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Project: Vogue Union | Valentim Quaresma, alma de criador

by Ana Murcho

 

No trabalho de Valentim Quaresma, nada é (só) o que parece. E isso é tanto reflexo da sua força como do seu (enorme) talento.

Valentim Quaresma © Cortesia

Sabemos que quis ser ginasta, mas foi na joalharia, e na escultura, que deu forma à sua arte. Valentim Quaresma, um dos designers portugueses que mais aplausos acolhe entre os seus pares, tem um curriculum invejável, feito de vários acasos - e de muito trabalho. “Estudei na António Arroio e no Ar.Co [no departamento de joalharia], com 16 anos comecei a trabalhar numa loja a produzir acessórios de Moda, e aos 18 fiz a primeira coleção de joias para a Ana Salazar.” Quaresma trabalhou com a icónica criadora durante 22 anos, entre 1990 e 2010. Durante esse tempo, aproveitou para fazer os seus próprios projetos artísticos, e para “pôr em prática o que tinha aprendido no Ar.Co. Fundei a minha marca em 2005 e internacionalizei-a depois de ter recebido o prémio ‘melhor coleção do ano’ na sétima edição do concurso International Talent Support, em Trieste, Itália [em 2008]. No início apenas lançava coleções de joias, mas com o passar dos anos fui desenvolvendo outros projetos. O vestuário apareceu há cinco anos com a evolução da apresentação das minhas coleções na ModaLisboa.” Num percurso tão rico quanto absorvente, Valentim Quaresma tem mostrado o seu talento em eventos tão relevantes como as famosas feiras Bread and Butter, em Barcelona, ou a Bijorhca, em Paris. Alchemy, título dado às suas propostas para o outono/inverno 2011, esteve em exibição no MUDE - Museu do Design e da Moda.

Habituado a misturar materiais tão distintos como o latão, o plexiglass e a filigrana, Quaresma é um habitué nas passerelles nacionais, e a sua marca homónima é sinónimo de luxo e romantismo. Ao longo de todos estes anos, nunca pensou em desistir do caminho que estava a traçar. “Nunca pensei em desistir. Por vezes há situações difíceis de gerir, mas nas situações limite há sempre alguém ou algo que me empurra e me dá força.” E há momentos específicos que lhe dão essa tal força para seguir em frente, para pensar “tomei a decisão correta” em ser designer. “Sempre que termino uma coleção ou um projeto tenho esse pensamento, é a sensação de realização. Sinto isso quando faço uma retrospetiva do meu trabalho, quando me lembro das pessoas com que trabalhei e daqueles que passaram pelo meu atelier e aprenderam comigo.” E por falar em retrospetivas, se pudesse voltar atrás, mudava alguma coisa, alterava alguma coleção? “Não refazia nenhuma, aliás há algumas em que gostaria de as ter desenvolvido mais, mas por vezes os deadlines e o excesso de trabalho não permitem. Mas não quer dizer que fiquem incompletas, todo o trabalho tem um fio condutor e quando já não é possível desenvolver para a coleção que estou a trabalhar, os resultados obtidos são desenvolvidos num outro contexto.” 

Backstage, outono/inverno 2020. © ModaLisboa/Gonçalo Silva  

De todas as peças que já desenvolveu, o colar Pray, “feito com molas de pressão, é uma peça anacrónica” que é, talvez, a mais representativa do seu processo criativo. “O upcycling é uma referência e uma das minhas principais fontes de inspiração, dar uma nova alma aos objetos é sempre um desafio gratificante além da sustentabilidade inserida no conceito.” Desafios - eis uma palavra que define as suas coleções. “No verão 2020 fiz uma justaposição de onde a coleção foi criada, e onde foi apresentada. Foi criada quando estive em residência artística no Palácio Nacional da Ajuda, e apresentada nos Armazéns de Fardamento do Exército. Na roupa, descontextualizei os códigos de época, nas joias [houve] referências heráldicas concebidas com algum humor e sarcasmo para afirmar o mood da coleção e referenciar o espírito militar. Para o inverno 2020 fiz uma abordagem a diferentes influências que me inspiram, os livros que li, os filmes que vi, conversas que tive. Dividi a coleção em três temas com algumas referências pessoais, a primeira ligada ao romantismo, a segunda à música e a terceira ao futuro. Dei um highlight à manipulação têxtil e à mistura de materiais, como por exemplo a tecelagem com fitas de cassete VHS e restos de tecidos de outras coleções, no meu estúdio nunca há desperdício de matéria prima, um dos objetivos é sempre pensar no aproveitamento. Nas joias utilizei materiais encontrados, como cabos elétricos, cassetes de gravação antigas e algumas peças em cabedal que manipulei como se estivesse a trabalhar com metal.” Será Valentim Quaresma um visionário? Naturalmente. Daí que não seja de estranhar que a sua hipotética “parceria de sonho”, com outro designer português, tenha um nome que não nos surpreende. “Seguramente o Dino Alves, o Dino é uma referência para mim, a sua perseverança e criatividade sempre foram uma grande inspiração. Já apresentou os desfiles mais incríveis que continuam muito vivos na minha memória, adoro o seu sentido de humor e acho que seria uma colaboração interessante se os nossos universos se encontrassem.” Somos forçados (sem esforço algum, na verdade) a concordar.

"Eu diria que a Moda é órfã na cultura em Portugal."

Passemos a temas mais sérios, porque o criador tem algumas coisas a dizer sobre o pouco apoio concedido, por certas entidades, à Moda portuguesa. À pergunta “o que gostaria que lhe perguntassem numa entrevista, mas nunca o fazem”, responde com um discurso coeso, pensado, articulado: “’Acha que o Ministério da Cultura cumpre com o seu papel em relação à Moda?’ Falta ao nosso Ministério da Cultura uma visão de ‘cultura’ em sentido lato, abrangendo as chamadas ‘indústrias criativas’ que nasceram do reconhecimento de que a cultura e a criatividade são fatores competitivos estratégicos para quase todas as atividades económicas de bens e serviços, em especial nos mercados de consumo final mais dinâmicos. Atividades como o design, a Moda, o marketing, o branding e a publicidade, contrastam com o núcleo-duro das atividades industriais e de serviços, tal como os profissionais que as desenvolvem são muito diferentes, quer nas suas competências, qualificações e remunerações, quer nos seus ritmos e formas de trabalho, daqueles que ‘fizeram’ uma economia da oferta centrada, no essencial, na exploração de economias de escala sujeita a muito maior rigidez. No caso da Moda, esta não existe para o Ministério da Cultura e em especial para a DGArtes [Direção Geral das Artes]. Eu diria que a Moda é órfã na cultura em Portugal. Se olharmos para o Brasil, e até para Cabo Verde, verificamos que desde há vários anos o conceito de cultura engloba as indústrias criativas, nomeadamente a Moda, com forte articulação com o turismo, e os resultados são, no meu entender, bastante positivos.” 

 
 
 
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A questão não fazia parte da nossa lista, é um facto, mas a reação que provoca é um gatilho para a sua resolução. Daí que a sua oposta, “qual é a pior coisa que lhe podem perguntar numa entrevista?”, tenha receção semelhante. Valentim Quaresma anda há muitos anos nisto. “Tenho várias, para além de perguntas pessoais, ‘o que vai estar a fazer daqui a 10 anos?’, ‘defina o seu estilo numa palavra?’, ‘qual a próxima tendência?’, ‘onde vai buscar a sua inspiração’ também não faz muito sentido. Como diz o Godard "It's not where you take things from — it's where you take them to.” [numa tradução livre, “não é de onde tiras as coisas, é para onde as levas”]. Para fechar, e porque este Project: Vogue Union assenta na ideia de união, será que ela é possível nesta indústria ou não passa de uma utopia? “A união é sempre possível, a entreajuda e a cooperação podem ser respostas aos problemas que possam surgir assim como a sensibilização e a educação, a solidariedade não pode ser acionada só em momentos de aflição assim como outros valores que devem estar sempre presentes. Sempre houve dificuldade dos criadores em trabalhar com fábricas, tanto de fornecimento de matéria prima como de produção, devido aos mínimos exigidos. Devido à pandemia, recebi vários e-mails de fábricas portuguesas a oferecerem produtos e serviços. Se esta união já tivesse acontecido, alguns dos problemas poderiam ter sido minimizados, os criadores vão continuar a produzir porque o que nos move é a paixão no que fazemos. 

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