Moda  

Suzy Menkes: "Escrevo para me interessar a mim própria"

26 Jun 2026
By Pedro Vasconcelos

Entre crítica e linguagem, vive Suzy Menkes e a tentativa contínua de encontrar a frase certa.

Não é fácil escrever sobre escritores. A nossa familiaridade com as palavras faz com que saibamos exatamente quando elas são insuficientes. Quando uma frase parece demasiado calculada, ou quando uma ideia chega ao papel já sem a precisão que tinha na cabeça. Talvez por isso seja particularmente interessante escrever sobre Suzy Menkes, agora com 82 anos e seis décadas de carreira (que prometem continuar) a influenciar a indústria — da escrita e do design de Moda. Para este jornalista da Vogue, não há nome mais importante. Poucas figuras marcaram o jornalismo de Moda de forma tão profunda quanto Suzy Menkes. Com a sua icónica silhueta — invariavelmente acompanhada pelo característico penteado — e uma escrita simultaneamente rigorosa, Menkes tornou-se uma das vozes mais respeitadas da crítica de moda contemporânea. Ao longo de décadas, escreveu para publicações como o International Herald Tribune, o New York Times e a Vogue, testemunhando transformações sísmicas na indústria: da Alta-Costura parisiense dos anos 80 à aceleração digital que redefiniu completamente a forma como consumimos imagens, desfiles e opiniões. Mas reduzir Suzy Menkes à condição de observadora da Moda seria falhar aquilo que verdadeiramente distingue o seu trabalho. O centro da sua carreira nunca foi apenas a roupa, foram sempre as palavras. A maneira como uma coleção podia ser traduzida em linguagem, como um desfile podia adquirir significado através de uma frase precisa ou como uma crítica podia sobreviver muito para além do momento efémero que descrevia. Num meio dominado pela imagem, Menkes pertence a uma geração que acreditava profundamente no poder da escrita. Enquanto a Moda se tornou exponencialmente mais imediata, mais visual, a sua relação com a escrita permaneceu lenta no melhor sentido da palavra — expressão que os escritores tendem a usar com particular frequência precisamente porque passam metade da vida a tentar convencer os outros de que as palavras ainda têm sentidos diferentes entre si.

As palavras tornaram-se mais descartáveis na era digital?

As pessoas já não querem ler sobre Moda da forma como eu costumava escrevê-la. Hoje, toda e qualquer pessoa pode ver uma coleção. Há nove ou dez anos, muito poucas pessoas assistiam efetivamente aos desfiles. Agora, o desfile completo é disponibilizado no exato momento em que acontece. Se quisesse ver o que aconteceu ontem à noite em Nova Iorque [nota do editor: na noite anterior à entrevista, a Gucci apresentou a sua coleção Cruise 2026/2027], poderia tê-lo feito imediatamente e, esta manhã, voltar a vê-lo na íntegra. É uma mudança tremenda; antes, tudo acontecia de forma muito mais lenta, nada era tão imediato.

O que podem as palavras oferecer à Moda que as fotografias não conseguem?

Oferecem-lhe passado, contexto, algo em que poucas pessoas pensam atualmente. Quando comecei a trabalhar, ficou muito claro para mim que teria de estudar imenso por iniciativa própria. Tinha de conhecer todos os designers, saber quem eram os seus parceiros... tinha de saber tudo. Tive de descobrir essas coisas sozinha, ao passo que hoje creio que ninguém consideraria isso parte do trabalho; a moda tornou-se apenas mais um elemento da vida de toda a gente. Por outro lado, os desfiles também são hoje muito diferentes. Os desfiles Cruise estão agora a terminar e havia tantas celebridades presentes que as únicas imagens que vi eram de pessoas a observar a roupa, em vez da roupa propriamente dita.

Falamos de encerrar a Times square, a escala é sem precedentes. À medida que a Moda se torna cada vez mais espetáculo, considera que estamos a perder vocabuláriona forma como falamos sobre vestuário?

Estamos certamente a investir enormes quantias para que as pessoas compreendam a narrativa que se pretende transmitir. Nos últimos 50 anos, grande parte da Moda servia para atrair potenciais clientes. Hoje, provavelmente, serve outro propósito. De certa forma, aquilo que referiu é verdade. Muito do que acontece na passerelle já não diz respeito à roupa, pode tratar-se de acessórios ou de uma mala que se espera vender em grande quantidade. Tudo se tornou mais complexo. Ninguém está verdadeiramente concentrado na roupa em si. É uma mudança subtil, mas importante.

A moda perde relevância cultural à medida que se torna cada vez mias orientada para o consumidor?

Penso que é uma questão difícil, sobretudo agora. Estamos a assistir à saída da última geração de pessoas que desenvolveram a sua visão de forma privada e sincronizada. Há toda uma geração a abandonar a indústria. Quando pensamos em designers como Dries Van Noten, que deixou o design para se dedicar a outras práticas artísticas, deixando de apresentar desfiles para fazer algo diferente. O que acontecerá a todas estas maisons que procuram substituir a geração mais velha que está a sair? Para quem falam estes designers? É uma situação bastante complexa de resolver. Se uma casa nunca teve outra figura além do fundador, o que poderá fazer? Nem todas as marcas podem ser a Dior, que teve, creio eu, nove diretores criativos ao longo da sua história.

Penso em marcas como Alexander McQueen, concebidas como projetos pesssoais, mas que acabaram por ser adquiridas e não podem simplesmente encerrar após a morte do fundador.

Sim, exatamente, é uma situação difícil.

Falamos de designers de uma era passada, um tempo em que os críticos podiam moldar carreiras. Isso também parece pertencer ao passado. Considera que a crítica ainda tem consequência hoje?

Na minha época, procurávamos construir uma narrativa, era isso que muitas outras pessoas faziam igualmente. Hoje, penso apenas que toda a gente possui a sua própria visão e a partilha de imediato. Quando a crítica chega, o momento já passou. Não se consegue ser mais rápido do que o próprio desfile. Alguém diante da televisão, ou, mais provavelmente, do telemóvel, já viu tudo antes sequer de começarmos a escrever. Hoje tudo é instantâneo, esse é o ponto essencial. Quando finalmente se escreve algo, está-se simultaneamente a tentar expressar uma opinião e a reagir em tempo real.

Uma indústria transforma-se imenso ao longo de uma vida, mas não é a única sujeita à mudança. Tenho curiosidade em saber de que forma a sua relação com a escrita evoluiu ao longo da carreira.

Imagino que tenha mudado, mas de forma orgânica. Nunca me sentei, nem me sento hoje, a pensar: “Tenho de adaptar o meu estilo de escrita para estes jovens leitores.” Nunca penso dessa forma. Escrevo porque me interessa aquilo que estou a dizer. Não tento falar em nome de alguém, nem dirigir-me especificamente a alguém, escrevo para me interessar a mim própria.

Grande parte da confiança necessária para escrever nasce do desejo de ouvir a própria voz.

Exatamente. Isso não significa que eu não fique satisfeita quando as pessoas apreciam o meu trabalho. As pessoas riem-se sempre quando digo isto, mas nos meus primeiros anos eu sentia-me orgulhosa se um artigo meu fosse suficientemente importante no jornal para ter duas fotografias. Consegue imaginar? Hoje penso que as pessoas reagiriam precisamente ao contrário: “Apenas duas?” É extraordinário pensar nessa mudança. Eu própria tive de mudar. Durante muitos anos interessava-me pela fotografia, mas não era dominada por ela. Não a via como a principal forma de captar a atenção das pessoas. Hoje, penso que, sem imagens fortes, ninguém irá ler o que se escreve.

Como é o seu processo de escrita?

Nunca sei realmente, quando começo a escrever algo, o que vou acabar por dizer. Se dois designers muito diferentes apresentam coleções no mesmo dia, ou um imediatamente após o outro, isso pode dar origem a uma história interessante, porque oferece a possibilidade de falar sobre diferenças de estilo.

Estamos evidentemente a viver um período de grande turbulência global. Considera que o contexto sociopolítico influencia a forma como escreve?

Essa é uma boa pergunta. Não sei se influencia. Sinceramente, pensei que já não haveria guerras durante a minha vida. De certa forma, foram períodos como estes que inspiraram pessoas no passado. Mas, por outro lado, por vezes parece quase absurdo estarmos a dedicar atenção à Moda. Claro que existe o outro lado da questão: há tanta tragédia e pessimismo no mundo que oferecer um contraste a quem precisa de algum alívio perante as dificuldades da vida também é importante. É importante colocar as pessoas numa posição em que possamos ajudá-las a recuperar algum ânimo. Não quero reduzir tudo a uma divisão entre luz e escuridão. Não penso que o tipo de escritora que sou, nem o tipo de escrita que faço, deva funcionar apenas como distração. A ideia de escapar aos problemas do mundo existe na Arte há séculos. Há inúmeros exemplos de momentos em que a Arte serviu como um refúgio belo face a uma realidade terrível, é natural que a Moda faça o mesmo. Contudo, como temos vindo a dizer, hoje o mundo é diferente. A Moda é para todos e, por isso, a situação tem inevitavelmente de ser diferente daquela que existia há 20 ou 30 anos.

Enquanto crítica, onde traça o limite? Existe algo que não diria?

Bem, quando alguém se reforma ou falece, esse é o momento de destacar as contribuições positivas que esse designer trouxe ao mundo, em vez de insistir na crítica.

Há palavras que se arrependa de ter escrito?

Em certas ocasiões, fui talvez demasiado ligeira nas minhas críticas, quando deveria ter compreendido melhor o que estava realmente a acontecer. Quando vivia em Paris, enquanto trabalhava para o International Herald Tribune, pertencente ao New York Times, era um tempo diferente. Era mais jovem e talvez menos consciente de certas realidades do que deveria ter sido. Não penso que alguma vez tenha sido cruel, nem creio que as pessoas o tenham interpretado dessa forma. E, mais uma vez, tudo mudou imenso. Hoje temos celebridades a desfilar e a sentarem-se na primeira fila dos desfiles, vestidas com as coleções da estação ou da estação anterior. Essas pessoas não desempenham o meu papel. E talvez se limitem a dizer como a roupa é bonita. Sempre achei muito mais interessante falar sobre aquilo que penso do que escrever apenas sobre as roupas em si. Pergunta-me agora se alguma vez fui demasiado severa, ou se me arrependi. Talvez. Mas não penso que consiga julgar-me agora.

Paris alterou a forma como escreve?

Naquela época, França era verdadeiramente o único lugar onde se podia trabalhar em high fashion, mas era também um período em que Inglaterra tinha alguns dos designers mais entusiasmantes e inesperados. Muitas pessoas de diferentes países faziam questão de ir a Paris, mais do que a qualquer outro lugar, para se afirmarem.

Aprecio bastante as críticas que publica nas redes sociais, sobretudo no Instagram. Quando decidiu começar a partilhar os seus textos dessa forma?

As redes sociais transformaram tudo de forma dramática. Vivíamos num mundo que provavelmente hoje já nem seria compreendido, em que a maioria das pessoas nunca via aquilo sobre o qual eu escrevia. Agora acontece precisamente o contrário. Essa mudança é algo de que me recordo constantemente. O Instagram parecia algo novo e fresco; adorei a ideia de poder publicar instantaneamente, sem depender de terceiros para divulgar o meu trabalho. Essa rapidez parecia-me fascinante. Quando chegou a pandemia, o meu trabalho parou imediatamente, tal como aconteceu com tantas outras pessoas, e nessa altura a Moda ainda parecia um pequeno segredo que se podia partilhar com o mundo através do Instagram. Hoje isso soa absurdo, porque toda a gente está no Instagram, mas quando comecei parecia uma ideia mais original.

Como distingue a crítica da opinião?

Quando se é jornalista, é necessário manter alguma distância, caso contrário torna-se impossível desempenhar corretamente o trabalho. Houve designers de quem me senti mais próxima, mas isso aconteceu apenas porque estavam mais disponíveis ou mais interessados em conversar comigo, e penso que sempre compreenderam isso. No geral, acreditavam mais no facto de que poderiam receber uma crítica negativa ocasionalmente, mas também muitas críticas positivas. Quer tenha sido severa ou entusiástica, procurei sempre ser genuína naquilo que penso.

Como imagina a evolução futura do jornalismo de moda?

Não sei se faz sentido pensar demasiado no futuro. Seria inútil alguém como eu tentar compreender exatamente o que uma pessoa muito jovem pensa ao assistir a um desfile de Moda. Quando se trabalha nesta área, é necessário manter a curiosidade. Hoje, as jovens voltaram a usar saias muito curtas. Não sei porquê, mas agrada-me a ideia de que a Moda vive através da forma como as pessoas a sentem. Sabe, tenho um livro prestes a ser publicado no final do ano. Na verdade, é a primeira pessoa a quem conto isto, mas nos últimos 35 anos escrevi diários quase todos os dias. Naturalmente, não os verá todos, isso demoraria mais 20 anos, mas espero que neles estejam algumas das respostas às perguntas que me colocou. 

Originalmente publicado no Words Issue, a edição de junho de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui.

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