Entrevistas   Moda  

A mestria de Alaïa e Dior chega agora ao papel, num livro editado por Carla Sozzani

28 May 2026
By Vogue Portugal

Carla Sozzani em Azzedine Alaïa. Fotografia de Paolo Zerbini.

Em conversa com a Vogue Portugal, Carla Sozzani, a editora do livro "Azzedine Alaïa, Christian Dior: Two Masters of Haute Couture", fala-nos sobre o que une o universo de dois criativos tão diferentes, mas complementares.

Azzedine Alaïa é, sem dúvida, um dos designers mais influentes da Moda. O criador tunisiano-francês tornou-se conhecido pelas suas criações que celebram a forma feminina, unindo sensualidade e mestria técnica e afirmando-o como um dos nomes mais incontornáveis das décadas de 80 e 90.

Alaïa mudou-se para Paris em 1956, onde trabalhou brevemente com Christian Dior – designer pelo qual desenvolveu uma profunda admiração, colecionando mais de 600 peças de Dior ao longo da sua vida. Depois disso, trabalhou com outros designers de haute couture – como Thierry Mugler e Yves Saint Laurent – como alfaiate, até fundar a sua marca homónima. Ao longo dos anos, o designer construiu um percurso guiado pela perfeição artesanal, nunca deixando que a pressão do ritmo da indústria da Moda fosse uma linha de influência.

Já Christian Dior, outro dos nomes mais emblemáticos da Moda, fundou a sua maison em 1946, após trabalhar ao lado de nomes como Robert Piguet e Lucien Lelong. O seu trabalho revolucionou a Moda a nível mundial, nomeadamente através do New Look (apresentado em 1947), definido por cinturas marcadas e saias em linha A que demarcam uma silhueta extremamente feminina.

Livro Azzedine Alaïa, Christian Dior: Two Masters of Haute Couture, editado por Carla Sozzani e Olivier Saillard e publicado pela Damiani Books.
Esquerda: Vestido Christian Dior CARMEN Ligne Longue Alta-Costura, outono/inverno 1951. Direita: Vestido Azzedine Alaïa Alta-Costura, outono/inverno 2016.

Dior e Alaïa partilhavam – e continuam a partilhar, através dos legados das suas respetivas maisons – o mesmo fascínio pelo corte perfeito e construção rigorosa das peças. Ambos valorizavam o corpo e recorriam a técnicas de savoir-faire que moldam a silhueta feminina com precisão. 

É precisamente desta união que surge o mais recente livro, Azzedine Alaïa, Christian Dior: Two Masters of Haute Couture. Editado por Carla Sozzani e publicado pela Damiani Books, o livro dá palco ao diálogo entre o tempo dos dois génios criativos, entrelaçando a estrutura visual com a linha cronológica da vida de ambos os designers.

Azzedine Alaïa Alta-Costura, outono/inverno 2017.
Cortesia Damiani Books

O que a atraiu inicialmente para os universos de Azzedine Alaïa e Christian Dior? E qual foi o ponto de partida para o livro?

O que nos atraiu a ambos foi a sua devoção absoluta à construção, ao corpo e à ideia de que a Alta-Costura não se resume apenas à beleza, mas também à disciplina. Dior criou uma arquitetura da feminilidade após a guerra. Alaïa, décadas mais tarde, esculpiu o corpo com uma liberdade, intimidade e força diferentes. O ponto de partida do livro foi a presença extraordinária de Dior na própria coleção de Azzedine. O arquivo Dior tornou, generosamente, isso possível, identificando a coleção de Azzedine Alaïa ao longo de dois anos de trabalho. Azzedine reuniu quase 600 peças Dior ao longo da sua vida, o que revelou uma admiração, um diálogo, quase uma conversa secreta entre dois mestres da Alta-Costura.

Este livro encena um diálogo através do tempo entre Alaïa e Dior. Quais são, para si, os momentos mais marcantes em que as suas ideias convergem e divergem?

Ambos compreenderam que um vestido começa por dentro: com a construção, a proporção, o equilíbrio e o savoir-faire das mãos. Dior criou uma silhueta que pertencia a um momento histórico, um sonho de elegância e renovação após a guerra, e criou o império empresarial Dior muito importante num curto espaço de tempo. Para Azzedine Alaïa, criar um negócio nunca foi o principal motor: ele trabalhava fora do tempo e fora das estações, tentando alcançar a perfeição de Christian Dior na Alta-Costura.

Christian Dior ROMANCE Ligne Flèche Alta-Costura primavera/verão 1956.
Cortesia Damiani Books

O que descobriram nessa conversa que não tinham percebido anteriormente no trabalho de cada um?

Descobrimos quanta emoção há na construção. Quando colocadas lado a lado, as suas obras revelam que a técnica é uma paixão. Uma costura, uma cintura, um volume, um corte — tudo resulta da dedicação e, consequentemente, transmite desejo, memória e visão. Também percebemos, claramente, que Alaïa não olhava para Dior com nostalgia, mas com o olhar de um costureiro a estudar um mestre.

Como é que estruturaram o ritmo visual do livro? Foi cronológico, temático, ou baseado em associações mais intuitivas entre os dois designers?

O ritmo não é estritamente cronológico. É mais intuitivo, vai-se revelando por si mesmo. O livro segue associações de forma, linha, volume, detalhe e atmosfera. Desenvolve-se através de ecos: uma construção que revela outra construção, um gesto que passa de um atelier para o outro.

Azzedine Alaïa Alta-Costura, outono/inverno 2009.
Cortesia Damiani Books

Houve alguma combinação inesperada de peças de vestuário ou imagens que, uma vez colocadas juntas, alterasse o significado do trabalho de algum dos criadores?

Sim. Algumas combinações fizeram com que Dior parecesse mais radical do que se poderia esperar, e Alaïa mais clássico. Foi uma descoberta muito comovente. Quando as suas peças são colocadas lado a lado, a elegância de Dior revela o seu savoir-faire estrutural e a sensualidade de Azzedine revela a sua profunda disciplina no artesanato da Alta-Costura.

Passou décadas a moldar a cultura visual através de exposições e publicações. Em que medida a edição de um livro como este difere dos seus outros trabalhos?

Um livro é mais do que uma exposição. Numa exposição, percorremos o espaço. Num livro, o olhar percorre páginas. Editar este livro significou criar um ritmo de proximidade e pausa. Não se tratava apenas de mostrar peças de vestuário, mas de lhes permitir respirar, de dialogarem entre si com o leitor — e de imergir o visitante na cenografia, de suscitar a emoção, de partilhar a emoção.

Christian Dior VENEZUELA Ligne Fuseau Alta-Costura, outono/inverno 1957.
Cortesia Damiani Books

A edição envolve frequentemente uma espécie de autoria silenciosa. Onde vê a sua própria voz neste projeto e em que momentos optou por se afastar?

A minha voz está no prazer de criar um projeto, no ritmo das escolhas, nos silêncios entre imagens… está na forma como o diálogo se desenrola. É natural afastar-me. Estas peças de vestuário já falam com grande força. O meu papel foi ouvir o trabalho dos dois mestres — as escolhas de Olivier Saillar e a cenografia de Kris Ruhs — para criar as condições para a sua conversa.

O “New Look” de Dior e a precisão escultural de Alaïa redefinem o corpo feminino de formas diferentes. Considera as suas visões complementares, contraditórias ou algo mais complexo?

Vejo-as como complementares. Ambas transformam o corpo através da construção. Mas Dior enquadrou o corpo e Alaïa seguiu-o, segurou-o, libertou-o. Dior propôs um sonho de feminilidade moldado pela sua época. Alaïa criou uma feminilidade mais física, mais independente, mais viva no movimento. Entre eles há uma diferença de 30 anos, acho que Dior teria feito o mesmo.

Esquerda: Christian Dior Boutique, c. 1957. Direita: Azzedine Alaïa Alta-Costura 1958.
Cortesia Damiani Books

Existe também uma profunda reverência pelo artesanato entre os designers. Acha que esta sensibilidade se está a perder, ou simplesmente a transformar, na Moda contemporânea?

O artesanato não se perdeu, mas é frágil. Precisa de tempo, de transmissão e respeito. Hoje em dia, a Moda move-se frequentemente demasiado depressa para as mãos. É nosso dever, também através deste projeto, motivar os jovens talentos e a nova geração a abraçar o trabalho manual e a orgulhar-se do artesanato, sem o qual não há futuro na moda, e não só a Moda. O desafio consiste em proteger o conhecimento permitindo simultaneamente que as novas gerações o reinterpretam. Sem as mãos, a Moda perde a sua alma.

Tanto Alaïa como Dior moldaram ideias de feminilidade. Olhando para eles hoje, esses ideais parecem intemporais ou revelam os limites da sua época?

São duradouros porque falam de beleza, proporção, elegância e desejo, todas as ideias que continuam a abrir caminho para o futuro. Não há futuro sem o passado. Acredito que ambos também abrem caminho para uma nova feminilidade. Hoje, a feminilidade já não é o único ideal. É múltipla, fluida, pessoal. O que continua a ser importante é que ambos quiseram e conseguiram dar liberdade à mulher por dentro da peça de roupa, cada um na sua época.

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