Para a leitura deste mês do Vogue Book Club, a escolha foi "Babel", de R. F. Kuang.
Babel: Uma história arcana é o quarto livro de R. F. Kuang. Com uma narrativa que nos leva até à Universidade de Oxford em 1836, acompanhamos o percurso de Robin Swift desde que se torna órfão em Cantão até chegar ao prestigiado Real Instituto de Tradução. À medida que a história se desenrola, Robin vai descobrindo o mundo da tradução mas também os efeitos do colonialismo e do imperialismo britânico. Numa mistura perfeita de realismo mágico e lições de história, o livro coloca a questão: poderá um estudante impor-se contra o sistema?
Traduttore, traditore: um ato de tradução é sempre um ato de traição.

Instagram via @kuangrf
Mariana Pimenta, Editora de Moda
R.F. Kuang é uma génia. Babel é, de longe, o melhor livro que li este ano. Passado no século XIX, acompanhamos a história de Robin Swift, desde a sua infância como órfão cantonês até se tornar aluno do Instituto de Tradução da Universidade de Oxford. Durante o livro, a narrativa vai revelando a verdade sobre o uso real da magia que se cria através da tradução. Esta obra é a mistura perfeita de magia, mundo académico e curiosidades sobre a tradução (tudo graças às notas de rodapé que Kuang deixou; foi um prazer lê-las ao longo de todo o livro e captaram verdadeiramente o entusiasmo da autora em relação aos poderes da tradução). Embora esta história seja ficção, Kuang inclui aspetos reais da história, não só ao explicar como era a estrutura da Universidade de Oxford, mas também alguns dos seus lados mais sombrios. Um desses aspetos é a realidade desagradável sobre as consequências do colonialismo. Através da experiência de Robin e também dos outros estudantes, vemos os efeitos devastadores do colonialismo, já que foi retirado à força do seu país natal. Tenho a certeza que quererei reler este livro vezes sem conta.
Rita Petrone, Editora Online
Para mim, Babel está muito perto de ser considerado uma obra-prima. Do título (e subtítulo) à escrita e tema que explora, este é, sem dúvida, um dos melhores livros que já li. O estilo da escrita oscila entre o poético e o devastador (com um foreshadowing direto que pode muito bem ser considerado um dos melhores que li até à data), e foi precisamente isso que me fez continuar a leitura quando a história se tornou tão pesada que me obrigou a fazer uma pausa para processar toda a informação. O intuito do livro é deixar o leitor desconfortável, quase de coração partido, e obriga-nos a refletir longa e profundamente sobre a nossa posição de privilégio (ou falta dele, consoante a perspetiva). Repleto de lições de linguística, história e tradução, cada capítulo tece uma narrativa que espelha os efeitos do racismo, colonialismo e imperialismo que ainda hoje se fazem sentir. E é por isso mesmo que é, a meu ver, um livro imperdível. O contexto torna-se mais leve devido aos códigos de realismo mágico e ao world building que o livro faz (as notas de rodapé são fenomenais). Achei as personagens incríveis e adorei a forma como o livro explora o amor platónico: como é precioso e frágil; mas, acima de tudo, como nos faz perceber que todos temos um pouco de Robin, Ramy, Victoire e, sim, até de Letty dentro de nós.
Inaya Mussa, Colaboradora
Um livro bastante fora da minha habitual zona de conforto, Babel revelou-se uma leitura marcante que rapidamente devorei. A escrita de R. F. Kuang é envolvente e a forma como mergulha o leitor no universo da tradução, explorando as suas origens e o impacto que esta tem na construção das sociedades, é absolutamente arrebatadora. Ao acompanhar a vida de Robin, um jovem cantonês que, devido ao seu domínio da sua língua materna, é levado para o Reino Unido para estudar, o romance oferece uma reflexão perspicaz sobre a forma como os impérios são construídos e sobre as consequências devastadoras do colonialismo, que é sempre motivado pela acumulação de poder. É uma combinação muito interessante de história e fantasia que retrata os dilemas internos do protagonista à medida que se vai apercebendo de que o sistema que tanto o elevou e impulsionou, é, simultaneamente, a causa do sofrimento de nações inteiras, incluindo a sua. Paralelamente, a obra explora de forma íntima as emoções e as tensões que surgem entre amigos perante esta realidade, evidenciando as consequências profundas que estas dinâmicas de poder têm na forma como os recursos do mundo são explorados e distribuídos – sempre, claro, em benefício da elite ocidental.
Leitura do próximo mês

Para onde vão os guarda-chuvas, de Afonso Cruz
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