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A liberdade que se prende nas paredes: Manuela Pimentel transforma o esquecido em arte

23 Jul 2026
By Carolina Raposo

ESTA OBRA MANDOV FAZER DONA ISABEL PIMENTEL GONÇALVES MINHA MÃE SENDO DO ANNO 2017 FEITORA MANVELA PIMENTEL, 2017.

As obras de Manuela Pimentel habitam um lugar raro, onde a narrativa floresce como poesia através de ruínas da memória. Entre papéis rasgados e palavras meio apagadas que se tornam silêncios sobrepostos, a artista encontra a matéria necessária para reinventar o seu mundo nas ruas.

Há quem diga que as paredes têm ouvidos, Manuela Pimentel acredita que as mesmas falam por si só. Nascida no Porto, em 1979, foi desde muito cedo que soube que lhe seria impossível viver sem fazer da arte a personagem principal da sua vida. Nos dias de hoje, recolhe materiais nas ruas, vestígios que nos escapam aos olhos, mas que não lhe fogem à alma, criando com eles uma narrativa viva. Entre vários tipos de arte, como pintura e escultura, Manuela retrata principalmente Portugal nas suas obras, através de objetos esquecidos e desvinculados — simultaneamente — do passado e do presente. Existindo numa linha inefável, as obras de Manuela Pimentel espelham uma espécie de poesia que grita, principalmente, liberdade, rebeldia, identidade e luta.

Como surgiu a paixão pela arte?

Nasceu da resistência e da insistência em viver para a arte. Sou mulher. Fui criada numa família tradicional Portuguesa e, talvez por isso, o meu crescimento tenha sido marcado por uma rebeldia, e uma grande vontade de estar na rua, sentir a liberdade, encontrar-me, como quem olha de frente para si próprio. Queria aprender a desenhar. Fui para a faculdade estudar desenho, aprendi desenho, comecei a pintar, interessei-me por xilogravura, apaixonei-me pelos múltiplos, pela repetição, o decalque passou a ser o padrão das minhas imagens. Repensei o azulejo de outra forma, encontrei-o no avesso das paredes, como se o descobrisse por baixo dos cartazes. Fui aprender desenho porque sentia que já sabia pintar. Não era só sonho, era uma atitude para me encontrar e entender o sentido da vida. Era uma luta pela liberdade. Este desejo resulta também do olhar generoso sobe a beleza que vem do mundo e das pequenas alegrias do quotidiano. Era a liberdade... Desde que terminei a faculdade que sabia que queria ser profissionalmente artista. Só assim seria possível [viver]. E resisto: faço 25 anos de trabalho continuo este ano de 2026.

À esquerda: da serie Banco de Jardim, PÁSSARO. Mãos que desenham Pássaros. Ao meio: AINDA, 2024. À direita: da serie Banco de Jardim, CÃO. Mãos que desenham Cães, 2016.
À esquerda: da serie Banco de Jardim, PÁSSARO. Mãos que desenham Pássaros. Ao meio: AINDA, 2024. À direita: da serie Banco de Jardim, CÃO. Mãos que desenham Cães, 2016.

À esquerda: da serie Banco de Jardim, PÁSSARO. Mãos que desenham Pássaros. Ao meio: AINDA, 2024. À direita: da serie Banco de Jardim, CÃO. Mãos que desenham Cães, 2016.

De que forma a recolha e transformação de materiais são uma janela para a (sua) alma?

São como acordes dissonantes, é um processo de rebeldia. É política, é reposta a algo que me incomoda, é um exercício de olhar, tentativa erro. Procuro desconstruir a formalidade do pensamento e torná-lo claro. Ajuda-me a esculpir o caminho, a remover o excesso e a chegar à forma. Proponho com eles uma morada poética no mundo.

Acredita que a recolha de materiais para realizar o seu trabalho é de facto aleatória ou acha que, inconsistentemente, pode existir uma razão para escolher este ou aquele? O que a atrai nestes objetos que tanta gente ignora?

Não é aleatória, tenho o meu olhar treinado. Sou uma observadora, direciono o interesse do outro nestes objetos. Faço o outro pensar, responder sem ter procurado uma questão. A arte serve para isso, para questionar o mundo de forma a que consiga fazer com que as pessoas comecem a pensar e a sentir coisas — sejam elas boas ou más, são catalisadores do pensamento crítico. A arte tem essa resposta, é ação e reação.

Porquê a rua como ponto de recolha de materiais para os seus trabalhos?

É nas ruas que somos livres, é nos "murmúrios dos muros que há gente a gritar". A democratização começa aqui. O poder da palavra torna-se urgente. A vida tornou-se frágil nestes novos tempos contemporâneos onde se vivem guerras reais. Não se pode ficar indiferente. As paredes vestem esta pele de revolta e eu reajo naturalmente.

Quando encontra um material na rua o que a faz pensar que tem potencial para se transformar numa obra de arte?

Todos os objetos contam histórias, eu identifico-me com estas histórias e quero trazer o que vejo e o que encontro na rua para dentro de casa. Os cartazes de rua são matéria pobre que transformo em nobre, ao rasgar consigo ver todas as camadas. Estas camadas que se assemelham às nossas que vamos acumulando durante a vida em sociedade e que me ajudam a simular os azulejos partidos. Sinto que são materiais que resultam como ilusionismo: confundem quando percebemos que os enormes painéis não são exatamente o que os olhos estão acostumados a ver. É nos dias de chuva que arranco os cartazes com maior facilidade, trago-os para o atelier, molho-os, corto-os e fragmento-os em camadas com forma de azulejo, imperfeitos, transformo-os em obra e conto a sua história. Utilizo cimento, pinto e rasgo, colo e sobreponho camadas.

Durante a construção da sua arte, há algum momento em que a obra decide o que quer ser ou a Manuela sabe desde o início qual vai ser o resultado final?

A minha linguagem tornou-se, ao longo do processo, muito particular. Aborda um tema que me liga à rua, aos cartazes de rua, às paredes, às intervenções de rua, aos azulejos tradicionais portugueses. Faço uma obra como se fosse uma construtora de paredes, um pedreiro. Cada vez mais, quero que estas peças se assemelhem a uma parede arrancada da rua — quero roubar essas histórias. Roubo à rua estas paredes. Este processo vai acontecendo naturalmente e, neste seguimento, reside uma linha condutora que se torna numa reconhecível parede arrancada da rua que foi trazida para o atelier. É o destino que me guia: respeito os rasgados, a cor, as palavras, os detalhes que aparecem e parecem diluir-se, quase apagados. Deixo fluir sem influência minha. A forma vem dos cartazes, não de mim, eu só entro depois. Os cartazes são como um bloco de pedra, cabe-me a mim saber desconstruí-los, depois, por magia, a forma aparece. Dentro dessa forma, as narrativas ganham volume e é aí que entro como veículo. O processo é um caminho que faço até me libertar do pensamento. Tento torná-lo palpável, mas desconheço o fim, nunca sei quando está terminada.

À esquerda: Não entres como turista, no coração de uma mulher - JMZ, 2025. Ao meio: Salpicos de Maresia, 2022. À direita: O Sal na Pele VI, 2015.
À esquerda: Não entres como turista, no coração de uma mulher - JMZ, 2025. Ao meio: Salpicos de Maresia, 2022. À direita: O Sal na Pele VI, 2015.

À esquerda: Não entres como turista, no coração de uma mulher - JMZ, 2025. Ao meio: Salpicos de Maresia, 2022. À direita: O Sal na Pele VI, 2015.

As suas obras transparecem uma espécie de ponte entre o passado e o contemporâneo. Sente que para criar a sua arte se baseia mais no passado ou no presente?

São fragmentos da realidade reunidos e rearranjados sob uma única linguagem, para a qual tenho como referência as colagens produzidas pelos mestres do novo realismo francês, como Raymond Hains e Mimmo Rotella. Ao contar o passado de Portugal, tenho vontade de reconstruir, recompor, e limar a minha própria  existência, tendo como resultado um corpo de trabalho inundado de detalhes, que parecem não estar prontos. Porque o meu lugar é o de intervenção, quero fazer parte dos que têm algo para dizer no presente. Quero ser eu própria, dizer a verdade, ocupar esse lugar. Sou uma artista contemporânea que quer ver do avesso. Sou através da história do passado uma reinventora dos azulejos tradicionais portugueses.

À esquerda: O tempo dos dias XIV, 2015. Ao meio: Um lugar Comum II, 2026. À direita: Uma forma simples de falar de afeto XVII, 2015.
À esquerda: O tempo dos dias XIV, 2015. Ao meio: Um lugar Comum II, 2026. À direita: Uma forma simples de falar de afeto XVII, 2015.

À esquerda: O tempo dos dias XIV, 2015. Ao meio: Um lugar Comum II, 2026. À direita: Uma forma simples de falar de afeto XVII, 2015.

O Sal na Pele IV, 2015.

Menciona que "é preciso sobreviver à clausura e, para tanto, tornar a cela confortável ou, pelo menos, habitável". Com "cela" refere-se à nossa própria mente? De que forma tenta, através da sua arte, manter a sua "cela confortável"?

No silogismo. Guio-me pelo raciocínio para chegar a conclusões reais. A nostalgia é o meu sentimento. É o meu combustível, mas não por inteiro. Vivo o presente, e isso ajuda-me a estar no futuro, o que tem um impacto fulcral nesta liberdade condicional, condicionada. A rua é o meu lugar de libertação, é uma forma de casa onde habito — uma casa sem teto. Esta liberdade condicionada é a sociedade que a impõe na nossa mente. A minha obra tem essa função de me libertar. De libertar. Procuro através do feio encontrar o belo.

As obras e projetos finais da Manuela têm uma linha bastante portuguesa. Para além do facto de Portugal ser o seu país de origem, há algo mais que a incentiva a seguir esta linha?

Tudo no mundo. O meu trabalho é autobiográfico, está tudo lá, a minha história, as histórias dos outros, as minhas angústias, experiências, a felicidade, o amor, a minha verdade e o que a vida me dá de volta. Sou focada e dispersa ao mesmo tempo, quero sempre encontrar algo mais intenso, quero a descoberta, procuro a minha tinta na viagem, o desafio do desconhecido é muito aliciante e intenso. Os painéis azuis e brancos introduzem esta portugalidade que me caracteriza no encontro da memória e da realidade identitária.

Qual o lado mais desafiante de se ser artista em Portugal? E o mais gratificante?

A pintura nasce da resistência e da insistência em viver. Viver da arte é muito desafiante, mas também muito gratificante, como respirar. tenho em mim um ofício, o de me ouvir e pôr em prática no meu trabalho as minhas inquietações para me entender melhor e entender o mundo. Tenho representado Portugal através da minha linguagem e da identidade que me caracteriza em vários países — como o Brasil, México, Macau, Angola, Moçambique, Espanha, Estados Unidos, Itália. Também a minha mais recente exposição a solo, aqui em Lisboa, na Galeria Underdogs, tem sido um desafio gratificante. 

À esquerda: Porquê não sei I, Prato de cerâmica, 2021. Ao meio: Confissão I, 2026. À direita: Porquê não sei II, 2021.
À esquerda: Porquê não sei I, Prato de cerâmica, 2021. Ao meio: Confissão I, 2026. À direita: Porquê não sei II, 2021.

À esquerda: Porquê não sei I, Prato de cerâmica, 2021. Ao meio: Confissão I, 2026. À direita: Porquê não sei II, 2021.

À esquerda: O Sal na pele II, 2015. À direita: O olhar diagonal das coisas (Díptico-Homenagem a Ana Luísa Amaral), 2022.

À esquerda: O Sal na pele II, 2015. À direita: O olhar diagonal das coisas (Díptico-Homenagem a Ana Luísa Amaral), 2022.

OS LOUCOS ANOS 20, 2020.

A mais recente exposição a solo da artista foi inaugurada a 10 de julho e estará exposta até ao dia 15 de agosto de 2026, na Galeria Underdogs, em Lisboa. 

Originalmente publicado no The Portuguese Summer Issue, a edição de julho/agosto de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui.

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