Estilo  

Very demure, very cutesy: o regresso da estética infantilizada à Moda

25 Feb 2026
By Beatriz Fradoca

Fotografia de Isabelle Hardy.

A infância, enquanto território visual, ocupou sempre um lugar ambíguo na história da Moda. É simultaneamente memória e projeção, refúgio e construção. Quando estes códigos regressam com força ao guarda-roupa adulto, não o fazem para infantilizar quem os veste, mas para reativar sensações de proteção, segurança e intimidade que parecem cada vez mais escassas. Num mundo marcado por crises sucessivas — económicas, climáticas, políticas, identitárias —, a suavidade torna-se um gesto quase radical.

Não se trata de uma coincidência nem de um capricho sazonal. Sempre que o presente se torna excessivamente denso, a Moda ensaia um recuo estratégico, quase instintivo, em direção a códigos visuais que prometem conforto e familiaridade. A chamada estética infantilizada reaparece assim como linguagem emocional e cultural, menos interessada na nostalgia literal e mais na sensação de abrigo que convoca: um tempo imaginado como mais simples, mais previsível, mais seguro. Bordados delicados, de gesto quase artesanal, instalam-se em vestidos, camisas e acessórios que parecem suspender a urgência do agora e propor outro ritmo. As paletas pastel — rosados suaves, azul-bebé, amarelo-manteiga, verde-menta — afirmam-se não como tendência cromática, mas como vocabulário afetivo, reaparecendo estação após estação. Do pistácio subtil de Chloé às leituras etéreas de butter yellow na Chanel, este imaginário, tantas vezes reduzido a clichê primaveril, revela uma resistência inesperada num mundo cada vez mais ruidoso e urgente. Ao convocar referências associadas à infância, a Moda constrói assim uma ponte entre passado e presente, oferecendo, ainda que por instantes, um antídoto para a ansiedade permanente da vida adulta.

Chanel Haute Couture Fall Winter 2025, Launchmetrics

Historicamente, esta não é a primeira vez que a Moda olha para trás em busca de conforto. Após períodos de guerra, instabilidade social ou transformação acelerada, surgem frequentemente movimentos estéticos que privilegiam o delicado, o artesanal, o doméstico. Nos anos 50, por exemplo, o romantismo das silhuetas femininas e dos tecidos trabalhados funcionou como cura visual para a dureza do pós-guerra. Já nos anos 90, em plena ressaca de excessos, a estética girlish emergiu como contraponto à rigidez minimalista e ao cinismo cultural da época. O padrão repete-se agora, simplesmente com novas camadas de interpretação, nomeadamente com um tom mais crítico e, de certa forma, irónico. Os laços não são os mesmos da infância, são ampliados, deslocados, aplicados em contextos inesperados. Os bordados ganham uma dimensão quase terapêutica, evocando tempo, cuidado e repetição num mundo dominado pela velocidade. As cores suaves convivem com cortes estruturados e referências conceptuais, criando um diálogo constante entre fragilidade e força. Este regresso ao considerado infantil é também uma reação clara à estética dominante da última década, marcada por uma certa brutalidade visual. O culto do utilitário, do oversized agressivo, das paletas escuras e das referências militares refletiu um mundo em estado de alerta permanente e a suavidade surge agora como contraposição direta a essa linguagem visual, não como negação da realidade, mas como tentativa de a tornar habitável.

Cecilie Bahnsen Off Season 2026 Pre-Fall Women, Launchmetrics

Há, igualmente, uma dimensão cultural mais ampla em jogo. A diluição das fronteiras entre idades — adultos que consomem cultura jovem, crianças expostas precocemente a universos adultos — cria um terreno fértil para esta mistura de códigos. A infância deixa de ser uma fase estanque e transforma-se num arquivo emocional coletivo, disponível para ser revisitado, reinterpretado e reapropriado. Num ecossistema visual saturado, em grande parte devido ao papel das redes sociais, as imagens suaves, delicadas e quase etéreas funcionam como pausa para o olhar, comunicando instantaneamente conforto, proximidade e vulnerabilidade — valores altamente partilháveis num ambiente digital que privilegia a emoção. Ainda assim, reduzir este fenómeno a uma estratégia visual seria simplista. O seu impacto reside precisamente na forma como toca camadas mais profundas da experiência moderna. Curiosamente, esta tendência não implica uma recusa da maturidade, mas uma redefinição da mesma. Assumir o desejo de suavidade, de beleza delicada, de referências afetivas é também um gesto de consciência emocional.

Instagram: @kendalljenner

Nas passerelles que antecipam a próxima estação, este imaginário desdobra-se com subtileza e intenção. Surgem vestidos de volumes calculados, quase lúdicos, que remetem para silhuetas de boneca, blusas de golas trabalhadas, onde o detalhe ganha protagonismo, malhas em tons açucarados que suavizam a leitura do look e acessórios que parecem retirados de uma caixa de memórias, carregados de afeto e significado. Mais do que uma citação literal da infância, trata-se de uma tradução contemporânea desse universo, filtrada por um olhar adulto e consciente. Sandy Liang é talvez a expressão mais imediata desta sensibilidade: laços assumidos, silhuetas que evocam um guarda-roupa juvenil e uma feminilidade quase ingénua, trabalhada com ironia e consciência. Miu Miu é outro exemplo evidente e consistente que tem vindo a construir um universo onde a feminilidade juvenil é constantemente utilizada: saias curtas combinadas com cardigans de lã fina, vestidos com golas arredondadas e laços aplicados quase de forma descuidada criam uma estética de girlhood deliberadamente ambígua. Em Simone Rocha, esta estética assume uma dimensão quase poética: laços exagerados, tule, bordados florais, volumes e referências ao vestuário cerimonial infantil são elementos recorrentes nas suas coleções. Em marcas mais recentes, como Cecilie Bahnsen, tem-se feito da estética infantilizada um pilar identitário, com uma abordagem claramente adulta à forma e à funcionalidade. O resultado é uma feminilidade que encontra força precisamente na delicadeza e na emoção.

Esquerda: Sandy Liang Spring Summer 2026 Ready to Wear; Direita: Simone Rocha Fall Winter 2025 Ready to Wear

No fundo, o fascínio contemporâneo pela estética infantil revela menos sobre um desejo de regressão e mais sobre a necessidade urgente de reconciliação emocional. Entre a inflexibilidade do mundo e a intimidade do vestir, estes códigos funcionam como abrigo simbólico. Um lembrete de que a delicadeza não é sinónimo de fraqueza e que, por vezes, crescer também passa por saber voltar — não para ficar, mas para respirar.

Originalmente publicado no The Naif Issue, a edição de fevereiro de 2025 da Vogue Portugal, disponível aqui

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