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Tendências 19. 3. 2019

Será que utilizamos demasiados produtos de skincare?

by Catarina Parkinson

 

Não queremos lançar o pânico mas a paixão por produtos de skincare pode ter consequências desagradáveis que não afetam só a conta bancária. Podemos estar a cansar e a irritar a Beleza da pele, sufocando-a com as dezenas, vá centenas, de cuidados que consideramos indispensáveis. Prepare-se, isto é uma intervenção. 

 © Getty Images

Estamos todos obcecados com skincare. Tantantantannnn. Ok, isto não é nenhuma novidade. Algures entre o crescente movimento de autoaceitação, a popularização do conceito de self-care e a massificação da rotina de Beleza coreana (que envolve 10 ou mais passos), os cosméticos multiplicaram-se como cogumelos selvagens e preencheram as nossas prateleiras, mesinhas de cabeceira, carteiras, nécessaires e tudo mais. Explicar como chegamos até aqui seria tão complexo como tentar explicar o aquecimento global a Donald Trump. Talvez tenha sido a vontade de deixar de usar maquilhagem apenas como um escudo para as nossas inseguranças e o desejo de celebrar a nossa Beleza natural que nos tenha levado numa viagem pela toca do coelho até ao mundo encantado dos produtos para a pele. Ou então o facto de aos poucos e poucos aceitarmos o envelhecimento como um processo natural da nossa existência. Claro que isso não significa que tenhamos de deixar a nossa aparência ao deus-dará e deixar o tempo (e todas as outras coisas que provocam rugas) tomar conta dela.

Na tentativa de encontrar um feliz meio-termo, procuramos nos produtos de skincare a segurança e o conforto de que, dentro do possível, estamos pelo menos a melhorar as probabilidades de continuar satisfeitos com ela. Cuidar da pele – desde as mais simples rotinas de três passos aos mais complexos tratamentos faciais especializados – deixou de ser algo superficial e passou a representar um ato de amor-próprio. Investir na sua saúde e bem-estar, com todos os cremes que isso envolve, significa que nos preocupamos. Mas, e fazendo um bocadinho o papel de advogado do diabo, será que nos tornamos pequenos monstrinhos de skincare, obcecados por descobrir os ingredientes mais potentes (ou mais inusitados), os séruns mais eficazes, as máscaras mais hidratantes ou os cremes mais “aplique para uma pele radiante”? Na dúvida, e com tanta oferta disponível, acabamos por pensar que mais vale jogar pelo seguro e experimentar tudo (sublinhar tudo) aquilo que está ao nosso alcance. A dermatologista Paula Quirino conhece bem esta realidade. “Uma pesquisa no Google pelo termo antirrugas devolve 75 milhões e 100 mil resultados. O consumidor tem dificuldade em fazer escolhas e tenta utilizar o maior número possível de produtos na tentativa de obter o melhor resultado”, partilha com a Vogue.

"Com o passar do tempo, a pele pode tornar-se sensível ou irritada quando se usam demasiados produtos."

Este é o momento em que estragamos um bocadinho a festa. Como tudo na vida, o excesso raras vezes faz bem. Tudo o que é em demasia pode ser (ou é) contraproducente. O que queremos dizer, ou perguntar, é se alguma vez lhe passou pela cabeça que poderia estar a aplicar cremes, séruns, loções, boosters e todos os outros cuidados que prometem ajudar a conseguir uma pele bonita a mais. Alguma vez parou para pensar que os 15 minutos que passa todos os dias (de manhã e à noite) a fazer aqueles milhares de passos da sua rotina planeada ao pormenor não são um overkill, ou em bom português, um exagero? É certo que as peles sensíveis e mais reativas são as mais suscetíveis a estes perigos, mas mesmo as peles normais a mistas podem vir a “sofrer” com esta prática. A especialista em saúde da pele Jasmina Vico explica que, com o passar do tempo, a pele pode tornar-se sensível ou irritada quando se usam demasiados produtos. “Isto acontece porque a maior parte dos produtos penetra na pele, mas poucos são absorvidos por ela. Quando são usados muitos destes tipos de produtos (que apenas penetram na pele), eles podem causar-lhe stress. É preciso recordar que a pele é o maior órgão do corpo humano e que, por isso, tem o seu próprio sistema de eliminação, muito eficaz a cuidar do corpo. Sobrecarregar este sistema com muitos produtos pode provocar o seu desequilibro”, esclarece. As reações são idênticas às que sentimos quando experimentamos um produto com algum ingrediente nocivo para a pele. “Surgem sintomas de eczema de contacto irritativo e/ou alérgico em que a pele fica vermelha, inchada, com pequenas bolhinhas que dão muita comichão. Depois fica seca e com impigens, que são zonas de pele vermelha com um bordo a descamar”, partilha Paula. 

Ter uma reação negativa a determinado produto (ou ingrediente) até é fácil de compreender. Agora descobrir que a nossa pele está descontente (e até literalmente irritada) com a quantidade de produtos que lhe estamos a aplicar já é mais estranho de conceber. Não é que eles conspirem contra nós ou gostem de nos deixar confusas. É porque, simplesmente, nem todos se dão bem. Como Paula explica, um cosmético é um produto complexo que tem um princípio ativo que é a substância que vai ao encontro do que procuramos num creme, seja ele um protetor solar, antirrugas ou antimanchas. Mas, para além disso, tem 10 a 20 outras substâncias, que são os excipientes, e qualquer uma delas pode ser responsável pela irritação da pele. É um bocado como diz a lengalenga: se um elefante incomoda muita gente, 10 elefantes incomodam muito mais. Agora, imagine, se aplicar cinco produtos (no mínimo!) por dia na cara, quantos ingredientes é que não estão a “tentar” conviver na sua pele. Às vezes até podem não ser os ingredientes ativos em si, mas a consistência das fórmulas que escolhemos aplicar. Para Andrea Hollaender, formadora da marca de cosméticos Mesoestetic, é possível sobrecarregar a pele com substâncias e texturas inadequadas. “Por exemplo, uma pele que já tenha o seu estado misto ou mesmo oleoso, se utilizar texturas creme, poderá desencadear um episódio de acne, uma vez que esta textura tem uma componente mais oleosa”, explica Andrea. 

"Temos um novo mantra de skincare: menos é mais e mais caro não significa melhor."

Assim que nos apercebemos que estamos a ter algum dos sintomas referidos acima, Paula recomenda como plano de ação suspender a aplicação de todos os cosméticos durante pelo menos um mês. “Durante cerca de um mês, fazer a limpeza da pele apenas com água morna ou fria, água termal ou água termal micelar para peles intolerantes, conforme os casos, e aplicar um creme hidratante com o mínimo possível de componentes (sem perfume, conservantes e nenhuma substância antienvelhecimento ou antimanchas por exemplo). Mesmo o protetor solar deve ser evitado pois é um produto complexo que, quando a pele está irritada, não o tolera – por isso a exposição ao sol tem que ser evitada”, acrescenta. Jasmina também aconselha regressar imediatamente aos cuidados básicos (o mínimo e indispensável) e considera importante procurar ajuda de um profissional assim que possível. “Explique a sua rotina, os produtos que tem usado e há quanto tempo os está a usar. Não deixe nenhum detalhe de fora. Explique também o seu estado geral de saúde e bem-estar. É importante saber sobre o seu estilo de vida. Todos estes fatores contribuem para a reação da pele aos produtos. Por exemplo, hormonas e a dieta alimentar estão fortemente ligados com a forma como a pele reage aos produtos.” 

A grande solução para este imbróglio de produtos que tanto gostamos de usar, também pode estar na ideia de incorporar a abstinência na rotina de cuidados. Recentemente, o site Man Repeller introduziu o conceito de jejum da pele. O principal objetivo, como todos os outros tipos de jejuns, é desintoxicar a pele e estimular o seu mecanismo a encontrar o seu próprio equilíbrio. Inspirado nos segredos da beleza japonesa (que surpresa – #sóquenão) e recomendado pela autora e especialista em estética Chizu Saeki, no livro The Japanese Skincare Revolution, o jejum implica não aplicar um único produto (apenas lavar o rosto com água) e poderá ser feito uma vez por semana de forma regular ou durante mais dias mais esporadicamente. Acima de tudo, este pode ser um gesto essencial para conseguir “ouvir” a pele e deixá-la respirar. Descobrir as suas verdadeiras necessidades, muitas vezes perdidas ou mascaradas no meio de tantos produtos de skincare. A autora escreve ainda que a eficácia de qualquer produto depende maioritariamente da forma em como ele é usado e não da qualidade do produto em si. Temos um novo mantra de skincare: menos é mais e mais caro não significa melhor.

 

Artigo originalmente partilhado na edição de março de 2019 da Vogue portugal.

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