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Solitaire, parte II

Entrevistas 14. 2. 2018

Solitaire, parte I

by Beatriz Silva, de 24 anos.

 

"Nunca houve geração tão sozinha", diz-se, agora, como se dizia há cinquenta anos. Mudam-se os tempos, mantêm-se as vontades de estar só no meio da multidão? A Vogue baralhou as cartas e deu-as a dois jornalistas, Beatriz Silva e José Couto Nogueira, e à designer gráfica e ilustradora Wasted Rita, pseudónimo para Rita Gomes. Esta é a sua de definição de solidão. *

Wasted Rita, na Vogue Portugal de dezembro 2017. 

Um Nokia 3310, azul, quase indestrutível, com teclas e o icónico jogo Snake deu-me o meu primeiro contacto real com a tecnologia (o walkman e o discman não contam). Já tinham passado alguns anos desde o seu lançamento, é certo, mas, naquela altura, para uma miúda de onze anos, ter um telemóvel era algo demasiado cool, fosse ele qual fosse. Corria o ano de 2004, Britney Spears tinha decidido fazer uma pausa na carreira para começar uma família com Kevin Federline, Nicole Ritchie e Paris Hilton eram BFFs, o filme Mean Girls chegava às salas de cinema, usávamos calças de cintura descaída e capri pants, queríamos mostrar o umbigo 24 sobre 24 e o Facebook era lançado — mas isso eu ainda desconhecia, até porque o hit do momento ainda era o MSN Messenger. Hoje, tudo isso são #throwbacks, trocámos as teclas por ecrãs táteis e o Facebook fez amigos — mais de 2 mil milhões, para ser exata — e eu já estive entre eles. Pormenores.

Como boa 90s kid, o meu destino estava traçado desde o dia em que nasci: sou uma millennial, da Geração Y (tal como quem nasceu entre 1980 e 1996, mesmo esta última data não sendo consensual). Neta dos baby boomers, filha dos X, sou um grão de areia da era digital, condenada a estar rodeada de tecnologia. Não que esteja a queixar-me. Os meus dedos correm o feed do Instagram como ninguém e fazem de mim parte da geração mais conectada de sempre (via wifi, claro). E quem diz mais conectada, diz também mais solitária, de acordo com uma série de estudos que têm sido revelados sobre o uso de redes sociais. A investigação do American Journal of Preventive Medicine é um deles e revelou que estar mais de duas horas por dia no Facebook, Twitter ou Snapchat pode duplicar a sensação de isolamento. A expressão “sozinho no meio da multidão” diz-lhe alguma coisa?

Sem nos darmos conta, quando fazemos login no mundo virtual, fazemos também logout do mundo real e o resultado disso são mais amigos no Facebook e, claro, menos no mundo real. É como se nos ligássemos, desligando-nos. À Vogue Portugal, a psicóloga clínica Joana Florindo explica que “não podemos ignorar o facto de vivermos numa era que parece privilegiar a quantidade em prol da qualidade, seja de trabalho, de tarefas, de bens ou ainda de amigos e de partilha nas redes sociais, o que tende a facilitar e a alimentar esse desligamento”.

Quando a ligação à Internet é perdida, a ansiedade social ataca qual choque elétrico. Somos obrigados a socializar, a manter uma conversa, a fazer perguntas e a inventar respostas (e nem falemos de fazer conversa de circunstância, o equivalente a um filme de terror da socialização). As redes sociais oferecem-nos uma falsa sensação de estarmos acompanhados, mas sem essa parte chata de ultrapassar as barreiras da intimidade. “O contacto acontece por intermédio de um clique, é simples, rápido, eficaz, manifesta-se uma intenção ou um sentir através de um breve comentário ou de um emoji” — ressalva a psicóloga. É mais fácil. E, o melhor, mostramos apenas aquilo que queremos, omitindo o que nos incomoda. O smartphone torna-se numa espécie de esconderijo onde armazenamos complexos e inseguranças, encolhemos ancas largas, diminuímos narizes, atenuamos olheiras e sugamos barrigas. Mesmo sem querer admitir, os likes funcionam como uma espécie de palmadinha nas costas, como quem diz “estás a ir bem”. O problema é que esta não deixa de ser uma realidade virtual e, quando bloqueamos o smartphone, o que resta, muitas vezes, é uma sensação de vazio que filtro algum ajuda a preencher.

É o chamado estar sozinho estando juntos, que é também o mote de Alone Together: Why we should expect more from technology and less from each other, o livro onde Sherry Turkle, um nome incontornável quando se fala de relações humano-tecnológicas, explora a nossa tentativa de construir e manter relações através da tecnologia, mas também de nos protegermos das mesmas. É que, atrás de um ecrã, temos o poder de responder o que queremos, quando queremos e também de ignorar quem queremos manter distante. As mesmas redes também nos dizem tudo o queremos saber, desde quem casou, quem viajou para Bali ou quem tem um novo emprego, o que vestir, uma cortesia das mil e uma influencers digitais, e o que comer — agora, somos quase todos vegan e só compramos se for gluten free, sugar free e outros tantos free.

Esprememos o que está #trending como um limão e, quando o sumo acaba, é hora de passar para a próxima tendência. Vivemos a um ritmo alucinante e, se hoje a funcionalidade do superzoom do Instagram Stories é a big thing, amanhã, já nos irrita. E o mesmo acontece com quem seguimos e com quem nos segue. Há uma pressão social (e por vezes imaginária) para nos mantermos interessantes, que é como quem diz mais “seguíveis”. Queremos mais likes, mais seguidores, mais partilhas, mais aceitação, mas isso nem sempre resulta, porque, quando temos mais... Queremos mais ainda. Costuma dizer-se que nunca estamos satisfeitos, não é? A instagrammer espanhola Celia Fuentes serve de exemplo. No dia em que se suicidou, partilhou uma fotografia em roupa interior Calvin Klein que chegou aos 26 mil likes. A suposta vida de sonho, com direito a convite para eventos e viagens e um cachet apetitoso por cada fotografia partilhada, não fazia prever que, por detrás da objetiva, estava uma rapariga triste e depressiva, que já tinha tentado suicidar-se duas vezes. A busca pelas poses perfeitas demorava horas, a dieta era restrita e vivia obcecada em parecer perfeita aos olhos das marcas a que se associava. Numa das últimas conversas que teve pelo WhatsApp revelou a uma amiga que a sua conta de Instagram não passava de uma fachada. Afinal, não foi por acaso que um inquérito da Royal Society For Public Health catalogou o Instagram como a pior rede social para a saúde mental.

Instagram mata. A fazer lembrar um maço de tabaco, o aviso poderia estar incluído na descrição da aplicação na App Store, antes de a descarregarmos; mas não vamos ser fatalistas. Recordando os estudos, não tenho reservas em assumir que faço parte do grupo de pessoas que passa mais de duas horas por dia a fazer scroll numa rede social. Arrisco-me a dizer que o faço mais de metade do meu dia. Confesso também que já omiti uma anca larga (#quemnunca) e sinto uma leve obsessão com as cores do meu feed — mas, nisto, culpo o meu, também leve e não diagnosticado, DOC. E o pior dos meus pecados virtuais: já ignorei amigos.

 

O motivo? Façam soar os tambores... Queria estar sozinha. Não no sentido literal potencialmente preocupante da palavra ou por sentir-me socialmente ansiosa, insegura ou querer isolar-me, mas sim porque as redes sociais são um fantástico entretenimento. Sai da frente, Keeping Up With the Kardashians. Ao invés de fazer zapping na televisão, salto de perfil em perfil, deslizo de feed em feed. Será assim tão diferente? Eu chamo-lhe avanço tecnológico. E não nos esqueçamos da quantidade de histórias inspiradoras que são partilhadas diariamente nas redes sociais, não só de pessoas que não conhecemos, mas também de figuras que são modelos (a seguir) no verdadeiro sentido da palavra. Como a modelo plus-size Ashley Graham, que fez crescer o movimento #BeautyBeyondSize, ao encorajar mulheres de todo mundo a sentirem-se bonitas independentemente do seu peso. Ou a modelo muçulmana Halima Aden, que está a ajudar a redefinir padrões de beleza e já provou, entre outras coisas, que um hijab pode muito bem ser usado com brincos. Ou a modelo brasileira Paola Antonini, que, nem depois de perder uma perna num acidente e de a substituir por uma prótese mecânica, deixou de usar minissaias e sapatos com salto. A lista podia continuar e até há estudos, como o mais recente, da Universidade de Drexel, em Filadélfia, que dizem que o Instagram pode ajudar a combater a depressão. Há sempre dois lados da moeda, não é verdade?

O truque pode passar por não deixar que os likes lhe subam à cabeça. Se isso não resultar, pode sempre fazer um detox digital e voltar ao recém-renovado Nokia 3310.  

Artigo originalmente publicado na Vogue Portugal de dezembro 2017.

 

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