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Gossip | To be continued: Era Uma vez a vida sem redes sociais

09 Sep 2022
By Ana Murcho

Desafiámo-nos a passar uma semana sem acesso a aplicações como Instagram, Facebook, TikTok, Twitter, BeReal e afins. “Oh, isso é canja!”, afirmámos (com alguma presunção) no dia em que selámos a aposta. “Qualquer pessoa consegue fazer isso”, decidimos, esquecidos que da teoria à prática vai um longo swipe. Será que falámos cedo demais? Quando retiramos as redes sociais da equação, como é que fica a nossa ligação com o mundo?

Desafiámo-nos a passar uma semana sem acesso a aplicações como Instagram, Facebook, TikTok, Twitter, BeReal e afins. “Oh, isso é canja!”, afirmámos (com alguma presunção) no dia em que selámos a aposta. “Qualquer pessoa consegue fazer isso”, decidimos, esquecidos que da teoria à prática vai um longo swipe. Será que falámos cedo demais? Quando retiramos as redes sociais da equação, como é que fica a nossa ligação com o mundo?

Spoiler alert: este desafio não foi superado. A pessoa incumbida de se desligar, de se desconectar, de “dizer não”, falhou. Em sua (minha) defesa, tempos houve em que semelhante provação pareceria tão simples de executar que o seu sucesso seria um dado adquirido. Os tempos de hoje não são esses tempos. O motivo é simples: em maio passado que decidi subir um nível na complicada escala das redes sociais. Depois de Facebook (onde não publico há precisamente dois anos), Twitter (uma relação difícil, já apaguei a conta umas quantas vezes), Instagram (o Santo Graal, o “sítio” onde toda a gente se junta mas ninguém se vê, como num café esquizofrénico em que não há mesas, nem cadeiras, nem pessoas, só handles) e Raya (desisti ao fim de ano e meio, a mensalidade não compensava a utilização abaixo de zero que lhe dava — no entanto, se algum leitor souber efetivamente como funciona, poderei voltar a tentar), instalei finalmente o TikTok. No meu entendimento — que se desculpa pelo gap geracional que faz com que os nascidos na longínqua década de 1981 sejam um zero à esquerda no que toca a tecnologia — o TikTok era uma “cena" de vídeos sem interesse. Para quê perder tempo a ver desconhecidos aceitar “desafios” e imitar coreografias patetas? Para quê mais uma aplicação? Apesar da crença rebuscada dos engenhocas de Sillicon Valley, que nos entopem com novas formas entretenimento “gratuito” a cada ano, o dia continua a ter 24 horas. Mas não era apenas isso: o TikTok parecia “uma coisa da pandemia”, uma mania de internautas impacientes que não sabem estar sozinhos. Errado. O TikTok não era, nem é, nada disso. E foi assim que os meus dias passaram a ter menos quatro horas — escrevê-lo é ainda mais humilhante do que dizê-lo em voz alta.

Ora, como qualquer pessoa que tenha TikTok sabe, é impossível não abrir a app 3847693184 vezes por dia para “ver qualquer coisa.” Não precisa, sequer, de ser “uma coisa” do nosso interesse. Basta estar lá, à nossa espera, para descobrirmos ainda mais um motivo para perder horas de sono. Prova: na noite em que me rendi ao TikTok fiquei até às sete da manhã a explorar aquele admirável mundo novo — cuja oferta é, a meu ver, francamente mais interessante do que a dos concorrentes. Isso são outros quinhentos, claro… Tudo isto para dizer que, meses depois, confrontada com a hipótese de virar costas a tudo o que fosse virtual, não hesitei. “Claro!”, larguei, com a presunção de que seria peanuts. Já o tinha feito, mais do que uma vez — três, para ser precisa. Sempre que “desapareci” foi por vontade própria. Precisava de “limpar” a cabeça. Um mês sem redes sociais foi algo tão fácil que aumentei a parada e, em maio de 2018, estive quase 90 dias sem Instagram. Quando “regressei” a minha conta tinha sido hackeada, por isso não quis voltar a arriscar. Agora, decidi, a única opção era “não ver”, algo tão prosaico como servir-me do meu telefone para dezenas de coisas mas ignorar o chamamento de tudo o que fosse social media. Resultado final: consegui efetivamente estar off. Mas para isso acontecer uma condição tinha de ser cumprida — era preciso estar a dormir. Não há muito a retirar sobre este fracasso. Sou tão dependente destas aplicações como a minha colega do lado. Gosto de descobrir, de partilhar, de “estar a par” de tudo, seja uma nova produção de moda ou um artista que desconhecia; seja uma fotografia do Cristo Rei ou um boato juicy sobre uma celebridade com quem nunca irei falar — e que não se pode defender, tantos são os posts, que se multiplicam à velocidade da luz. Eu, Ana, sou viciada em redes sociais. Vivo sem elas, mas já não me vejo sem elas. Por falar nisso, está na hora de fazer o download do BeReal.

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