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Tendências 18. 2. 2021

Os tempos de adversidade levam ao crescimento criativo?

by Rosalind Jana

 

Quando a pandemia de Covid-19 terminar, serão as indústrias criativas que vão ajudar a impulsionar recuperação do mundo, tal como o conhecemos? A história diz-nos que sim. 

J.W. Anderson, primavera/verão 2021 © J.W Anderson 

Quando o mundo entrou em lockdown no ano passado, o universo criativo foi rápido a responder. Os museus, da Argentina ao Canadá, lançaram exposições virtuais e programas culturais que podiam ser vividos a partir de nossa casa. Os teatros transmitiram peças. Os músicos colaboraram via TikTok. Os pintores deram aulas de arte ao vivo no Instagram. O designers de Moda fizeram apresentações virtuais.  

Os tempos mais difíceis estimulam a criatividade ou apenas a sobrevivência? É uma questão que tem sido debatida desde os primórdios, muitas vezes com mais veemência quando nos encontramos em circunstâncias desafiantes. Durante o primeiro confinamento, a questão voltou a ser discutida. Como - perguntaram as pessoas - é que esse tempo de ruptura e perda vai afetar o que está a ser criado e divulgado no mundo? Levará isso a um pensamento visionário dos sistemas e formas? Vai afetar a nossa arte? A nossa cultura? As roupas que usamos? Como Shakespeare que escreveu King Lear durante uma praga ou Isaac Newton que descobriu o cálculo durante uma outra, que inovações ou descobertas podem ser feitas durante este período?

Com certeza, a história sugere algumas alianças óbvias entre eventos devastadores - globais e/ou pessoais - e a resposta criativa. Obviamente, é inútil esperar por grandes engenhos durante uma época que tem sido trágica para muitos, implacavelmente stressante para outros (particularmente a nível financeiro para os criativos) e monótona para todos. No entanto, o ano passado deu-nos uma série de inovações e soluções imaginativas - assim como uma enorme curiosidade sobre como esta época pode abrir caminho para novas transformações.  

A indústria da Moda pediu também uma grande reformulação, com Tom Ford a publicar uma carta aberta em nome do Council of Fashion Designers of America (CFDA) em maio passado. “A indústria vai mudar; mas a mudança também apresenta uma oportunidade para redefinir, reiniciar e criar uma base sólida para o futuro da Moda americana,” escreveu. A carta tinha o propósito de anunciar uma arrecadação de fundos e a iniciativa A Common Thread, uma continuação da ligação do CFDA com a Vogue Fashion Fund, criada após os 11 de setembro, que desde então doou mais de 5 milhões de dólares a empresas americanas necessitadas. 

É essa ideia de transformação e renovação que parece urgente especialmente agora, em todo o globo. É uma ideia que suscita mais perguntas e reflexões. Como a resposta bem-sucedida da Coreia do Sul à Covid-19 que se cruzou com o cenário cultural dinâmico e da Moda voltado para o futuro do país? Que impacto tem uma maior ênfase na inovação digital e nas compras online nos designers africanos que procuram por um público mais amplo? Que mudanças estão ainda por vir? 

O que é que significa ser criativo em tempos tão incertos?

Lee Miller, ​Fire Masks,​ 1941. US Vogue, 15 July 1941 © LEE MILLER ARCHIVES, England 2021. All rights reserved

Antes de especularmos sobre o futuro, vale a pena voltar ao passado e olhar para a Vogue britânica durante a II Guerra Mundial. A editora Audrey Withers de repente viu-se no papel de ter que equilibrar a Moda com as circunstâncias dos seus leitores, que se alteraram drasticamente, muitas vezes recrutando o olhar sensível de Lee Miller para refletir, com precisão, a realidade da época. Em 1944, Miller viajou para França, onde começou a documentar a invasão aliada da Europa ocupada pelos nazis como uma dos quatro fotógrafos credenciados pelas forças armadas dos EUA. As imagens angustiantes e os relatórios escritos que enviava eram frequentemente publicados na revista.

Models wearing fashions designed by Pierre Cardin, 1968 © Getty Images

Existem muitos outros eventos nos quais nos podemos basear que mostram um união de imaginação e capacidade de resposta. Pode-se, digamos, olhar para a Guerra Fria como um período prolongado de incerteza e ler uma espécie de otimismo e medo nos projetos da era espacial de Pierre Cardin e Paco Rabanne, descritos por Jane Pavitt e David Crowley, no livro Cold War Modern: Design 1945 to 1970 (V&A Publishing, 2008), por possuírem “uma dualidade de utopia e desastre”. Da mesma maneira, a queda do Muro de Berlim, em 1989, cimentou uma pequena mas crescente cena do techno que se transformou num enorme movimento liderado por jovens, alimentado pela reunificação, que se estendeu além do delírio para incorporar arte, Moda e subculturas queer. 

Qual é o papel da indústria da Moda no pós-pandemia? 

Sinceramente, no momento, estamos a responder às circunstâncias como elas são: às vezes imaginativamente, às vezes pragmaticamente. Sem dúvida, uma grande mudança está por vir. As bainhas subiram e os loucos anos 20 rugiram porque sucederam a perda e a transformação social após a I Guerra Mundial. A Dior abraçou uma silhueta baseada no excesso como resposta às privações da II Guerra Mundial. Como o ex-diretor criativo da Lanvin, Alber Elbaz, refletiu a propósito do recente lançamento da sua nova marca, a AZ Factory, “após a gripe espanhola e a primeira grande guerra, houve um pico de criatividade na França que ficou conhecido como les année folles (os anos loucos). Eu questiono-me, o que é que vai acontecer depois da pandemia? Voltaremos para os année folles?”

Já circulam muitas pistas inspiradoras daquilo que está por vir. As grandes casas de Moda tiveram que se desafiar quando se trata de apresentações na era do distanciamento social: seja Loewe destacando o tato através de apresentações em caixas elaboradas ou a Balenciaga a abraçar o potencial digital através de um videojogo interativo. Como acontece com a última, a tecnologia vai desempenhar um papel particularmente instrumental, aconteça o que acontecer a seguir - potencialmente através de roupa totalmente digital ou através da tecnologia realidade virtual. 

As publicações de Moda também passaram por um exame de consciência. As capas da Vogue apresentam trabalhadores da linha da frente, desenhos infantis, assim como Withers durante a II Guerra Mundial que levou a cobertura da Moda para o nível seguinte, pensando de forma mais profunda sobre como é que refletimos a realidade dos tempos que vivemos. A união entre designers a outras indústrias profissionais - seja com o propósito de criar material de proteção, de derrubar barreiras para entrar na indústria da Moda ou apoiando negócios mais pequenos e independentes - também sugere um sentido de comunidade, de desejo por um universo da Moda melhor e mais justo.

Kenneth Ize, primavera/verão 2021

Parece que a pandemia gerou um maior foco no meio ambiente. Soluções imaginativas para apresentar coleções, como o uso de material excedente e tecidos reciclados - um acenar a um futuro mais verde. A ênfase na habilidade artesanal, talvez através de um desejo maior por criatividade, encontrou também uma nova luz. Como o designer nigeriano Kenneth Ize, que durante uma conversa, no ano passado, com Marc Jacobs na série Vogue Global Conversations, falou sobre a construção de um novo tear para o seus tecelões poderem trabalhar em casa: “A criatividade nunca para, de forma nenhuma. Precisa de continuar a mover-se. Tu tens que encontrar uma maneira de fazer isso acontecer.”

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