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Curiosidades 18. 10. 2018

Under pressure: estarão as redes sociais a matar a indústria da Moda?

by Mónica Bozinoski

 

Há dez anos afastado do mundo da Moda, o enigmático e misterioso Martin Margiela aceitou o Jury Prize dos Belgian Fashion Awards com uma breve carta onde denuncia o ritmo alucinante da indústria e a forma como as redes sociais estão a destruir o efeito surpresa do processo criativo.

©Instagram/@maisonmargiela

Foi em 1988, na cidade de Paris, que o criador belga Martin Margiela fundou a casa homónima, conhecida mundialmente como Maison Margiela. Desde sempre envolto numa aura de enigma, mistério e anonimato, são poucas as coisas que, mesmo trinta anos depois, se sabe sobre o designer responsável por uma das Casas mais desafiantes e provocadoras da indústria da Moda. Mas uma coisa é irrefutável: Martin Margiela sempre esteve um passo à frente do seu tempo. 

"O Martin Margiela é diferente de todos os outros designers porque nunca comprometeu o seu ponto de vista", defendeu Olivier Saillard, historiador de Moda, no documentário The Artist Is Absent. "Ele estabeleceu uma visão. E canalizou as suas energias na reconfiguração do formato da Moda. O contributo dele vai para além da introdução de novas peças - ele desafiou o sistema da Moda que, naquela altura, já era uma indústria muito preversa, governada pelo dinheiro". 

Antes de muitos criadores desafiarem as normas convencionais e olharem para a Moda como um veículo de crítica, questionarem o formato tradicional das apresentações ou remarem contra a maré da pressão que o calendário do pronto-a-vestir simboliza, o criador belga sentou as suas modelos no meio do público durante a primavera de 1995, vendou os seus rostos nas duas estações seguintes e chegou mesmo a eliminá-las por completo dos seus desfiles - na primavera de 1998, foram substituídas por homens vestidos em batas brancas, que seguravam as propostas do designer em cabides e, durante o outono de 1998, por marionetas criadas pela stylist Jane How. 

"Aquela primeira coleção do Martin Margiela foi incrível, não consigo descrever por palavras", revelou o empresário Geert Bruloot à revista AnOther, em 2015. "Foi uma experiência louca, muito underground. Quando o primeiro look surgiu na passerelle, não sabia o que pensar. Estava sentado ao lado da Marina Yee, uma amiga muito próxima do Martin, e ela reconheceu-se nas silhuetas de uma forma tão intensa, que começou a chorar. Segurei-a nos meus braços e, uns três ou quatro looks depois, comecei a perceber. Era diferente de tudo aquilo que estava a acontecer naquele momento, era tão forte e extremo que, assim que aparecia na passerelle, queríamos comprar tudo imediatamente", contou. 

 

MARGIELA / GALLIERA, 1989-2009 ©Palais Galliera

Para Martin Margiela, que sempre procurou o anonimato - até aos dias de hoje, são poucas as pessoas que viram o seu rosto, e os registos fotográficos do designer são praticamente inexistentes -, a fama que vinha associada à indústria da Moda era tão secundária como irrelevante. Vinte anos depois de ter fundado a marca homónima, o designer belga afastou-se da direção criativa da mesma, sem nunca se saber ao certo quem mantinha a chama da Casa acesa. Foi em 2014, com a notícia de que John Galliano seria o novo Diretor Criativo da Maison Margiela, que todas as peças se compuseram. 

"Ele encontrou-se comigo para beber um chá", contou John Galliano, numa entrevista ao The Sunday Times Stylesobre o momento em que conheceu Martin Margiela. "Acabei por me esquecer de todas as perguntas que lhe queria fazer". Depois de horas de conversa, o fundador da maison acabou por deixar o seu valioso conselho: "John, tira o que quiseres do ADN desta Casa, protege-te a ti mesmo, e depois faz o que quiseres com ela". 

©Getty Images

Dez anos depois de se ter afastado da indústria, o criador belga foi reconhecido com o Jury Prize nos Belgian Fashion Awards, "pela sua carreira e o seu impacto óbvio na história da Moda, nas coleções de hoje, e em todas aquelas que ainda estão para vir". Apesar de não ter comparecido à cerimónia, Martin Margiela aceitou o prémio por via de uma breve carta. 

"Sinto-me muito grato e verdadeiramente honrado por receber este prémio, aqui, naquele que é o meu país", escreveu o criador. "Especialmente quando penso que deixei o mundo da Moda há dez anos atrás". Apesar do afastamento, a visão de Martin Margiela, tal como o seu trabalho, não ficou esquecida com o passar do tempo, como o próprio reconheceu neste raro comunicado. 

"Muitos defendem que a Moda tem uma memória curta, e que está obcecada pela atualidade e pala novidade", continuou Margiela. "Mas algumas exposições recentes sobre o meu trabalho exemplificaram o contrário". Depois de uma exposição no MOMU Antwerp, o trabalho do designer seguiu para o Palais Galliera, em Paris, cidade onde fundou a marca homónima - "um belíssimo tributo a um período de trabalho árduo e dedicação, que começou numa tenra idade e durou mais de trinta anos, até 2008", como o próprio escreveu. 

A nostalgia da memória, como seria de esperar, não impediu Martin Margiela de fazer aquilo que sempre lhe correu com intensidade nas veias. "O ano de 2008 coincidiu com o momento em que senti que já não conseguia suportar a pressão e as exigências deste trabalho. Ao mesmo tempo, começava a lamentar cada vez mais a overdose de informação das redes sociais, que destruíam o 'entusiasmo da espera' e cancelavam o efeito surpresa, algo tão fundamental para mim", explicou. 

Martin Margiela não é a primeira personalidade do mundo da Moda a denunciar a crescente pressão da indústria, cada vez mais focada no fast fashion em detrimento da criatividade, da individualidade e da autenticidade, e a forma como as redes sociais são, a passos cada vez mais largos e talvez preocupantes, "a morte do artista" - a experiência do olhar é substituída pela lente de uma câmara, enquanto a magia do momento dá lugar ao imediatismo do upload.  

"Sabes, fizemos esta coleção em três semanas", contou Raf Simons à revista System, que seguiu o designer belga nos seis meses que antecederam a sua saída da maison Dior, em outubro de 2015. "A coleção que apresentámos em Tóquio também foi feita em três semanas. Na verdade, tudo o que fazemos hoje tem que estar pronto em três semanas, no máximo cinco. Agora penso no meu primeiro desfile de alta-costura para a Dior, em julho de 2012, e no facto de estar preocupado porque só tínhamos oito semanas para ter a coleção pronta". 

A criatividade sofria com cada tique do relógio. "Quando fazes seis desfiles por ano, não tens tempo suficiente nas tuas mãos para o processo todo", continuou. "Tecnicamente, há tempo - as pessoas que fazem os samples, que estão encarregues da costura, elas conseguem fazer tudo. Mas tu não tens tempo para estar na incubadora e ter ideias, e esse tempo na incubadora é muito importante. Quando pões uma ideia em prática, olhas para ela e pensas, 'vamos deixá-la de lado durante uma semana e voltar a pegar nela mais tarde'. Mas quando tens uma única equipa a trabalhar em todas estas coleções, isto não é algo que seja possível". 

Para Simons, "o tipo de pessoa que não gosta de fazer as coisas demasiado rápido", e que defendia que "conseguir aguentar o mais alto nível de expectativas do negócio não significa que sejas, necessariamente, um designer melhor", o ritmo alucinante acabou por resultar numa saída inesperada, três anos depois de assumir a direção criativa da Dior, para a toda a indústria da Moda. 

Poucos meses depois de abandonar a maison francesa, o criativo belga sentou-se com a T Magazine para uma entrevista onde confirmava as razões da sua saída. Para Simons, a Moda é mais do que a matemática comercial entre "timing, produto e performance": é algo capaz de transmitir emoções, algo que não se restringe pela aparência, mas antes por algo maior e mais significativo que isso. Na Dior, contudo, o resultado da equação era o oposto dos cálculos do criador. "A Moda cansa-me constantemente", contou Raf Simons num curto vídeo publicado pela T Magazine. Uma voz tímida, mas assertiva, pergunta-lhe porquê. "É muito intenso. É demasiado. São muitas coleções". 

 

©Getty Images

Passaram-se dez anos desde que Martin Margiela, sempre à frente do seu tempo, deu um passo atrás e abandonou a direção criativa da Maison Margiela, e três anos desde o momento em que Raf Simons formalizou a sua saída da maison Dior. O ritmo da indústria não abrandou e continua, talvez mais do que nunca, a caminhar num passo alucinado. Entre o see now buy now e a fast fashion, as vendas continuam a falar mais alto do que a emoção. O comercial continua a chocar contra o criativo, num jogo de pressão, influência e matemática. Na conjuntura atual, sabemos que o primeiro leva a vitória para casa. 

Antes de chegarem às lojas, as seis coleções por ano já são o fruto proíbido de milhões de likes no Instagram. Antes de chegarem às lojas, as seis coleções por ano são o câmbio mais apetecível da geração millennial. Antes de chegarem as lojas, as seis coleções por ano foram fotografadas, partilhadas e vistas um pouco por toda a parte. Algures entre o imediatismo das redes sociais e a crescente exigência de ver hoje, comprar amanhã, a criação começa a flutuar como uma memória distante. 

"Hoje, sinto-me feliz por reparar que existe, uma vez mais, interesse pela criatividade na Moda, por via de alguns designers emergentes", escreveu Margiela numa das frases finais da sua carta. No meio de todas as incertezas que o sistema da indústria levanta - sejam elas sociais, políticas, ambientais ou mesmo pessoais -, a resposta que tanto procuramos nunca será consensual. Mas, enquanto existirem criativos dispostos a dar o corpo ao manifesto, sabemos que a magia nunca se irá perder verdadeiramente. 

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