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A sorte está lançada

The Fortune Teller © Colin Dodgson para Gucci

Tendências 25. 5. 2018

by Rui Matos

 

Seja através do tarot ou de qualquer outro movimento esotérico, a indústria da Moda tem sido influenciada por forças e elementos, uma relação que remete para os primórdios do século XX, quando Christian Dior visitou pela primeira vez uma vidente. 

Por mais cético que seja, é impossível negar que, pelo menos uma vez na vida, se tenha debruçado sobre estes elementos místicos, nem que seja pela simples curiosidade de saber como será o seu dia baseado numa aplicação astrológica (Astrology Zone de Susan Miller é umas das opções recorrentes na redação da Vogue). 

A indústria da Moda e, consequentemente, todos os seus intervenientes não escondem a devoção a estas correntes, seja ela através do tarot, da mitologia ou de sociedades secretas. Christian Dior, um dos primeiros e mais conhecidos couturiers, era um homem de superstições e a primeira vez que visitou uma vidente tinha 13 anos - corria o ano de 1919. “Vais sofrer com a pobreza, mas as mulheres são sortudas por te ter e, através delas, vais alcançar sucesso. Vais ganhar muito dinheiro e viajar imenso.”, foram as palavras proferidas pela vidente de Dior, conta o The New York Times. 

A partir desse momento, todas as suas escolhas começaram a ser pautadas pela fé que tinha no misticismo - por exemplo, a criação da marca homónima só aconteceu depois de Christian consultar Madame Delahaye, uma das mulheres que acompanhou a trajetória do criador francês.

Dior, Cruise 2018, © Via dior.com

Fast forward para 2017. Maria Grazia Chiuri, a primeira mulher a comandar o leme da Dior, homenageou o seu fundador através da coleção Cruise de 2018, que apresentou em solo norte-americano. O tributo a esta fé de Christian deu-se através da simbologia que rodeia o Jardim do Tarot, um local místico no sul da Toscana, em Itália. Nos coordenados que idealizou, além das claras referências ao Velho Oeste, a criadora italiana importou alguns elementos e figuras enigmáticas. 

Nos últimos meses, é notório o crescimento desta tendência. Clare Waight Keller, diretora criativa na Givenchy, apresentou uma coleção de joias inspiradas nos signos do Zodíaco; em Londres, Aries, a nova marca de streetwear, revelou várias peças com referências a estas culturas esotéricas; e, por sua vez, aqui ao lado, em Espanha, Morgana Sanderson conta histórias de bruxaria através das peças que tem apresentado. 

De viagem até Itália e com paragem nos escritórios Gucci, debruçamo-nos sobre as inspirações de Alessandro Michele, o designer que tem elevado o estatuto da marca italiana. Assim que assumiu o cargo de diretor criativo, Michele tem evocado, a cada estação e de forma distinta, elementos mitológicos, sociedades secretas e, de uma maneira geral, todo o universo místico. 

Para a nova linha de joias e relógios Gucci, a Casa italiana convidou Tippi Hedren, a atriz norte-americana que participou em Pássaros, a emblemática obra cinematográfica de Alfred Hitchcock. Neste lançamento, o ambiente construído levou-nos até às tendas das videntes que associámos às feiras populares ou romarias. Nas imagens e curta-metragem, Hedren dá vida à vidente que é visitada por dois jovens que procuram saber o futuro.

The Fortune Teller, © Colin Dodgson para Gucci

Da Moda para o Instagram, não foram precisos muitos passos. Carmen Frontera é uma ilustradora espanhola que criou uma série de ilustrações chamada Pussy Tarot Deck, na qual recria a figura feminina segundo a pseudociência que é o tarot. “Quando comecei este projeto, não conhecia ninguém que tivesse feito algo do género e, de repente, muitos artistas antes de mim já o tinham feito, foi impressionante. Mais tarde, em conversa com amigos, percebi que muita gente está a investigar ou a pesquisa sobre o tarot. A curiosidade sobre as pseudociências e o misticismo que as envolvem é muito tentadora.”, contou Frontera ao site da Vogue Espanha.  

Porquê agora? Esta é a pergunta que impera e à qual só nos ocorre responder: a estética e as ilustrações por detrás destes simbolismos e culturas esotéricas têm fascinado, cada vez mais, o comum mortal, seja pelas cores ou pelas ilustrações que se revelam apelativas. E o futuro deverá passar pela evocação destas ciências do oculto, mais que não seja pela diversão com que podem ser recriadas e usadas. 

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