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Curiosidades 20. 7. 2022

To be Continued | Yellow: yay or nay?

by Joana Rodrigues Stumpo

 

Há uma lenda urbana que diz que o mundo se divide em dois grupos: as pessoas que adoram amarelo e as que o desprezam. Mas a história desta cor, aparentemente a mais feliz do espectro cromático, não é assim tão simples de contar. E, no final, de que lado ficamos — votamos sim ou não?

© Getty Images

Não gostar de amarelo sempre foi algo que me surgiu naturalmente. Aliás, “não gostar” pode até ser suave demais para descrever o que sinto acerca da cor (um destes dias, até dei por mim a dizer que me assusta), mas tolero a sua existência — preferencialmente, ao longe. Por mais que gostasse de ser capaz de explicar todas as pequenas razões que me impedem de gostar de amarelo, são demasiadas para enumerar. Há, contudo, uma que se destaca: o meu subtom de pele (o tão temido undertone). Depois de ter analisado, minuciosamente, a maquilhagem que uso e as roupas que me ficam bem, cheguei à conclusão de que sou ligeiramente “amarela.” E isso atormenta-me. Foi numa daquelas minhas pesquisas que acabam num rabbit hole no Reddit que percebi que não sou a única. Um cibernauta que permanecerá anónimo partilhou no fórum uma história em que conta ter passado precisamente pela mesma coisa, mas de forma bastante mais intensa. Enquanto eu fui obrigada a enfrentar a realidade do meu corpo, este utilizador recusou-se a aceitar a sua “amarelidão” e usou a seu favor um dos conhecimentos que a escola básica nos concede: os flamingos, o animal cor-de-rosa por eleição, obtêm a sua cor através de alimentos. Ele fez o mesmo, e viveu meses da sua infância com uma alimentação à base de camarão. Para sua surpresa, o seu corpo permaneceu totalmente inalterado, tão amarelo quanto estava antes da dieta. Depois do esforço inútil, a única alternativa que lhe restou foi desistir dos pequenos crustáceos e viver com o tom de pele com que nasceu, o que resultou num ódio desmedido por amarelo.

Da mesma forma que há quem odeie amarelo com unhas e dentes, há os que morrem de amores pela cor do sol. Reza a lenda — e são poucas as provas que sustentam a veracidade desta história — que Vincent van Gogh terá sido uma dessas pessoas. Basta, aliás, olhar para o portefólio do pintor holandês para perceber a fixação que teria com a cor. Já perto do fim da sua vida, durante um período sombrio, van Gogh terá comido um tubo de tinta (ou bebido, não é certo a categoria em podemos encaixar pigmentos coloridos misturados em óleo) numa tentativa de consumir a “felicidade amarela.” Mito ou verdade, o facto é que o amarelo é, de facto, uma cor “alegre.” Basta fazer uma pesquisa rápida no Google para perceber que é associada ao otimismo, à energia, à esperança e que… chama a atenção. Aliás, o poeta alemão Goethe, na sua obra Teoria das Cores, descreve o tom como “de um caráter sereno, feliz e levemente entusiasmante” — talvez por isso seja tão fraturante. Tão facilmente se adora quanto se odeia, e pode ser difícil encontrar quem se consiga situar no meio destes extremos. 

Rejeitar amarelo é fácil. Para mim e para tantos outros, é uma cor de uma intensidade tal que o mais pequeno vestígio pode ser insustentável — um estudo revelou que apenas 5,5% a elegem como a sua favorita. Às vezes, e como me disseram numa das muitas conversas que tive acerca deste assunto, a impressão é de que o amarelo dá uma falsa sensação de felicidade, uma cor que apenas dá a aparência de ser alegre, mas sem o ser de forma genuína (se tivesse de materializar a cor amarela, facilmente a conceberia como uma capa, algo que cobre o que está por baixo com uma máscara de falso entusiasmo). Aqueles que não suportam a cor admitem até que toda a sua positividade e esperança eufórica se podem tornar sufocantes, como se nos quisesse impingir o seu otimismo — ouvi mesmo quem a descrevesse como “irritante”, e não tenho como negá-lo. Mas este extremo do espectro não acaba naqueles que se deixam incomodar pela cor, acaba em quem tem um medo patológico de amarelo. Chama-se xantofobia e descreve precisamente a aversão e pânico irracional provocado pela cor, até mesmo pela própria palavra, e pode ser atribuída a traumas envolvendo, por exemplo, abelhas ou autocarros. 

Curiosamente, as razões evocadas para justificar o ódio por amarelo são as mesmas que fazem com que se goste tanto do tom — é uma cor feliz, que transmite esperança e otimismo. Há quem relate sentir-se com mais energia se o estiver a usar, tanto na roupa como na maquilhagem. Aliás, mais do que a influência que pode ter no estado de espírito, há quem assuma gostar da atenção que atrai, dos olhares e dos comentários (apenas os positivos, claro). Para além do simbolismo convencional, ouvi ainda argumentos um pouco mais concretos que quase me convenceram: que lembra o sol e a praia, o calor do verão. O que quer que isto signifique (se formos por aí, serão precisos muito mais parágrafos), não consigo deixar de notar que são os mesmos motivos que dividem o mundo nestes dois grandes grupos.  

Depois há os imparciais, os conformados. Embora raros, apenas o simples facto de os ter conseguido encontrar foi, para mim, uma vitória surpreendente. E o que tinham para me dizer? Que a cor lhes é indiferente, que a forma como os faz sentir depende do contexto em que é utilizada. Contudo, um dos melhores contributos foi-me dado por alguém que alega ser fã do tom, mas fez com que acabasse nesta categoria purgatória: “Alguém tem de gostar de amarelo.” Iniciei a minha pesquisa sob a assunção de que há apenas dois tipos de pessoas no que diz respeito ao amarelo — aqueles que o rejeitam e receiam, e os que o desejam e procuram. Afinal, há quem se conforme e aceite o que surgir desta cor nas suas vidas, seja muito ou pouco. Talvez esta seja a forma de viver com amarelo — tranquilamente, sem pressa para o conquistar e sem medo de o enfrentar. 

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