Maye Musk fotografada por Alyona Kuzmina e com styling de Stefania Chekalina para o The Mirror Issue da Vogue Portugal, publicado em fevereiro de 2021.
Cada cabelo grisalho é uma tela em si. Como numa pintura, a decisão de colorir ou deixar o fio natural é um gesto de autonomia e estilo. Tela sobre branco não celebra apenas quem opta por assumir os fios, nem apenas quem decide pintá-los: mas sim o poder da escolha e a liberdade de definir a própria imagem.
Os cabelos brancos chegaram ao centro da conversa — símbolo de liberdade, de autenticidade, de coragem. Mas entre o mito e o espelho, há nuances. Há quem veja escravatura em pintá-los, e há quem veja liberdade em continuar a fazê-lo. A diferença está no motivo. Se os pintamos porque o mundo ainda associa o cabelo grisalho a velhice, é submissão. Mas se o fazemos porque, ao olhar para o espelho, preferimos ver-nos com a cor que sempre foi a nossa — ou quase — então é escolha. E a escolha, quando nasce do conforto, não tem culpa. Começo este texto por aqui porque, muitas vezes, o ângulo parece ser o arrojo de quem assume os brancos — como se quem optasse por não o fazer fosse, de alguma forma, escrava das expectativas sociais. Spoiler: não é bem assim. Vivemos num tempo de facilidades, também no campo da estética, e ainda assim tirar partido delas é, muitas vezes, visto como um gesto de vaidade. Como se cuidar fosse pecado. Da mesma forma que assumir os grisalhos é uma escolha, e não apenas um ato estoico, também o é optar-se por os esconder.
Mas vale a pena olhar para histórias de quem decidiu fazer o primeiro caminho. Não como modelo, mas como exemplo entre muitos. Se Hollywood já se aventurou a deixar o grisalho natural florescer, também há histórias mais próximas de nós que mostram como assumir os brancos pode ser profundamente libertador. Jane Fonda, Helen Mirren, Andie MacDowell ou Salma Hayek escolheram revelar os fios brancos, transformando o simples gesto de não os esconder numa afirmação de autenticidade e coragem. Para algumas, deixar o cabelo crescer grisalho é menos uma questão de estética e mais um exercício de liberdade — um recado claro de que o tempo não precisa de ser camuflado, mas vivido com dignidade. Mas nem sempre o assunto surge na idade que esperamos. Sofia Lopes, 57 anos, médica dentista, lembra-se de encontrar o primeiro cabelo branco aos 12 anos — e, na altura, “foi um choque”. No entanto, só por volta dos 21 é que começaram a surgir em quantidade, momento em que começou a considerar pintar: “Tinha vergonha dos meus cabelos brancos naquela idade, achava feio”. Conta à Vogue que assumir os brancos se tornou, sobretudo, uma libertação da ida ao cabeleireiro de três em três semanas. E que tudo aconteceu em plena pandemia: “Nos primeiros meses de recolhimento, os cabeleireiros estavam fechados e fiquei dois meses sem pintar o cabelo. [Nessa altura] tornou-se evidente a quantidade imensa de brancos, mas também a sua cor, que me agradou. Incentivada pela família e pelo meu marido, resolvi assumir. Antes que me arrependesse e voltasse atrás, fui fazendo publicações no Instagram que mostravam a evolução do processo”, partilha. O seu maior fã? O marido, Francisco, “que sempre insistiu para que o fizesse e sempre disse que iria ficar o máximo — e ficou!”.
Antes de ser estética, o cabelo é biologia, e os fios brancos não surgem de um dia para o outro. Estes são, na realidade, o resultado de uma conversa silenciosa entre o tempo e as células. O cabelo fica branco quando as células responsáveis pela cor param de a produzir. Em conversa com a Vogue, Mafalda Perfeito, hairstylist e autora do livro Guia Para um Cabelo Perfeito (2016), explica que o cabelo branco é uma característica inevitável e que o seu aparecimento dependerá de inúmeros fatores, sendo a genética o principal. “Tenho clientes de 20 anos com brancas e clientes de 50 sem praticamente nenhuma. Mas, em geral, começam a aparecer entre os 25 e os 30 anos”. Além da componente genética, algumas doenças podem acelerar o seu aparecimento, como é o caso da diabetes, de anemias, de problemas da tiroide ou até do stress. “Alguns estudos defendem que a ingestão de vitamina B retarda o aparecimento de cabelos brancos — eu tomo e aconselho as minhas clientes a incluí-la na sua dieta”, sugere a hairstylist. Questiono qual é, na sua percepção, o motivo maior que leva tantas mulheres até ao salão para pintar os brancos, e a resposta não me surpreende: a questão estética. “A maioria associa as brancas à idade e prefere manter uma imagem na qual se reconhece e se sente confiante”. Quanto ao intervalo entre visitas, depende da percentagem de brancas, do ritmo de crescimento e da tolerância de cada pessoa: “Na coloração permanente, pode variar entre 10 dias nos casos com mais de 70% de brancas, e 3 a 4 semanas na maioria das situações”.
Pessoalmente, não chego a ver os brancos — apesar de já contar com a sua ilustre presença desde meados dos trinta. Assim que as raízes dão sinais de vida, eu trato delas. É um ritual, quase meditativo, que acontece de três em três semanas. É, também, o meu tempo. E não considero que gostar de me ver ao espelho — ou gostar mais de me ver ao espelho sem os ditos brancos — seja uma futilidade. Chamo-lhe alinhamento. Para mim, ir ao cabeleireiro uma vez por mês, ou mesmo de três em três semanas, não é o fim do mundo. Se não houvesse uma solução, talvez aí fosse um problema. Mafalda reconhece esta sensação nas suas clientes: “Quando saem do salão sem brancas, a maior parte sente um alívio imediato. Ficam mais felizes, mais leves e voltam a sentir-se elas próprias. Quem opta por tapar as brancas não gosta realmente de se ver com elas — por isso, o resultado sem brancos traz sempre uma sensação de bem-estar”. Da sua experiência e anos de vida em salão, considera que são poucas as pessoas que se sentem realmente confiantes ao assumir os brancos e que quem o faz, é, geralmente, por uma questão de praticidade, mais do que de conforto. Mas também há casos em que os brancos ficam lindos, como confirma Sofia Lopes (e o seu marido), e a pessoa se sente bem com eles — algo que, segundo Mafalda Perfeito, acontece quando a distribuição é harmoniosa e combina com a cor de base e o estilo de vida. Ainda de acordo com a hairstylist, existem várias formas de tornar um cabelo assumidamente grisalho lindo, e que o mesmo não significa deixar de o cuidar. “O cabelo branco deve ser tratado da mesma forma que o cabelo pigmentado. Aconselho a usar alternadamente o champô habitual e o champô específico para os cabelos brancos, uma vez que este corta os reflexos amarelados indesejados. Torna-os mais brilhantes e luminosos”.
Em suma, todos os cuidados e todas as escolhas — pintar, não pintar, aceitar ou modificar — não são apenas sobre estética. Mas uma forma de cada mulher gerir a relação com o próprio corpo, com o tempo e com a imagem que quer projetar. É nesse espaço, entre consciência e escolha, que se revela o verdadeiro poder: decidir sem culpa, sem pressão, segundo o próprio conforto. Na prática, o cabelo branco não define o valor de ninguém. Pintar ou não pintar é apenas uma escolha — pessoal, íntima, livre de julgamentos. O que importa não é o cabelo, mas a autonomia de decidir sobre si própria. Assumir ou não assumir os brancos é, em última análise, um ato de poder. A diferença está em quem escolhe e no espírito com que o faz.
Originalmente publicado no Dare To Be Bold Issue, a edição de dezembro de 2025 da Vogue Portugal, disponível aqui.
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