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The peculiar beauty: os padrões de beleza estão a mudar

16 Feb 2021
By Wojciech Delikta

Hoje, no universo dos modelos, a diversidade parece ser muito mais valiosa do que os padrões estabelecidos. As agências de modelos procuram cada vez mais por novos rostos não convencionais, que podem redefinir os padrões de beleza.

Hoje, no universo dos modelos, a diversidade parece ser muito mais valiosa do que os padrões estabelecidos. As agências de modelos procuram cada vez mais por novos rostos não convencionais, que podem redefinir os padrões de beleza.

Weronika. Fotografia: Maciej Nowak. Styling: Radek Bagiński. Hair & Makeup: Kamila Vay. Courtesy of Pinokio Models
Weronika. Fotografia: Maciej Nowak. Styling: Radek Bagiński. Hair & Makeup: Kamila Vay. Courtesy of Pinokio Models

Tem um nariz comprido, lábios finos, olheiras, sobrancelhas grossas e orelhas proeminentes. Armie Harutyunya - nascida Yerevan, neta de Khachatur Azizyan, um dos pintores mais famosos da Arménia - tornou-se musa da Gucci. O próprio Alessandro Michele, diretor criativo da marca italiana, incluiu o seu nome numa lista das 100 mulheres mais bonitas do mundo. Mas nem todos partilham a mesma opinião e admiração do designer. Recentemente, a modelo de 23 anos foi alvo de comentários negativos e odiosos que insultavam a sua aparência por não corresponder aos padrões de beleza tradicionais, chegaram mesmo a questionar a sua validade enquanto modelo.

Armine Harutyunyan © Getty Images
Armine Harutyunyan © Getty Images

A imagem “não convencional” de Harutyunya trouxe para cima da mesa um grande debate sobre o padrão de beleza e os problemas do body-shaming. O renomado e controverso fotógrafo Oliviero Toscani argumenta que: “Os tolos veem beleza apenas nas coisas trivialmente bonitas. Existem belezas muito mais complexas.” A indústria da Moda afasta-se mais e mais do ideal de Beleza que as supermodelos perpetuaram na década de 90. Winnie Harlow, Shaun Ross e Brunette Moffy, citando apenas alguns nomes, devem o seu sucesso e popularidade à singularidade da sua aparência. As passerelles de Martin Margiela, Rick Owens, Echkaus Latta ou Art Shcool são frequentemente preenchidas por nodels - modelos não profissionais recrutadas nas ruas, são pessoas normais com silhuetas distintas, com vitiligo, cicatrizes ou tatuagens, parte inerente das suas personalidades. “A beleza é uma forma de personalidade”, conclui Toscani. 

Against the mainstream

Um rosto simétrico ou o famoso tamanho zero já não são condições sine qua non para se ser um modelo. Bochechas encovadas, palidez, lábios, olhos ou orelhas desproporcionais e até mesmo uma dentição incompleta são, hoje, igualmente aceitáveis. Estas características físicas e nuances estéticas são altamente desejadas pelas agências de modelos que se especializam na promoção da “beleza alternativa”(alt-beauty). “Gostamos das nossas mulheres gordas e dos nossos homens geek, gostamos dos extremamente altos e dos extremamente pequenos. Ninguém é demasiado abstrato para os nosso books”, declara a Ugly Model. Esta agência, com sede em Londres, redefine a beleza e a feiura desde 1969, ao recrutar personagens excêntricas e pessoas comuns que se sentem confortáveis na sua própria pele.

A Anti-Agency surgiu para indivíduos únicos, criativos, opinativos, talentosos, francos e inteligentes, “para pessoas que poderiam ter sido modelos mas decidiram não o ser, para pessoas que são demasiado cool para ser modelos.” Esta agência já contratou uma estudante bioquímica, um futebolista, um ecoativista e um editor de uma revista punk. A aparência distinta e o estilo muito individual de cada um deles já chegaram a grandes casas de Moda, entre eles Vivienne Westwood, Marc Jacobs e Versace. “O universo dos modelos não só me permitiu quebrar padrões de Beleza dentro da indústria da Moda, mas ensinou-me também a apreciar a Beleza que existe em mim mesma”, contra Symone Lu, agenciada pela Anti-Agency.

Antti Kettunen, agenciada da Tomorrow Is Another Day. Balenciaga primavera/verão 2020 © Getty Images
Antti Kettunen, agenciada da Tomorrow Is Another Day. Balenciaga primavera/verão 2020 © Getty Images

Entre os modelos da Tomorrow is Another Day não vai encontrar playboys musculados como David Gandy. Esta agência alemã, fundada e dirigida por Eva Gödel, reune rapazes magros (que parecem pertencer a uma banda de garagem) e homens maduros cujas rugas revelam uma vida repleta de experiências. É de onde veio Steve Morell - um músico punk e modelo da Balenciaga. “Tenho um rosto característico, umas maçãs do rosto e um olhos proeminentes. Como um personagem elegante e bizarro dos anos 80,” descreve-se Morell.

Quando a Moda da Europa Ocidental foi conquistada pelas mãos de Demna Gvasalia (na Vetements e, posteriormente, na Balenciaga) e Gosha Rubchinsky, a indústria ficou interessada em encontrar novos rostos entre os modelos dos países pós-soviéticos. Avdotja Alexandrova, fundadora da agência Lumpen, foi uma das primeiras a reconhecer esta tendência. Alexandrova está de olho nos jovens russos cujo quotidiano oscila entre os últimos resíduos do lado sombrio do comunismo e a fantasia capitalista da abundância. Os traços crus, distintos, quase como se tratasse de um hooligan chamaram a atenção de nomes como Dirk Bikkembergs, Off-White, Comme des Garçons, Gucci ou Vetements. A juventude underground da Europa oriental é também o grupo de foco da agência ucraniana Cat-b. O nome lembra “categoria B” - algo que é de segunda classe, periférico, o segundo melhor. “Mas para nós, isso significa uma beleza não óbvia e um fascínio impalpável, aquilo que precisas de recuar um passo para apreciar de forma plena. Algo que precisas de olhar com atenção”, diz Anja Borovska, fundadora da Cat-b. 

The beauty of silly face

A Pinokio Models é a primeira agência polaca de modelos a gravitar à volta da beleza “alternativa”. Foi fundada para quem gosta de ler livros proibidos, escrever poemas, fazer ginásio ou lutar apaixonadamente pelas suas convicções. É um gang de “miúdas, homegirls, mulheres, rapazes, dudes, homens” cuja presença intrigante combina com o seu temperamento extraordinário.  “Os nossos modelos não levam a sua aparência ou eles mesmos muito a sério. Não têm medo de fazer caretas ou expressões faciais feias ou, até mesmo, acentuar aquelas partes do corpo que muitos podem considerar um defeito”, diz Wojciech Tubaja, fundador da Pinokio Models. “Queremos criar uma oportunidade para as pessoas que foram rejeitadas.” 

Oliwia foi uma das rejeitadas. É uma mulher alta com olhos profundos, um diastema visível e um hobby incomum: ter baratas de Madagascar como animais de estimação. “Muitas vezes fui chamadas de ‘bruxa’ devido às minhas linhas faciais nítidas, pelo meu queixo protuberante, nariz grande e cabelo crespo”, recorda. Tubaja encontrou-a quando trabalhava numa loja de conveniência. Uma outra vez, numa estação ferroviária, Tubaja conheceu Maksymilian, que esperava pela sua avó. Damian, por outro lado, procurou a Pinokio Models, vendo a agência de modelos como um lugar adequado para ele. Antes disso, foi-lhe dito que ele não era masculino o suficiente devido às suas características andróginas. Agora Damian e Oliwia aparecem nos editoriais de Moda das revistas mais conceituadas do mercado.

Oliwia. Fotografia: Maciej Nowak. Styling: Radek Bagiński. Hair & Makeup: Kamila Vay. Courtesy of Pinokio Models
Oliwia. Fotografia: Maciej Nowak. Styling: Radek Bagiński. Hair & Makeup: Kamila Vay. Courtesy of Pinokio Models

A natureza inclusiva e underground da Pinokio Models chama a atenção de marcas e designers vanguardistas que valorizam a verdadeira beleza humana em tudo quanto é possível. Apreciar a beleza não convencional dos modelos tornou-se o ponto de partida para o novo projeto de Tubaja, que convidou o fotógrafo polaco Maciej Nowak como seu parceiro. Tubaja criou uma série de fotografias - retratos realistas e emocionantes que deixam de lado o glamour e o retouch idealizado. Como diz Wojciech Tubaja: “Com estas fotografias queremos inaugurar um ciclo de colaborações com fotógrafos que vão redefinir os padrões de beleza.”

“Só o feio é atraente”, escreveu Jules Champfleury, crítico de arte do século XIX. Charles Baudelaire argumentou que a Beleza contém sempre uma pitada de peculiaridade. No domínio da Moda, essas palavras ecoam nas criações de Alexander McQueen ou Walter van Beirendonck e nas carreiras de Stacey McKenzie, Rick Genest ou na já mencionada Armine Harutyunyan. A “beleza alternativa” é só alternativa de acordo com os padrões estabelecidos no passado, que são cada vez menos relevantes nos dias de hoje. A era das supermodelos da década de 90 - embora historicamente importante - acabou. No universo dos modelos de hoje, muito mais valioso do que a conformidade com um antigo padrão de beleza, parece ser a diversidade - um espetro amplo de aparências, personalidades e experiências. A Beleza é muito mais complexa do que aquilo que pensamos.

 

Wojciech Delikta é historiador de arte, crítico e contributor editor na Vogue polaca. Este artigo foi escrito em exclusivo para Vogue.pt.

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