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Agosto 2019 | A Matter of Taste

Editorial 3. 9. 2019

Editorial Setembro 2019

by Sofia Lucas

 

"Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho a certeza absoluta." - Albert Einstein

Quando se edita o tão esperado September Issue, a edição referência da Vogue em todo o mundo, a que marca a rentrée e a que dita as novas tendências, sabemos que a tendência a ditar, antes de qualquer outra, é uma só: a urgência de mudarmos a forma como consumimos Moda, a forma como alimentamos os nossos estilos de vida, a forma como habitamos o nosso planeta. E não, não é uma tendência emergente, é uma emergência.

Já passámos a fase, demasiado longa, de ser trendy uma espécie de pseudo-altruísmo, porque já não se trata de salvar espécies em extinção, ou até o próprio planeta, mas sim de salvarmos a nossa própria existência. A Terra não precisa de ser salva, existe há 4,5 bilhões de anos, sobreviveu a embates de asteróides, eras glaciares, todo o tipo de catástrofes naturais, e estará aqui muito tempo depois de nós termos desaparecido. Nós, a espécie humana, provavelmente a catástrofe natural mais antinatura que alguma vez passará pela Terra. Houve cinco Grandes Extinções e, na mais grave de todas, a extinção Permo-Triássica há 252 milhões de anos, cerca de 90 a 95% de todas as espécies foram eliminadas. A mais recente, desencadeada por um asteróide há 65 milhões de anos, destruiu cerca de 75% de todas as espécies, incluindo os dinossauros. Mas a vida continuou. Como continuará após a Sexta Grande Extinção - como já se chama ao culminar do que o ser humano tem vindo a causar, cada vez com mais empenho. Proteger a vida na Terra, incluindo a nossa própria espécie, requer uma transformação radical em toda a sociedade: acordar consciências é saber que temos de parar de ser a maior "erva daninha" do Planeta. Já. Agora.

Amazónia, o centro do Mundo. Vítima de uma invasão europeia há 500 anos, com uma forma particularmente destruidora de civilização colonizadora, causando a morte a milhares de homens e mulheres indígenas e a extinção de dezenas de povos. Somos a civilização dominante, que quanto mais "civilizada" menos desculpa pode ter. Meio século depois, agora mesmo - quando já não existe à face da Terra um único indivíduo não "colonizado", não "civilizado", não informado e consciente da ameaça de um colapso climático, da importância real da Amazónia enquanto balão de oxigénio de todo o planeta -, um novo poder instalado no Brasil incendeia a floresta, a casa de todos nós, por interesses económicos. Se uma companhia aérea low cost decidisse retirar todas as máscaras de oxigénio e coletes salva-vidas dos seus aviões por questões de gestão de peso e contenção de custos seria, para além de ilegal, um perigo para a segurança dos passageiros, indignante e grave. A analogia à desflorestação da Amazónia pode parecer ridícula, mas igualmente ridículos são os motivos por detrás versus as consequências de uma gravidade e proporções catastróficas, a nível global. As imagens de satélite transmitem a magnitude dos incêndios na Amazónia, que aumentaram mais de 80% em relação ao ano anterior, com metade deles iniciada no último mês. Embora os fatores que levaram aos incêndios sejam complexos, a indústria de calçado bem como o consumo de carne proveniente da América do Sul são parcialmente responsáveis. O Brasil fornece atualmente cerca de 22% das exportações mundiais de couro, maioritariamente para a indústria do calçado em Itália. À medida que a demanda por carne bovina e couro crescem, os fazendeiros queimam áreas de fl oresta para abrir espaço para mais vacas. A barbaridade da desflorestação assenta sobretudo num grande grupo económico e no poder governamental brasileiro que, por razões económicas óbvias, incentiva e protege a destruição massiva. Para muitos, as cenas horríveis podem parecer pertencer a um universo distante, como distantes e intocáveis parecem os responsáveis. Mas não é bem assim. Todos contribuímos e alimentamos em cadeia estas ações destruidoras que nos indignam, porque somos, todos nós, a procura que alimenta esta oferta destrutiva. Ferramentas para melhorar a transparência da cadeia de suprimentos, como a Trase, da Global Canopy, estão a ficar disponíveis online. A organização sem fins lucrativos Textile Exchange também está a trabalhar numa ferramenta de Avaliação de Couro Responsável. Atualmente, a terra limpa é mais comercialmente valiosa do que a floresta – portanto, somente com um incentivo real para os agricultores protegerem a floresta é que o planeta permanecerá intacto.

Na semana passada, 32 grandes empresas da indústria da Moda assinaram um pacto que inclui o compromisso de proteger a biodiversidade. A Amazónia, que possui um quarto da biodiversidade mundial da Terra, será vital neste esforço. A própria indústria do couro também procura alternativas, o couro vegan é cada vez mais popular entre os consumidores. E alguns ambientalistas, como Christian Poirier, da Amazon Watch, estão a planear boicotar todo o couro de origem brasileira. Muitos passos estão a ser dados na direção certa, mas cabe-nos a nós acelerá-los. O prazer que tiramos dos nossos sapatos made in Italy ou de picanha num dos nossos restaurantes favoritos não tem de ser abolido, só tem de ser suspenso e questionado até à exaustão, até que a origem de tudo possa retomar o equilibrio justo que nós, e a nossa própria sobrevivência, precisam de repor num planeta desiquilibrado pelo consumo desenfreado.

Já não basta reagir com corações partidos nos comentários nas redes sociais, mas usá-las para partilhar informação relevante, que promova a transparência e exponha as fontes e origens nada sustentáveis do que, tantas vezes, nem sabemos estar a consumir. Antes de comprarmos, todos nós olhamos para a etiqueta do preço. Devemos começar a olhar bastante mais além e exigir "etiquetas" que mostrem muito mais do que um preço, mas uma transparência absoluta que passa pelo compromisso da marca, connosco, consumidor final, e planeta. Devemos exigir, consultar e questionar toda a informação, seja na etiqueta, seja nos sites das marcas. 

É a nossa consciência, na hora de consumir, que tem o poder de reduzir poluição, desperdício, repor justiça e ética em toda a cadeia de produção, da base até ao cume que nos parece distante e imutável, assente nos grandes grupos económicos e no poder governamental. E aí, sim, estaremos a por o poder no sítio certo, na base de uma pirâmide de consumo, que somos todos nós, todos os dias.

Cada um de nós pode mudar o futuro. O futuro que já começou neste ponto final.

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