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Curiosidades 2. 10. 2019

Sustentabilidade e bom senso

by Ana Murcho

 

A culpa é de Orson Welles e do dia em que Marte não atacou. Depois disso, o mundo tornou-se permeável a uma série de catástrofes que afinal não matam, só moem. Pequeno guia de mitos eco-friendly, porque as notícias estão cada vez mais cheias de factos por verificar. 

© Getty Images

Os americanos que, na noite de 30 de outubro de 1938, julgaram estar perante o apocalipse sabem melhor do que qualquer millennial o que é viver, na pele, a amplitude de uma fake news. Naquela véspera de Halloween, uma das datas mais celebradas do calendário, uma emissão de rádio com projeção nacional (CBS) gerou o terror nos Estados Unidos. Ou assim reza a lenda. Pelas 20h, um jovem dramaturgo com pouco mais de 20 anos, Orson Welles e uma equipa de atores e técnicos davam início à adaptação radiofónica do clássico de ficção científica de H.G. Wells, A Guerra dos Mundos, que relata uma violenta invasão do planeta Terra pelos marcianos. O caráter realista da encenação, inserida no programa Mercury Theatre On The Air, levou a que muitos ouvintes pensassem estar perante o relato, em direto, de um ataque marciano. Apesar de começar com a apresentação do romance de Wells, originalmente publicado em 1898, e de terminar com a nota de que tudo não passava de entretenimento, a versão radiofónica de A Guerra dos Mundos mais parecia um noticiário que contava, em detalhe, a aterragem de uma força invasora e a destruição dos Estados Unidos. Em menos de nada, o pânico instalou-se - muitos juraram a pés juntos ver luzes suspeitas no céu, outros sentiram o cheiro de gases venenosos e, perante tamanha impotência, desmaiaram.

No dia seguinte, as primeiras páginas dos jornais um pouco por todo o mundo faziam referência ao conflito que nunca chegou a acontecer - no Daily News, por exemplo, podia ler-se “Falsa guerra radiofónica espalha terror pelos EUA”. Mas será que o histerismo relatado pelos media da época corresponde ao medo real sentido pela população? Durante décadas consolidou-se a lenda de que o programa, com cerca de uma hora de duração, sem interrupções para publicidade, e acompanhado de uma banda sonora exímia em sugerir as emoções dos ouvintes, "provocou suicídios em massa” e “encheu as estradas, as esquadras de polícia e os hospitais.” É quase impossível medir a dimensão do alarme na noite de transmissão, se pensarmos que em 1939 a tecnologia era ainda bastante escassa, mas sabendo-se que pelo menos 12 milhões de pessoas ouviram o programa de Welles, e que a rádio, naqueles dias, “não era apenas um ruído no bolso de alguém, era a voz da autoridade”, como referiu depois o próprio cineasta, é bem provável que qualquer cidadão que tivesse perdido as explicações dos primeiros minutos tenha entrado em transe. Foi há pouco mais de um século. Hoje os mitos são outros, e descobrem-se a cada novo post, mas a novela radiofónica de Orson Welles (que mais tarde se afirmaria como um dos nomes mais importantes da história do cinema) é um bom exemplo de como um grupo de cidadãos pode ser facilmente levado a acreditar em algo que à partida desconhece. Não, não é um trocadilho com o nosso admirável mundo novo do século XXI (se bem que ainda hoje se dediquem estudos aquela noite de Halloween), antes um alerta de que mesmo com as devidas distâncias, somos todos um pouco americanos no que toda a acreditar em coisas que vemos disseminadas nos media.

“É a sustentabilidade, estúpido”. Deveria ser simples, mas não é. Nunca é. Estamos acostumados a falar de sustentabilidade como quem fala de um primo afastado, que nunca conhecemos pessoalmente - um primo que sabemos ser importante para a nossa mãe, a nossa avó, e cuja imagem apenas distinguimos das fotografias nos álbuns de família; sabemos que ele está sempre connosco, é parte de nós, só não sabemos bem como. É mais ou menos o mesmo com a sustentabilidade. Que fazer com ela? Como trazê-la para o nosso dia-a-dia? Parece um bicho de sete cabeças só que, na verdade, nenhum de nós precisa de ser tornar especialista em energia renovável para praticar uma vida (mais) consciente. Convém, contudo, saber que nem tudo o que se diz por aí é verdade. Um exemplo? A ideia, repetida incessantemente nas últimas décadas, de que a moda é a segunda indústria mais poluente do mundo. Não é. Não é? Não. E agora? Agora, espalhamos a palavra. Alden Wicker é jornalista, e há muito que investiga os meandros disto a que agora chamamos de sustainable fashion. Foi ela quem primeiro questionou a origem desse facto-consumado, o que colocava a moda como inimigo público número dois do planeta (dados concretos, reunidos por Wicker, colocam a moda em nono lugar, atrás da agricultura, do turismo e da produção de cimento). O seu trabalho foi reconhecido em dezembro passado, quando o jornal The New York Times publicou um artigo chamado The Biggest Fake News in Fashion (as maiores fake news da moda), onde declara de uma vez por todas que “não é factualmente verdade” que a moda, por mais nociva que seja em termos ambientais, ocupe o segundo posto na lista das indústrias mais poluentes. E agora, em que ficamos?

"Acho que um dos maiores equívocos sobre sustentabilidade é que podemos resolvê-lo mudando para todos os materiais sustentáveis. Não há materiais sustentáveis suficientes disponíveis no mundo para isso." Alden Wicker

Melhor: porque é que isto interessa? Porque é verdade, ou porque a Moda deixa de ser a má da fita? A palavra a Alden Wicker, que respira sustentabilidade... e sensibilidade. “Comecei a pesquisar e a escrever sobre moda sustentável em 2011, quando o movimento de alimentos estava a ganhar publicidade nos Estados Unidos. Queria saber se também importava [saber] de onde vinha a nossa roupa, e não apenas a comida. Mais ninguém estava a escrever sobre isso. Eventualmente, quando comecei a escrever para grandes publicações que exigem verificação de factos, percebi que não conseguia encontrar uma fonte para esse facto [a Moda ser a segunda indústria mais poluente do planeta]. Então decidi rastreá-lo e escrevi um artigo desmascarando isso.” Por outras palavras, ninguém conseguia dizer com base em factos concretos porque é que a Moda era a segunda indústria mais poluente do planeta. As pessoas aceitavam-no porque era algo repetido por várias instituições, ano após ano. Era uma situação como a do ovo e da galinha. “Acho que simplesmente não há pesquisas sérias a serem feitas sobre este assunto. Precisamos de algum tipo de facto para transmitir a seriedade da situação, e essa é chocante e memorável. Além disso, os jornalistas de moda, os influenciadores e os ativistas não costumam confirmar os factos. E quando alguém refere que [algo] não é verdade, eles ficam na defensiva e tentam dizer que não importa o quão má [determinada coisa] é, porque sabemos que é má. Mas importa. Estamos em plena crise e precisamos direcionar a nossa vontade política e os nossos recursos para ações que serão eficazes e ajudarão realmente a salvar o mundo. Vidas estão em jogo. Além disso, como é que as pessoas nos podem levar a sério se dissermos que os factos não importam? Não é de admirar que os ativistas de Moda estejam a ser ignorados!” Ou seja, é preciso saber quão danosa é a Moda, e as outras indústrias, para encontrar as soluções condizentes com cada uma delas.

Como quase sempre acontece nestes casos, quanto mais escavou, mais encontrou. “Acho que um dos maiores equívocos sobre sustentabilidade é que podemos resolvê-lo mudando para todos os materiais sustentáveis. Não há materiais sustentáveis suficientes disponíveis no mundo para isso. Neste momento, o algodão orgânico representa menos de 0,5% (ou 0,5% em termos europeus) da produção total de algodão. Existem barreiras significativas enfrentadas por um agricultor que queira ser orgânico, precisam de apoio financeiro sério, não apenas de marcas, mas de governos. O algodão com certificado BCI [Better Cotton Iniciative] é um passo na direção certa, porque se encontra com os agricultores onde eles estão e os ensina a ser o mais sustentáveis, saudáveis e seguros possível, sem pedir que corram o risco financeiro de passar pelo processo de conversão de três anos para o orgânico. Da mesma forma, se trocássemos todos os tecidos de rayon [seda artificial] por tencel, isso teria consequências indesejadas. Ou se trocássemos todo o poliéster virgem pelo poliéster reciclado. O problema real é o volume de produção. Enquanto estivermos produzindo e consumindo esta quantidade de moda e enviando-a para os aterros, nenhuma quantidade de ajustes com o material resolverá o problema.”

Pausa. Isso recorda-nos do plástico e a pele, os bad guys do momento. São assim tão nocivos? “Bom, o irónico é que quando as pessoas deixam de usar pele verdadeira, elas estão a mudar para alternativas plásticas ou sintéticas de peles falsas. No grande esquema das coisas, a pele não é assim tão má para o meio ambiente. Um casaco comprido de vison é bastante intenso, pela quantidade de recursos necessários para criar os visons. Mas os casacos de pele de coelho e os acessórios que são mantidos por muito tempo têm, no geral, um impacto ambiental menor do que o acrílico ou o poliéster da pele falsa, que se destina a ser guardado apenas por um par de anos. E a pele é apenas uma parte minúscula da indústria da Moda global. É tão insignificante que os pesquisadores o excluíram dos seus cálculos da pegada da indústria da moda.” Não, isto não é uma fake news. É um ponto de vista. “O plástico, pelo contrário, é um problema enorme, e crescente. Cada um de nós está a respirar e a beber microfibras sintéticas que se desprenderam das nossas roupas sintéticas. Elas estão nas entranhas da vida marinha e atraem toxinas ao longo do caminho. De acordo com o relatório Pulse of the Fashion Industry, os sintéticos têm um impacto menor do que o couro, mas isso supõe que, se abandonarmos o couro, a produção de gado e todos os seus efeitos nocivos diminuiriam ou parariam. Só que isso não é verdade. Porque muitos consumidores estão a mudar de couro real para couro falso, a produção de poliuretano está a aumentar, enquanto o couro está a ser deixado nos aterros ou queimado. Esse cálculo também não inclui a toxicidade da produção e o que acontece com materiais sintéticos versus materiais de couro depois que deixamos de os usar, ou quanto tempo eles duram. Sintéticos nunca serão biodegradáveis. Ou, se o forem, demorarão pelo menos 500 anos.” Se chegou até aqui não mande já para a reciclagem os seus manuais de sustentabilidade. Nem tudo está perdido só porque há quem defenda diferentes formas de abordagem de uma vida eco. Isto são apenas novas versões dos factos. E nós já sabíamos que os factos são, não raras vezes, uma enorme zona cinzenta.

Resumindo. Há centenas de problemas. Há centenas de soluções. Não é a carne, nem tofu, nem o desodorizante com e sem álcool, nem o leite de amêndoa, nem o bacalhau. É o excesso. É a produção desenfreada, em massa. É o consumo excessivo, descontrolado. De volta à Moda, onde os mitos se propagam à velocidade de cada tendência. Somos levados a acreditar que as marcas de luxo são eticamente superiores às marcas de fast fashion. Só que nem tudo o que reluz é ouro. Carry Somers, uma das fundadoras da organização não governamental Fashion Revolution, salienta isso mesmo. “Em primeiro lugar, é importante dizer que ser transparente não significa necessariamente agir de forma ética e sustentável. Uma marca pode publicar uma quantidade considerável de dados sobre as suas práticas e políticas, e ainda ter más condições de trabalho e degradação ambiental nas suas cadeias de fornecimento e, inversamente, as marcas podem estar a fazer todo o tipo de coisas nos bastidores e não escolher falar deles publicamente. No entanto, é importante ressalvar que grande parte do luxo produzido em massa pode ser feito exatamente nas mesmas linhas de produção que a fast fashion, a diferença é o mark-up (termo usado em economia para indicar quanto, do preço, do produto está acima do seu custo de produção e distribuição), ou seja, as condições em algumas marcas de luxo não são necessariamente melhores. Produzir na Europa não é garantia de melhores condições de trabalho. Ainda há dias li um relatório sobre trabalhadores de vestuário em Manchester, no Reino Unido, onde os maquinistas ganham apenas quatro libras por hora, menos de metade do salário mínimo nacional." Nenhuma destes intervenientes é, de repente, o bom ou o mau da fita. São apenas novos personagens n’A Guerra dos Mundos que diariamente difundimos na nossa rádio de projeção universal. Mantenha-se atenta/o.

Artigo originalmente publicado na edição de setembro da Vogue Portugal.

 

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