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Inspiring Women 19. 7. 2018

A história dos superpoderes do batom vermelho

by Irina Chitas

 

O Spider Man foi picado por uma aranha. O Capitão América era demasiado ingénuo e foi moldado em Super Soldado pelo Governo. O Batman era um milionário privilegiado que ficou órfão. Cada Superherói tem um gatilho que lhe faz explodir os superpoderes e, acreditem em nós, não é frívolo dizer que o batom vermelho pode ser o botão de impulso das mulheres.

Marilyn Monroe, 1954 © Getty Images

Até porque está cientificamente provado que os tons rubi não são só extremamente bonitos. São fortes, são impactantes, são inesquecíveis.

Parece exagero? Claro que sim.

Tudo o que está intensamente ligado à feminilidade é automaticamente conotado como superficial, mas sabia que, por exemplo, num inquérito do The New York Post, 78,8% das mulheres considerou que o batom vermelho as tornava mais confiantes? E que um estudo promovido pela divisão de investigação da Chanel em parceria com Gettysburg College provou que uma mulher com batom vermelho parece automaticamente mais nova? Ah, e também que uma investigação conduzida pela Procter & Gamble e Harvard chegou à conclusão que as mulheres que usam maquilhagem arrojada no trabalho transmitem a imagem de uma maior competência e, ao mesmo tempo, são também percebidas como mais simpáticas?

Sim, o batom vermelho serve para muito mais do que tornar as selfies melhores (também isto foi cientificamente investigado pela CoverGirl e Harvard). Mas qualquer mulher que o coloque não precisa que uma equipa de cientistas de bata branca lhe valide as escolhas. Aplicar batom vermelho é como injetar um boost de confiança. É empowerment em stick. Pode servir para melhorar aqueles dias em que acordamos #flawless ou arrebitar as manhãs de segunda feira com as quais não sabemos lidar. 

Toda a falsa tensão que se gera entre a missão de empoderamento feminino e os símbolos de beleza - muito porque tudo o que é conotado com a mulher angariou o sinónimo de leviano - tem de ser posta de lado, porque o empoderamento começa como uma força individual e se o batom vermelho for a nossa pintura de guerra, ninguém tem o direito de achar que não nos preocupamos com as problemáticas da irmandade. Pelo amor da deusa, até o tom de vermelho do batom é uma decisão pessoal e intransmissível. 

A história conta-nos isso, com todos os capítulos. Desde aqueles em que ainda não há memória às noites dos dias de hoje, em que tiramos o batom da carteira, passamo-lo nos lábios e sabemos que vai correr tudo bem. 

Busto de Nefertiti em exposição em Berlim © Getty Images

Se estávamos em 1370 A.C. e até Nefertiti tingia os lábios com uma mistura feita de besouros esmagados, sabemos que o batom vermelho não é uma obsessão da contemporaneidade. Também sabemos que os ícones de estilo não têm idade. 

Cate Blanchett em 'Elizabeth', 1998 © D.R.

Isabel I. Símbolo máximo de poder e independência feminina. Carregou a Inglaterra do século XVII às costas, mas enquanto o fazia, estava perfeitamente maquilhada. Infelizmente não podemos dizer que a investigação e tecnologia de Beleza estivesse particularmente avançada, porque o batom era produzido a partir de sulfito de mercúrio tóxico, e a base era feita com chumbo e vinagre. Pronto, talvez a rainha tenha morrido de envenenamento do sangue. E talvez muita gente culpe os cosméticos. Mas hey, Inglaterra sobreviveu. Também é verdade que, um século depois, a aristocracia não tinha uma relação pacífica com a maquilhagem e que, em 1770, o governo aprovou uma lei que criminalizava o batom com base no facto de "as mulheres serão culpadas de seduzir os homens para o matrimónio por meios cosméticos e poderão ser acusadas de bruxaria". Isto é a sério. Valha-nos França, que achava piada ao contraste entre os lábios rubi e a pele de porcelana.

Clara Bow, 1928 © Getty Images

Se pularmos no tempo até ao início do século XX, em 1912 Nova Iorque enchia-se de sufragistas de batom vermelho, contra a opressão masculina que olhava de lado a cor nos lábios das mulheres. O cinema ajudou à rebelião, com atrizes de bocas escuras que, por sua vez, incentivavam outras mulheres a copiar o look. Clara Bow e Mae Murray primeiro, e depois chegou a Vogue que declarou, em 1933, o batom como "o cosmético mais importante para as mulheres". Nem com a Grande Depressão a todo o gás as vendas de cosméticos desceram. Os economistas chamaram-lhe "O Efeito Batom", que ilustrava o facto de, em períodos de constrangimento social e/ou económico, as mulheres continuarem a comprar pequenos bens que as fizessem sentir bem consigo próprias. Relatable.

Campanha Elizabeth Arden, 1941

Durante a Segunda Grande Guerra, "O Efeito Batom" adensa-se. As campanhas de publicidade das empresas de cosméticos chegaram carregadas de significado político. Na América, o Victory Red estava em todos os cartazes e o vermelho estava em todos os lábios. As mulheres eram encorajadas a tratar de si, a usar a Beleza como mais uma das suas atividades cívicas. A Beleza não escolhia idades, muito menos tempos e ainda menos vontades.

Campanha Revlon, 1952

Os anos 50. Os anos das divas. Agora sim, o batom vermelho estava em todo o lado. A campanha da Revlon, Fire and Ice, que encorajava as mulheres a descobrir o seu tom de vermelho e a aplicá-lo tanto nos lábios como nas unhas foi uma das campanhas publicitárias de Beleza mais eficazes da história. É claro que ajudava ter Marilyn Monroe e Elizabeth Taylor, com os seus lábios rubi, em todas as páginas de jornais e revistas, em todos os ecrãs. 

Liza Minnelli em 'Cabaret', 1972

Quando a década de 60 chegou, o entusiasmo diminuiu. O look natural era primordial, e se o batom vermelho se havia tornado o símbolo máximo da feminilidade, quando a Moda era a juventude suprema o batom ficava na gaveta. Os movimentos feministas também não estavam contentes com a performance do produto de Beleza, por acharem que o seu único propósito era agradar o patriarcado, e o batom esmoreceu. Sorte a nossa que logo a seguir o glamour conheceu os anos 70, o Studio 54, o brilho, as festas. As subculturas ligavam-no agora ao punk, ao disco. Era usado por mulheres e por homens. Era democrático. Era liberdade.

Sade Adu, 1984 © Getty Images

Com a explosão de cor dos anos 80, o escarlate ficou. Madonna usou-o e abusou-o, Sade tornou-o cool, Courtney Love tornou-o trashy. Voltou a haver um batom para cada mulher, para cada humor, para cada look. O feminismo encarou-o como arma outra vez, incentivando as mulheres a gostar da sua identidade, a gozar a sua feminilidade ao máximo.

Ainda que a década de 90 nos tenha apresentado o castanho, o rubi nunca esmoreceu. Era elegância, classe e amor.

Gwen Stefani, 2001 © Getty Images

A partir daqui, não houve espaço para voltar atrás. Imagem de marca de umas, arma secreta de outras, é inevitável pensar no batom vermelho tanto como o nosso porto seguro como no nosso tiro fatal. Não há género no batom, não há juizos de valor, não há peso político. Há individualidade e amor, e essas são das melhores coisas que podemos pedir a este mundo.

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