quando te vi” ou o eterno “coração partido” encontram eco no órgão original. As palpitações, por exemplo: “Normalmente, nós não sentimos o coração trabalhar. Normalmente. O coração vai trabalhando ininterruptamente desde poucas semanas após a concepção até que morremos. E a frequência cardíaca é muito alta no período fetal, depois vai baixando progressivamente, mas continua a ser muito alta no recém-nascido e no primeiro ano de vida, e depois ao longo da nossa vida vai baixando progressivamente até que atinge os valores mais baixos no fim da vida. Quando um bebé nasce, a frequência cardíaca normal está entre os 120 e os 180 batimentos por minuto e quando nós chegamos aos 80, 90 anos, a nossa frequência cardíaca, habitualmente, anda à volta dos 50/60 batimentos por minuto. Isso acontece porque o coração se adapta e também por causa dos mecanismos de envelhecimento e de maturidade do coração. As palpitações são batimentos extra que nós sentimos como uma percepção dos batimentos cardíacos. Isso é uma palpitação. E isso habitualmente tem a ver com uma frequência cardíaca mais rápida, ou porque a pessoa correu ou porque a pessoa está com febre ou porque a pessoa se enervou e está mais ansiosa. Portanto, o coração bate mais rápido e nós temos essa perceção e dizemos ‘o meu coração está a palpitar’. Mas verdadeiramente, o termo técnico ‘palpitação’ tem a ver com uma arritmia, com extra-sístoles, habitualmente.” O cardiologista explica o processo, em detalhe: “É um desvio da frequência cardíaca normal. Está ligado ao nosso sistema nervoso mais básico, que é o sistema nervoso de relação, ou o sistema nervoso autónomo, que nos faz transpirar quando estamos ansiosos, que faz com que o coração bata mais rapidamente também quando estamos ansiosos e que nos faz reagir de determinada forma face às emoções, por exemplo, face a um perigo há pessoas que ficam com o coração a bater muito rápido e a tensão arterial sobe, e há outras que, face ao mesmo perigo, ficam pálidas, com a frequência cardíaca mais baixa e a tensão arterial também mais baixa, e desmaiam. Portanto, esse é o sistema nervoso autónomo, que gere também o coração, que nos permite manter uma frequência cardíaca básica durante todo o dia.” Ou seja, o nosso coração pode de facto palpitar na presença da pessoa amada, mas é uma resposta do sistema nervoso, que pode acontecer noutras situações e não exclusivamente nesta – ainda que seja muito mais romântico associar as palpitações a episódios deste género. Não é à toa que dizemos que o nosso coração “skipped a beat” quando vemos alguém de quem gostamos. Ou até falar em síncope como aquele momento em que o nosso coração para “porque nos apaixonamos”: “A síncope é uma perda de consciência momentânea súbita”, esclarece o cardiologista. “E há várias causas de síncope. Há três grupos principais de causa de síncope: o mais frequente é uma síncope refl exa. E isso, mais uma vez, é o tal sistema nervoso autónomo, que é o nosso sistema nervoso de relação, que mantém o coração a funcionar com um determinado estímulo, que mantém um certo tónus, uma certa contração dos vasos, para manter não só uma boa frequência cardíaca, como também uma boa tensão arterial. Quando nós temos uma síncope, a maior parte das vezes o que é que acontece? Há uma resposta desajustada do organismo a uma emoção, em que o coração em vez de aumentar a frequência cardíaca e aumentar a tensão arterial, sofre por um mecanismo auto regulatório desajustado… O coração recebe estímulos para trabalhar mais lentamente, e os vasos recebem estímulos para se dilatarem, para perderem o seu tónus. Portanto, dessa resposta desajustada, vem um elo fi nal que é a diminuição da tensão arterial. Então, o cérebro não recebe sangue com a tensão arterial necessária, portanto, transitoriamente, nós perdemos a consciência porque não chega sangue em quantidade sufi ciente ao cérebro. Esta é a causa mais frequente e mais banal de síncope, mas há outras causas, nomeadamente doenças graves que se podem manifestar como síncope, mas esta é a causa mais frequente, sobretudo nas pessoas que têm uma saúde ótima mas que têm umas respostas desajustadas. [No caso do amor] A pessoa até pode desmaiar por um problema passional, por ter uma dose de stress exagerada, por não se alimentar, por estar desidratada, por estar apática, por isso, pode ter ali de facto um componente psicológico muito importante, e depois pode desmaiar, ou pode não reagir adequadamente por uma resposta desajustada do nossos sistema nervoso autónomo, lá está. E o coração manifesta-se porque depois bate muito devagar antes de uma pessoa desmaiar, antes de uma pessoa ter a síncope, e depois quando a pessoa está a recuperar bate muito rapidamente.” As analogias não são totalmente descabidas. De uma forma claramente exacerbada e com a culpa ligeiramente mal-direcionada – o responsável é o nosso sistema nervoso, o coração manifesta-se por tabela –, usar o seu funcionamento para verbalizar o que nos vai na alma em matérias de coração não está completamente desajustado – pelo menos enquanto metáfora, claro.

O recurso à figura enquanto representação da paixão e de todas as maleitas e alegrias que nos traz vai continuar a fazer sentido enquanto o órgão se manifestar fortemente de cada vez que o amor acontecer. Colocar a essência amorosa no centro do peito pode não ser ratificado pela Medicina e pela Ciência, mas a verdade é que algo tão único como o amor só podia estar num órgão que se lhe assemelhasse nessa órbita de singularidade: “A morte acontece quando o cérebro deixa de funcionar. Mas quando o coração para, os outros órgãos param, mas temos muitas situações em que a pessoa estámorta e o coração continua a trabalhar. É a chamada morte cerebral. E a morte cerebral é aquilo que determina a vida ou a morte de uma pessoa. Agora, ninguém consegue viver com um coração parado, exceto se tiver um equipamento ou uma máquina que substitua o coração. E nós temos de facto corações artificiais que podemos colocar, mas com um prazo limite, quer dizer, nós não conseguimos colocar um coração artificial a durar mais do que alguns meses, e alguns meses já é com muita tecnologia e um esforço muito grande e é algo que, progressivamente, toda a estrutura do equipamento vai perdendo a sua função, vai perdendo a sua capacidade”, esclarece o cardiologista. “Que é diferente de um transplante de coração. Num transplante de coração, nós colocamos o coração de outra pessoa no doente e o doente tem de aceitar esse coração como sendo seu, porque ele pode rejeitar esse coração. Mas nessa altura fica com um coração ‘novo’, já não é novo a 100%, mas é um coração que ultrapassa os problemas inerentes ao seu coração que estava doente.” Por esta altura do texto, já deve ter percebido que isso do transplante e de um substituto artificial não acontece quando o nosso coração é pisado metaforicamente. Nenhum destes procedimentos remenda um “coração partido”, faça-se desde já o disclaimer. Para esses, é o tempo e a terapia do costume. E a esperança de que para cada emoji de coração partido hajapartido haja um <3 novo. Esse, o símbolo, a figura, o desenho, o emoticon, há-de sempre permanecer incólume, ainda que o seu, o meu, o nosso, não passe por esta vida sem alguns riscos e mudanças de humor, perdão, amor.

*Artigo originalmente publicado na edição Love da Vogue Portugal, de dezembro 2020.
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