17. 5. 2022

To be continued | My big fat solo wedding

by Ana Murcho

 

“Prometo ser-me fiel, amar-me e respeitar-me, todos os dias da minha vida.” Não, a frase anterior não está errada. Os solo weddings são uma moda crescente em vários países, nomeadamente no Japão, onde há cada vez mais pessoas — mulheres, sobretudo — que decidem dar o passo em frente e dizer “sim” em cerimónias com direito a vestido, bolo, sessão fotográfica. A diferença é que casam... consigo próprias. 

© Getty Images. Artwork by João Oliveira


Em 1996, durante a tour de promoção do seu livro Bad as I Wanna Be, Dennis Rodman, um dos mais emblemáticos jogadores da NBA (tanto pela sua postura “problemática” como pelo seu talento), comentou com alguns jornalistas que, em breve, iria casar com uma mulher incrível. Para surpresa de todos os que o acompanhavam, a “noiva" chegou a uma das suas sessões de autógrafos numa carruagem… realizando o sonho de Rodman de se casar consigo próprio. Para além do frenesim mediático — milhares de pessoas apareceram para assistir, a notícia espalhou-se pelo mundo inteiro, e o livro de memórias esteve na lista de best-sellers do The New York Times durante mais de quatro meses — o ex-astro da NBA conseguiu algo impensável até então: ao assumir a sua bissexualidade muito antes de esta ser um tema aceite, contribuiu para que outro/as tivessem coragem de expressar os seus verdadeiros sentimentos e as suas fantasias mais impensáveis — como viverem felizes para sempre, com ele/as próprio/as.

A sologamia ainda não é legal mas é uma prática que tem vindo a crescer nos últimos anos, nomeadamente no Japão e nos Estados Unidos, onde o “I do” se pronuncia a uma só voz. Se já está farto/a de ouvir a pergunta de sempre “Então quando é que te casas?”, que também pode ter a variante “Mas porque é que continuas solteiro?”, saiba que a temática do solo wedding já foi abordada em séries de televisão como Sex and the City, que em 2003 identificava uma realidade cruel sobre a vida de uma pessoa solteira: não existe, para uma pessoa solteira, o equivalente a um casamento — uma data em que as pessoas viajam de longe para lhe trazerem presentes e brindarem às suas decisões de vida. Foi isso que, alguns anos depois, me levou a agir. No início de setembro de 2015, anunciei na minha página de Facebook: “Aproveito o dia primeiro para anunciar que em breve irei enviar os convites para o meu casamento — comigo própria. Cheguei à conclusão que, na última década e três quartos, fui a casamentos, batizados e festas suficientes para, chegada esta hora, poder celebrar também a minha existência da forma que me apetecer. Estive presente na união de casais que mal conhecia — e para cuja “felicidade” contribui com os meus miseráveis euros e com a minha voz irritante, a rir e dançar a até altas horas na pista de dança — tal como fui testemunha de verdadeiros irmãos de sangue, que me levaram às lágrimas assim que a noiva começou a descer o altar. Escolhi bonecos para crianças que a tia Ana nunca mais viu, e peluches anti-alérgicos para pequenos terroristas que agora começam a achar-me cool, ajudei a planear surpresas para amigos do peito e cantei parabéns de alma cheia a “pessoal” que hoje é capaz de não me passar cartão nenhum. Fear not, my friends. Tenho uma lista com os vossos nomes todos. Um por um, serão convidados a participar nesta festa de espelhos que será o meu casamento. Dress code, o que eu quiser. Lista de prendas, o que eu quiser. Local, onde eu quiser. Data, quando eu quiser. E se quiser mudar de ideia, no problemo. Afinal de contas, sou eu que vou ter de me aturar.” O feedback foi bastante positivo. Penso que a maior parte dos meus amigos temeu, por momentos, que levasse a minha avante.

Eu não levei, mas centenas de outras mulheres (e homens, mas principalmente mulheres) levaram. No Japão há empresas que se dedicam unicamente a este serviço (casar pessoas consigo próprias), e a procura é tal que chegam a ter 10 marcações por mês. O “pacote casamento” inclui o vestido as fotografias, a maquilhagem, a festa, o bolo… menos a parte “pesada” da vida a dois. Nota: o Japão é um dos países onde as relações interpessoais têm sofrido mais alterações nos últimos anos, com grandes índices de solidão e pesadas horas de trabalho que impedem uma vida social mais ativa, por isso é apenas normal que as pessoas encontrem novas formas de combater a solidão. Mas muitas vezes estas cerimónias vão além da simples photo op para Instagram e transformam-se em poderosos momentos de emancipação, em que as noivas (ou os noivos) aproveitam para se apresentar, a dezenas de convidados, como independentes, capazes, felizes. Os solo weddings são, de certa forma, o ponto final na revolução das mulheres (ou dos homens) consigo próprias/os, e a prova de que, no século XXI, as princesas conseguem construir o seu felizes para sempre sem a ajuda de um príncipe. E vice-versa.

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