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English Version | Hello Darkness, My Old Friend

Curiosidades 7. 10. 2021

To be Continued | Underground Issue: Da terra viemos...

by Joana Rodrigues Stumpo

 

…à terra voltaremos. É a única certeza que temos na vida. Essa, de que um dia, regressaremos à terra, literalmente. No dia em que dermos o último suspiro. Em que formos para um lugar melhor. Qualquer eufemismo que evite aquilo chamarmos a coisa pelo próprio nome. 

© The Bardos

A morte. O aperto no estômago é palpável só com a palavra. Na verdade, lê-la e escrevê-la letra a letra é ainda mais aterrador, quase como se a sua ortografia nos desse mais tempo para, não só instalá-la na nossa mente, como imaginá-la e enfrentá-la. Talvez por isso, muitas vezes, preferimos não proferi-la, como se fazê-lo fosse uma espécie de chamamento. Um pouco como os condutores que se baixam no volante cada vez que se cruzam com uma carrinha funerária, numa tentativa de despistar “a sua hora”. Talvez por isso, muitas vezes, recorremos a expressões e subterfúgios para enfrentar o underground mais literal de todos: aquele que nos devolve ao solo. Porque “tudo e todos se dirigem para o mesmo fim: tudo vem do pó e tudo retorna ao pó”, lê-se em Eclesiastes 3, o terceiro capítulo do Velho Testamento da Bíblia Cristã. Não é preciso ser-se religioso para concordar com este excerto, uma acepção que argumenta também o porquê de um medo que vai além das cinco letras inofensivas que compõem o vocábulo - é acima de tudo o que descreve: o fim da vida. 

Porque é que temos medo da morte? A resposta que pode surgir de forma imediata é porque não sabemos o que nos espera. O ser humano, cada vez mais rico em conhecimento e sabedoria, não é capaz de tolerar o desconhecido. Como quando somos crianças e temos medo do escuro, porque não sabemos o que nele se pode esconder, como monstros, fantasmas ou outras criaturas pavorosas, literais ou metafóricos. Basta olhar para a panóplia de filmes de terror que contam histórias fantasiosas de demónios e espíritos. O que não sabemos acerca do futuro assombra já o nosso presente. Imaginamos o que poderá vir depois do fim e torturamo-nos com essa possibilidade, atormentados com conjeturas ainda deste lado. Não sabemos se o depois é melhor do que o agora, por isso, na d/vida, preferimos o agora, que se está bem a respirar e até a stressar. O nada é pior que o mau - porque no mau há sempre esperança de que fique melhor. Do nada, não há nada. Mesmo acreditando que algo maior poderá vir, na dúvida, aproveitaremos ao máximo a vida antes de bater às portas da morte.

Está num lugar melhor

Como não nos podemos confortar na certeza, encontramos refúgio na fé - e não necessariamente na religião. Acreditar em algo, no que quer que seja, pode ser uma fonte de tranquilidade. É aqui que surgem as variadas hipóteses do que nos poderá esperar depois do último suspiro (talvez o subterfúgio mais poético do final). Vivemos num contexto que é influenciado pela enorme herança cultural da religião cristã, transmitida de geração em geração há séculos. Não é preciso ser-se religioso para conhecer a tão largamente aceite hipótese que o Cristianismo nos dá. Aliás, as histórias da Bíblia são, muitas vezes, contadas às crianças, mascaradas de contos de fadas com um final feliz. Quantas vezes ouvimos dos nossos pais ou avós que alguém “está no Céu”? Talvez seja a resposta quase automática que surge quando um menino pergunta o que acontece quando morremos, é uma maneira fácil de tranquilizar a preocupação existencial acabada de nascer. Mas todos, mais novos ou mais velhos, passamos por um tempo - que pode acontecer faseada ou não - em que temos o temido choque quando finalmente compreendemos, nem que seja só por um segundo, o inevitável fim. É nesses momentos que encontramos conforto no Céu, que nos apontam para as estrelas, assegurando que quem está lá em cima fica a olhar por quem permanece cá em baixo. Na visão do Cristianismo, todos os que seguirem os valores cristãos e depositarem a sua confiança no Criador, têm a oportunidade de ir para o paraíso, um lugar idílico que Deus chama de morada e onde poderemos reencontrar os nossos entes queridos já falecidos. Mas algo tão bom não existe sem o reverso da medalha, o inferno, esse lugar de trevas onde os pecadores serão castigados eternamente. A perspetiva cristã oferece uma alternativa realmente positiva, por garantir a existência de uma vida depois da morte, em que qualquer um tem a oportunidade de se arrepender dos pecados, garantindo assim um lugar no paraíso onde passará a eternidade. Mas precisa do seu oposto condenatório, aquele que rege comportamentos e que garante a manutenção da prática do Bem, bem como da vida na Terra, porque pecadores também são aqueles que tiram a própria vida em vez de esperarem pela hora determinada por Deus. Com a promessa do paraíso, é preciso garantir que ninguém cai na tentação.

Viaje-se até ao outro lado do globo, particularmente em regiões asiáticas, onde a crença é outra. Nas zonas onde nasceram o Budismo e o Hinduísmo, a vida depois da morte é possível, mas não num lugar distante - será de volta aqui mesmo. A reencarnação é um conceito filosófico e espiritual que explica que a essência que nos faz viver não morre com o corpo, mas é transportada para outro veículo físico (disclaimer: não confundir com ressurreição, que implica voltar à vida no mesmo corpo). O Budismo baseia a sua teoria da vida depois da morte no Samsara, um conceito que descreve um fluxo sem fim de vida na Terra, do qual fazem parte todos os seres vivos que têm uma perceção consciente do que os rodeia. Isto quer dizer que qualquer animal que exprime dor, medo, e mesmo afeto - como cães ou gatos - estão incluídos neste ciclo. Os budistas conceberam, então, a roda do Samsara, uma representação visual do ciclo - sem início e sem fim - e dos seis caminhos que uma alma pode seguir, que é definido pelo karma, pelas nossas energias e intenções. Dependendo do que alguém deu, ou tem para dar, pode voltar como animal, humano, ou mesmo um ser divino ou demoníaco. Apesar de todos estes detalhes algo formais, a base do Samsara é que há um fluxo de consciência que não é interrompido, dura desde sempre e durará para sempre. Assim, é assegurado pela religião que a morte não é o fim - é só o início de outra vida.

Fora da esfera da religião, encontramos as visões mais sombrias sobre o que nos espera sobre a morte. Entre os céticos, é comum a perspetiva do vazio, o esquecimento eterno. Assumindo que, pelo menos, os seres humanos têm uma alma, ou talvez uma consciência ou essência, algo que nos torna quem somos, há quem acredite que, depois do último suspiro, esse extra ieneplicável deixa de existir. Apesar de ser uma não-sensação, uma inexistência, parece que a experiência deverá ser algo semelhante ao que sentimos quando estamos a dormir - nada. Exceto quando sonhamos, ou naquelas noites em que estamos constantemente a acordar e a sensação de dormir é quase nula, é só quando acordamos e voltamos a viver que conseguimos ter uma retrospetiva das últimas horas. Esta é uma alternativa ingrata que nos pode deixar perdidos na imensidão do mundo, porque, no fim, nada tem um propósito metafísico, simbólico, que vá para além dos corpos que somos. Mas, para os que não acreditam em algo transcendente, ou para os que têm medo de ter esperança, é o pior cenário - na verdade, haverá pior do que deixar de existir? Qualquer extensão de vida, seja onde for, talvez seja melhor do que simplesmente não ser. Não?

Está no repouso eterno

Vale a pena refletir sobre uma outra hipótese acerca da morte, menos debatida, e que é mais sobre a vida do que o seu fim, que é a da simulação. Parece brincadeira, mas não é: imagine-se um videojogo, algo à semelhança de The Sims, em que o jogador cria uma ou mais personagens e tem controlo sobre todas as suas ações - desde ir à casa de banho a escrever um livro. Pensando na perspetiva da personagem, que, para quem a controla, é apenas um produto de um programa informático, a sua vida parece ser perfeitamente normal, sem que se aperceba de que é controlada por um ser seu superior e que, na verdade, nada do que experiencia é real. Um Truman Show em bits e bytes. Mais fácil será, talvez, pensar no blockbuster da série de filmes The Matrix (1999-2021), em que Neo, a personagem de Keanu Reeves, vive uma vida aparentemente normal, com uma rotina igual a qualquer outra. Tudo muda quando descobre (spoiler alert) que vive numa simulação, num programa informático que provoca uma série de ilusões nas pessoas - mantidas, dormentes, numa espécie de incubadora - por forma a fingir toda a existência de uma vida e de interações. No fundo, a teoria da simulação assume a possibilidade de vivermos numa espécie de Matrix, num mundo em que nada do que nos rodeia é real, em que tudo é uma ilusão, talvez mesmo controlada por alguém ou algo nosso superior. Por muito pop que esta hipótese possa soar, a verdade é que há mesmo investigações e dissertações científicas acerca do tema, sendo que a hipótese foi teorizada, em 2003, pelo filósofo sueco Nick Bostrom, e sobre a qual continuam a ser feitos estudos. Há quem vá ainda mais longe na teoria e pense que as simulações são personalizadas. Quer isto dizer que cada um tem o seu próprio mundo, criado à sua medida, e que tudo o que o preenche não é real. Picture this: entra numa clínica e senta-se na sala de espera, junto de outras pessoas. Segundo a teoria, todos os que o rodeiam são apenas projeções da sua própria ilusão, não são reais. Claro que este é já um passo na hipótese da simulação que torna tudo muito mais narcisista e niilista. Mas não podemos deixar de questionar a possibilidade, uma vez que o princípio da teoria é precisamente que a ilusão é feita de tal forma que não somos capazes de distinguir o que é real e o que não é - mesmo ao estilo de Matrix. Já no que toca à morte, esta hipótese deixa as portas abertas para o que virá depois. Acordaremos noutro plano já depois de ter vivido uma vida? Repetimos tudo de novo? Ou simplesmente acaba, sem que nada venha a seguir desta série de reações químicas que criam o sonho tão real?

Deu o último suspiro

Independente da crença ou da hipótese que considere ser a menos rebuscada, uma coisa é certa: todos chegaremos lá, eventualmente. Aliás, a morte é a única certeza que podemos ter. Desde o primeiro choro, tudo o que se segue desde aí é completamente inesperado, seja produto do destino ou do acaso - exceto a finitude, que chegará, mais tarde ou mais cedo. No meio do caos que é a vida, o fim é a única coisa de que podemos estar seguros. Mas há algo de poético nisto tudo, ou não? Há algo de eufórico na fugacidade das coisas, a rapidez e a imprevisibilidade da vida torna-a, só por si, inteiramente valiosa e simbólica. Talvez seja uma perspetiva de que não muitos partilhem, mas a ideia de ter um prazo de validade definido faz com que se tome tudo por garantido. Isto é, temos em mente a esperança média de vida, a idade a que se espera que um indivíduo chegue se as condições no momento do seu nascimento se mantiverem ao longo do tempo. Em 2019, o número estava nos 81,1 anos em Portugal. Quer isto dizer que, até prova em contrário, a expectativa é que a grande maioria dos portugueses viva à volta das oito décadas. É impossível não questionar quais as consequências da aceitação desta previsão na forma como conduzimos a nossa vida. Adiamos planos e objetivos por anos e anos. Porque temos tempo. Mas temos? É precisamente por causa da imprevisibilidade da morte que somos obrigados a viver o quanto possível, porque não podemos tomar os 80 anos por garantidos. Não quer isto dizer que agora devemos fazer tudo sem pensar no futuro só porque podemos morrer amanhã. Até porque o mais provável é não morrermos e temos de garantir que temos as ferramentas - de subsistência - para vivermos mais esse dia extra. Mas quantos de nós têm bucket lists (listas de coisas que se quer fazer ou alcançar antes de morrer)? E sem a noção de finitude, será que teríamos a mesma força de vontade para cumprir estes objetivos?

Descansar em paz

Apesar do esforço que fazemos para não enfrentá-la - até fingir que não existe, ou que não chegará até nós, numa sensação errónea de invencibilidade (“isso só acontece aos outros” ou “ainda falta muuuuito, até lá a esperança média de vida aumenta… incessantemente” -, a verdade é que há um fascínio pela morte. Uma vez que é um fenómeno para o qual não temos ainda respostas, resta-nos o imaginário. Aliás, é na ficção, seja no formato literário ou cinematográfico, que este fenómeno se tornou mais do que uma constante, mas num requisito. Estranhamente, conferimos, geralmente, um certo grau de qualidade a uma obra cujo artista não tenha medo de matar personagens. Em A Guerra dos Tronos, a série de livros de George R.R. Martin que mais tarde foi adaptada ao pequeno ecrã, a morte, apesar de não ser personificada, está constantemente a marcar a sua presença. Sem estragar a história para os que ainda não cederam ao fenómeno mundial, digamos apenas que Martin mata impiedosamente algumas das personagens mais queridas e cruciais com o propósito exclusivo de apimentar a história. Com isto não queremos dizer que é à morte que se atribui o sucesso da série, mas a verdade é que não deixamos de questionar se teria sido tão bem recebida se todos os protagonistas do primeiro livro continuassem vivos até ao fim. E é na ficção que nos permitimos a nós próprios conceber o fim, mesmo quando é de figuras com quem acabamos por sentir afeto e criar um laço, de alguma forma. Mais do que isso, é com personagens fictícias que nos deixamos aceitar a morte. Talvez porque assim lidamos com ela sem nós próprios termos de encarar o fim - o nosso ou o de alguém verdadeiramente próximo, na realidade.

Chegou a sua hora

Se há alguém que é perito nestas questões metafísicas e macabras é Sigmund Freud, psicanalista austríaco. As suas especialidades eram o estudo do ego, da sexualidade e do subconsciente e, sobre a morte, Freud diz que é impossível que tenhamos medo dela. Para o neurologista, ninguém acredita na sua própria morte, porque nunca a poderá experienciar - pelo menos, não de uma forma em que poderá dar o seu testemunho. Isto é, enquanto vivos, tememos a ideia que temos da morte, mas não a ela própria. Na verdade, Freud diz que as pessoas que expressam ansiedade e medo da morte apenas o revelam como produto de conflitos na infância que não foram resolvidos, criando uma incapacidade de lidar e aceitar. Já Ernest Becker, antropólogo norte-americano, desenvolveu a teoria da gestão do terror, em que defende que o medo da morte é algo tão esmagador que é a fonte da maior parte das preocupações do ser humano. Por exemplo, é a partir desta ansiedade que se criam fobias, como o medo de estar em locais fechados ou de estar sozinho. Segundo a teoria, algumas pessoas desenvolvem saliência da mortalidade, um termo que se refere à consciência de que a nossa própria morte é iminente. Nesta fase, Becker diz que surge um conflito interior entre a aceitação do nosso fim e o instinto de autopreservação, que nos faz lutar para continuar a viver. É através desta perceção que tentamos, conscientemente, suprimir o medo com estratégias para prolongar, material ou simbolicamente, a nossa presença na Terra. Uma dessas formas é através da religião, que mitiga o medo ao garantir a continuação da vida de alguma forma. Para além disso, a adesão a movimentos e causas garante que algo de quem morreu continua - por exemplo, a identidade nacional ou ações culturais. Uma outra estratégia para ter a certeza de que uma parte de nós fica para além da nossa morte é garantir a descendência, ter filhos.

Por uma questão de medo, ou mesmo só de desconforto, damos por nós a evitar pronunciar a palavra que, confirma-se, bem foi tão mencionada aqui - pelos menos, não ipsis verbis, mas antes através dos seus subterfúgios verbais. Vai surgir subitamente, muitas vezes sem aviso prévio, e talvez possamos dizer que não estaremos prontos para ela, quer a nossa, quer a dos que nos são próximos. Mas, mesmo se fingirmos que não existe, ela chegará a nós eventualmente. Use-se, então, outros subterfúgios para significar a vida: carpe diem, aproveite o dia, viva como se não houvesse amanhã, living Life to the fullest. No fundo, o fim, ou a sua noção, alimenta propósitos e objetivos, para que um dia, na hora da morte, sintamos que, na finitude, existiu plenitude.