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Curiosidades 6. 6. 2019

Uma breve história sobre o voguing, contada pela Vogue

by Sarah Schijen

 

Quarenta anos depois do fenómeno de dança ter surgido nos ballrooms de Harlem, o voguing está a experienciar um renascimento mainstream pós-Madonna. A Vogue olha para o movimento que encontrou inspiração nas suas páginas e transformou-se numa forma de expressão e identidade para a comunidade queer.


“Come on, vogue, let your body move to the music…” 
Para muitos, o single de Madonna será o primeiro encontro com o voguing enquanto dança, moda e subcultura. Outros saberão o que é fazer vogue graças ao documentário de 1990, Paris is Burning, ou através de fenómenos televisivos como RuPaul’s Drag Race e Pose. Mas porque é que o voguing está tão presente na nossa consciência cultural e, ainda assim, com tão pouco conhecimento sobre as suas origens e sobre o porquê de ter o nome da revista Vogue?

As origens do voguing

Uma imagem do documentário Paris is Burning, 1990 ©Movie Still

O voguing tem as suas origens nos ballrooms de Nova Iorque dos anos 80, tendo sido criado pelas comunidades negras e Latinx queer de Harlem. Entre as décadas de 60 e 80, as competições drag da cidade foram evoluindo de bailes estilo pageantry a batalhas de voguing. Os participantes trans, gay e queer competiam não só pelos troféus, mas também pela reputação das suas “house family”, ao desfilarem em categorias como Executive Realness ou Town & Country.

Era comum que estas casas encontrassem o seu nome nas mais proeminentes maisons de Moda de Paris e Milão, com os membros de cada família a utilizarem o nome da casa como apelido — veja-se o exemplo de estrelas contemporâneas de voguing como Asia Balenciaga, Dashaun Lanvin, Tamiyah Mugler e Cesar Valentino. As mães ou pais de cada casa ofereciam uma espécie de família de acolhimento para muitos membros da comunidade que eram socialmente marginalizados, fosse pelo género, pela sexualidade ou pela etnia, e que se apoiavam mutuamente na aceitação e segurança do mundo ballroom, que era também visto como algo marginal na comunidade gay de Nova Iorque dos anos 80.

Willi Ninja e um bailarino na discoteca Mars em Nova Iorque, 1988 ©Getty Images 

Foi aí, nas estruturas do mundo ballroom, que nasceu o voguing — um estilo de dança inspirado nas poses que as modelos faziam nas páginas da Vogue, e igualmente influenciado pelos hieróglifos do Antigo Egito e pelos movimentos de ginástica. Frequentemente, a persona adotada pelos voguers era uma paródia codificada da feminilidade tradicional, que tanto glorificava como subvertia ideais de beleza, sexualidade e classe. Como um ball-goer descreve no documentário de Jennie Livingston Paris is Burning, “para nós, os balls são o mais perto que alguma vez estaremos de toda aquela realidade de fama, fortuna, estrelato e ribalta.”

O voguing era uma forma dos ball-goers contarem a sua história, mas também uma resposta à crise da SIDA. Também era algo satírico, divertido e cómico, com os participantes a copiarem as poses das modelos da Vogue através de posições paradas ou movimentos que replicavam o ato de maquilhar ou arranjar o cabelo. O voguing era uma batalha, e o vencedor era aquele que conseguisse “lançar o melhor shade”.  

A evolução do voguing

Madonna, 1989 ©Getty Images

No decorrer dos anos, o estilo de voguing evoluiu do Old Way, que enfatizava linhas sólidas, simetrias e ângulos nítidos (poses estáticas que transitavam de umas para as outras, como se estivéssemos a folhear as páginas da Vogue), para o New Way do final dos anos 80. O New Way introduziu fluidez e flexibilidade ao voguing, acrescentando movimentos como o duckwalk (o movimento de agachar até aos calcanhares, enquanto se caminha ao som da música), catwalk, spins e dips (uma queda mais dramática ou controlada, frequentemente usada para indicar que a dança terminou). Hoje, o New Way relaciona-se com movimentos rígidos, clicks e locking, enquanto o Femme Vogue dá destaque a movimentos mais dramatizados, com posturas ultra-femininas e acrobacias como os death drops

À medida que o voguing crescia, o movimento começava a ganhar, inevitavelmente, a atração das estrelas. Madonna viu os movimentos pela primeira vez em 1990, numa discoteca chamada Sound Factory em Manhattan, Nova Iorque. A cantora tinha ouvido falar do estilo de dança e quis aprender mais sobre ele, pedindo ao bailarino dominicano e membro da House of Xtravaganza, Jose Guiterrez, que lhe mostrasse aquilo que o voguing era. Jose Xtravaganza foi convidado a coreografar o próximo vídeo de Madonna e ficou encarregue de lhe ensinar a arte do voguing, acompanhando a cantora na sua tour mundial, Blond Ambition. Em 1990, o single de Madonna alcançou o número um em 30 países — e o voguing tinha sido impulsionado para o reconhecimento internacional. 

O voguing hoje  

Ryan Jamaal Swai, 2018 ©Getty Images

Cerca de 40 anos depois do seu aparecimento, o voguing está a experienciar um renascimento na cultura mainstream. Este mês, Jose Xtravaganza será um dos jurados da competição Battle of the Legends ao lado de Anna Wintour, diretora da edição norte-americana da Vogue, como parte das celebrações do Metropolitan Museum of Art do Pride e do quinquagésimo aniversário das manifestações de Stonewall. E, um pouco por todo o mundo, as escolas de dança estão a ensinar a arte do voguing à nova geração, seguindo o exemplo de estrelas pop como FKA Twigs, Rihanna, Ariana Grande e Beyoncé, que têm vindo a incorporar voguing nas suas próprias performances.  

Naturalmente, e tendo em conta as origens do voguing, o impacto da música e do vídeo de Madonna deram origem a diversos debates sobre apropriação e direitos autorais de culturas marginalizadas. Apesar da difusão do voguing na cultura mainstream e da sua importância verdadeiramente global (Paris, Berlim, Londres e Tóquio são casa de alguns dos ballrooms mais proeminentes), o movimento nunca perdeu a sua linguagem e códigos distintos.

O poder do voguing está na sua capacidade de se manter fiel às suas origens, mesmo quando novos estilos e comunidades emergem. Aquilo que começou em Harlem é hoje uma comunidade global e intergeracional: em 2016, um vídeo de um grupo de voguers a dançaram numa vigília em Londres, em homenagem às vítimas do ataque à discoteca Pulse, em Orlando, tornou-se viral; e nos países onde os direitos LGBTQ+ são ameaçados o voguing oferece um espaço para a cultura queer sobreviver. Afinal de contas, o voguing é uma forma de expressar a verdade do “eu”, de contar uma história e de apresentar qualquer tipo de identidade. E, talvez, de lançar algum shade pelo caminho.

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