Opinião   Palavra da Vogue  

#VogueBookClub: Uma viagem pela literatura LGBTQIA+

07 Jun 2022
By Pedro Vasconcelos

Ao longo dos quatro livros sugeridos exploram-se diferentes manifestações da identidade queer na história da humanidade.

Ao longo dos quatro livros sugeridos exploram-se diferentes manifestações da identidade queer ao longo da história.

A interseção entre o que chamamos hoje de identidade LGBTQIA+ e literatura é milenar. Ainda que a história da humanidade no que se trata de identidades queer é no mínimo oscilante, exemplos de manifestações destas podem ser encontradas nas mais variadas eras. Dependendo não só da aceitação dos tempos em que são escritos, como dos assuntos mais relevantes dentro da comunidade LGBTQIA+, a literatura queer é (ironicamente) um dos géneros mais heterogéneos que existe. Desde a Grécia Antiga aos tempos modernos, apresentamos uma breve excursão por alguns dos mais relevantes livros LGBTQIA+ da história.

Poemas e Fragmentos, de Safo (2003)

Considerada uma das maiores poetas da sua época, Safo foi aclamada como a décima musa por Platão e a sua influência estendeu-se por toda a Grécia Antiga. A poesia que escreveu debate frequentemente temas amorosos, demonstrando abertamente a sua homossexualidade. A influência da poetisa lírica é tal que a própria etimologia das palavras sáfico e lésbica advêm da sua pessoa, se a primeira inspiração é óbvia, para a segunda será relevante mencionar que esta viveu na ilha grega de Lesbos. A arte de Safo foi, à medida que os tempos mudaram, incrivelmente censurada por aqueles que procuravam apagar a história da homossexualidade como algo não só permitido, como legítimo. Os seus poemas são considerados dos mais belos da sua época, aludindo frequentemente a Eros, personalizando o amor, tanto como um benfeitor, como um inimigo insidioso.

O quarto de Giovanni, de James Baldwin (1956)

James Baldwin foi uma das mais importantes vozes do Movimento dos Direitos Civis, como um homem afro americano abertamente queer nos anos 50 e 60, o escritor tinha todas as razões para viver no armário proverbial, e mesmo assim escolheu não o fazer. O quarto de Giovanni é um exemplo perfeito da dedicação do ativista, que, como um escritor negro a relatar amor entre dois homens em 1956, enfrentou a possibilidade de suicídio artístico. O próprio editor aconselhou-o a queimar o manuscrito, mas Baldwin persistiu e, na sua insistência, criou uma das maiores obras primas literárias do século XX. A narrativa de O quarto de Giovanni foca-se num triângulo amoroso entre um casal heterossexual que é deturpado por o súbito florescimento de um caso homossexual. O livro aborda a complexidade de sexualidade, moralidade e repressão. 

Dancer from the Dance, de Andrew Holleran (1978)

Uma das mais importantes obras de literatura queer, Dancer from the Dance é um livro que, ainda que relate um período muito específico da cultura queer, questiona a identidade e complexidade dos problemas que são comuns a muita da comunidade, particularmente homens homossexuais. Escrito em 1978, o livro narra a história de dois homens em Nova Iorque na década de 70, à medida que estes navegam o mundo de sexo, romance e caos da comunidade LGBTQIA+ da época. A obra de Andrew Holleran é por vezes dolorosa de se ler, à medida que as personagens pelas quais nos apaixonamos são deturpadas por uma cultura que, de forma imprudente, promovia o uso de drogas, festas e exploração sexual como resposta à opressão. 

Boy Erased, de Garrard Conley (2016)

Esta triunfante autobiografia contempla uma realidade da existência queer muitas vezes ocultada ao público, a das terapias de conversão. Filho de um padre de uma pequena zona rural no meio do estado americano de Arkansas, Garrand Conley, sempre escondeu a sua homossexualidade de forma bem sucedida até aos seus dezanove anos. Foi nessa idade que o então estudante da faculdade foi forçado a frequentar um programa que prometia “curá-lo” da sua homossexualidade. O livro é extremamente bonito, ainda que por vezes difícil de ler, e, de uma forma muito sincera, documenta um processo de aceitação própria, assim como de libertação de todas as conceções que, para muita da comunidade LGBTQIA+, estruturam a autodiscriminação.

Pedro Vasconcelos By Pedro Vasconcelos

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