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Inspiring Women 10. 5. 2018

We’ve got the power

by Irina Chitas

 

O poder de uma mulher não se condiciona pelo que veste, mas o que se veste dá tantas vezes poder a uma mulher.

Londres, 1939 © Getty Images

“Como sabe, sempre achei que as modas deveriam ser seguidas de forma moderada, mas nunca serem levadas a extremos. Uma mulher jovem e bonita, uma rainha graciosa, não tem necessidade de tais loucuras. Pelo contrário, a simplicidade no vestir é mais apropriada e digna de uma rainha. Adoro a minha pequena rainha e assisto a tudo o que a menina faz e sente e não devo hesitar em chamar-lhe a atenção para esta pequena frivolidade”. Este é um excerto de uma carta enviada a Marie Antoinette pela mãe. E também poderia ser um excerto do que todas as mulheres ouvem ao longo da vida. Especialmente, mulheres que ocupam posições de topo em profissões conservadoras. Se a rainha dos tons pastel foi apedrejada em praça pública por ter um guarda-roupa melhor que Sarah Jessica Parker, o que dizer de quem, no século XXI, tem pretensões de se candidatar a uma Presidência?

Mas se a roupa deu a Marie Antoinette o estatuto, fez o mesmo - com menos camadas e folhos e cores e rendas e sedas - a Margaret Thatcher, a Hillary Clinton, a Theresa May, a Rihanna e a cada uma de nós.

“Toda a gente está virada para o power dressing, mas eu estou mais interessada nas afirmações pessoais.” Disseram todos os designers hoje. Ou podiam ter dito, se a frase não tivesse sido já proferida por Jil Sander, nos bastidores do seu desfile para o inverno de 1997, a Katherine Betts, que escrevia uma reportagem (“The Slouch Suit”) para a Vogue americana de julho desse ano. Sim, foi há 20 anos. Gucci, Michael Kors e Calvin Klein enviavam para a passerelle proporções exageradas do clássico - ombros megalómanos, calças largas, riscas exageradas - sempre tingidas pelo minimalismo dos noventas e de olhar fortemente voltado para a Casa Branca. Hillary Clinton era a Primeira Dama e Madeleine Albright tornava-se na primeira mulher a assumir o cargo de Secretária de Estado.

Mas, se olhássemos para ainda antes disso, a história não se escrevia de letras muito diferentes.

Londres, 1940 © Getty Images

Power dressing. As palavras-chave. É um caso de what you see is what you get: o termo refere-se ao que imaginamos que uma mulher com poder veste. O que é uma mulher com poder? E quem é que é suposto dizer-lhe o que ela deverá usar? É aqui que a questão entra totalmente no abstrato.

O estilo é tanto uma reação com uma sintoma da época em que vivemos. Se recuarmos para os fervorosos anos 60 e 70, em que as mulheres entraram de rompante no mercado laboral, a demanda por peças que espelhassem os seus cargos de cada vez maior responsabilidade era flagrante e a resposta - a bem ou a mal - só chegou nos anos 80. Sim, já tínhamos assistido a uma convulsão semelhante na década de 40, quando os homens voaram para combater na Segunda Grande Guerra e as mulheres tiveram de assumir o papel de provedoras das famílias - e foi assim que os conjuntos de saia-casaco e casacos abotoados, plenamente utilitários, se tornaram lei. 

Melanie Griffith em Working Girl, 1988

Mas o fim dos anos 70 pedia outro dress code. Agora sim, as mulheres começavam a usar as calças e resolveram fazê-lo literalmente. Chamaram-lhe o movimento Dress for Success, mas o mundo conhece-o a sério como a chegada do power suit

Campanha Donna Karan, 1992 

Para os homens veio Giorgio Armani, para as mulheres veio tudo aquilo que as fizesse jogar na mesma arena que os homens. O que significa fatos desmesurados, com ombros largos e proporções robustas, que lhes assentavam melhor nas carreiras do que no corpo. Uma espécie de fake it ‘till you make it que durou bem até aos anos 90. É de olhar para a campanha de 1992 de Donna Karan, que imaginou o que uma mulher presidente vestiria: uma camisa de banqueiro às riscas com punhos brancos, blazers cinzentos de lã com as mangas arregaçadas acima dos cotovelos e casacos assertoados com risca de giz. Uma espécie de cartão de entrada para o clube dos rapazes da Casa Branca ou de Wall Street, cujo preço a pagar era a reinvenção total do que significava a feminilidade - pelo menos, no que toca ao guarda-roupa.

 Margaret Thatcher, 1988 © Getty Images

Margaret Thatcher foi quem o fez de maneira diferente. Sim, os tailleurs estavam lá, tal como aquela pasta em pele que nos dias de hoje significaria que Margaret seria uma perita exímia em Excel, mas também lá estavam os vestidos, as blusas com laçada, os tecidos fluidos. Em 1988, Thatcher chegava à lista das mais bem vestidas, com o poder bem dentro das suas mãos.

Hillary Clinton, 2016 © Getty Images

Passaram-se décadas e a evolução parecia não chegar ao armário. Lá estavam os fatos, lá estavam os tons monocromáticos, lá estavam todos aqueles que descredibilizavam uma mulher por usar um vestido, mesmo quando o imaginário do power dressing começou a ganhar aliados fétiche como saltos agulha, botas em pele e cinturas marcadas. Mas olhamos para Clinton, para May, para Merkel, para as mulheres que mudam o mundo mas não deixam que a liberdade chegue ao que vestem em público por medo de serem rotuladas de género inferior.

Em 2015, na conferência Women in the World, Theresa May afirmou: “Sou uma mulher. Gosto de roupa. Um dos desafios de ser uma mulher no mundo da política, dos negócios, em todas as áreas da vida profissional, é sermos nós próprias e dizermos que podemos ser inteligentes e gostarmos de roupa.” Na política, no mundo empresarial, nas finanças, na economia: mulheres são presas por ter fato e presas por não ter. O que vale é que, apesar de as mentalidades terem congelado, os fatos não.

Passaram 20 anos do statement de Sander. Os ciclos da passerelle parecem ter a duração de duas décadas (sim, preparem-se: revivals dos anos 2000 estão mesmo a chegar) e se 2018 não é o ano do poder feminino, não sabemos qual será (na verdade, esperamos que sejam todos os próximos anos, para sempre). Por isso há fatos para todos, para todas. De cores, de texturas, de silhuetas tão distintas quanto sensuais, como cool, como frescas e como livres. Temos para nós que estamos a assistir a uma transformação estrutural no conceito de power dressing, a esnobar os tempos em que o associávamos a uma silhueta masculina e usávamos os fatos estruturados para matar a nossa feminilidade e enterrá-la num saco de fazenda e algodão, sem forma nem personalidade. Da inauguração de uma exposição, de uma ida à mercearia (quem nunca?), de uma noite de copos que vai longe demais (a sério, quem nunca?), de um jantar dentro de casa (há coisa mais confortável que um largo fato de veludo?). Mesmo os mais clássicos - olhe-se para Max Mara ou Loewe - têm cortes leves e despojados, dão fluidez à silhueta, dão poder à mulher, não por serem masculinos (nunca mais) mas por, finalmente, se terem tornado nossos.  

Também temos para nós, por outro lado, que o power dressing pode estar a crescer. As mulheres continuam a vestir-se para se sentir poderosas, mas a roupa torna-se cada vez mais poderosa que a mulher que a veste. E se alguém com um power inabalável usa um vestido pejado de flores, é menos poderosa do que se usasse um fato estruturado? Não. Olá, 2018, o ano em que o poder não está nas lapelas. Está nas mulheres.

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