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Entrevistas 29. 4. 2020

Shira Haas: “É raro encontrar protagonistas femininas tão poderosas.”

by Radhika Seth

 

“Há pessoas em todo o mundo que dizem relacionar-se com a Esty, que choram por ela e que ela os lembra dos próprios traumas.” A protagonista do novo sucesso da Netflix, Unorthodox, conversou com a Vogue sobre a fama instantânea, a vida durante este confinamento e como é que foi rapar o cabelo no primeiro dia de rodagem. 

© Sherban Lupu 

Poucos são aqueles que merecem um sucesso mundial instantâneo como Shira Haas. A atriz israelita ganhou grande destaque em março passado após a sua interpretação esmagadora de Esther ‘Esty’ Shapiro na minissérie Unorthodoxda Netflix. A série, de quatro episódios, é inspirada no memoir de Deborah Feldman, Unorthodox: The Scandalous Rejection of My Hasidic Roots (2012), e conta-nos a fuga de Esty de uma comunidade judaica ultraortodoxa em Brooklyn para Berlim, onde vive a sua mãe com quem, há muito tempo, tem uma relação conturbada.  

Filmada numa mistura de ídiche, inglês e alemão, esta história vê Esty a adaptar-se a uma vida sem crenças espirituais e a fazer amigos num conservatório de música, onde acaba por tocar piano e cantar - coisas até então proibidas na vida que levava em Williamsburg, Brooklyn. Mas, a liberdade, recém-conquistada, é depressa ameaçada quando o seu marido, Yanky Shapiro (Amit Rahav), e o primo, Moishe Lefkovitch (Jeff Wilbusch), chegam à capital alemã determinados a encontrá-la. 

Com apenas 24 anos, Haas conta já com um CV invejável, tendo participado na estreia de Natalie Portman como realizadora, em A Tale of Love and Darkness (2015), já trabalhou com Jessica Chastain, em The Zookeeper’s Wife (2017) e conquistou um prémio Ophir - o equivalente ao Óscar em Israel - pelo seu papel em Noble Savage (2018). Unorthodox tornou-se rapidamente num sucesso global, a uma escala jamais imaginada. À medida que o sucesso, em torno desta série, continua a crescer, Haas falou com a Vogue, a partir da sua casa, em Tel Aviv.  

Unorthodox é um projeto único. Qual foi a primeira impressão que teve ao ler o guião?
No início, recebi apenas algumas cenas que faziam parte de um guião para uma série chamada The Orchestra. Ninguém me contou qual era o verdadeiro nome da série, nem que era baseada num best-seller ou que era para a Netflix. Era tudo segredo. Lembro-me de ler o guião pela primeira vez e pensar o quão incrível era [esta história] e de me afeiçoar muito à personagem. Só depois de algumas etapas, e dos produtores e a realizadora me virem visitar a Israel, é que percebi que não era apenas uma grande história, mas sim um grande projeto.  

Na personagem da Esty o que é que mais a atraiu?
Existem tantos conflitos dentro dela. Ela é forte, teimosa e sabe o que quer, mas, é também, muito ingénua e quer agradar as pessoas. Ser tudo isto é um grande desafio para uma atriz, e é raro encontrar protagonistas femininas tão poderosas.

A Shira teve aulas de ídiche, piano e voz. Foi necessária muita preparação para esta personagem?
Estávamos todos realmente muito comprometidos com este projeto. Foi filmado em Berlim e então foi para lá quase dois meses antes da rodagem. Tive aulas de ídiche - não conhecia o idioma, é muito diferente do hebraico, que eu falo. Isso levou muito tempo, assim como as aula de canto e piano, mas houve também muito tempo para ensaiar todos os rituais que são mostrados na série. Para a cena do casamento, tivemos a ensaiar durante dois dias. Precisava de ser perfeito e todos precisávamos de entender aquilo que estávamos a fazer, o que incluiu o nosso consultor religioso.

Unorthodox © Netflix

A cena em que a Esty se casa com Yanky é muito rica em detalhes e ao mesmo tempo muito emocionante. Como foi gravar esta cena?
Quando vesti o vestido de noiva, não tinha nenhum espelho, foi a produção que me ajudou e quando saí fui diretamente para o set de filmagens. Lembro-me de ir de pensar: “Meu deus, estão todos a olhar para mim.” Estava a usar um vestido enorme, muita maquilhagem e não tinha certeza de como eu estava a ser vista[risos]. Os criadores estavam muito bem preparados para esta cena, mas o mesmo pode ser tido para a cena do Pessach [o equivalente à Páscoa cristã]. Mesmo nas cenas mais pequenas, todos os detalhes eram muito importantes - desde a oração antes de nos sentarmos a comer até ao facto de não nos sentarmos com as pernas cruzadas, porque as mulheres não fariam isso. Talvez só 1% das pessoas que viram a série repararam nesse detalhe, mas, para nós, foi crucial. Fizemos tudo com muito respeito e amor, e eu aprendi imenso. 

A série dá-nos uma visão muito real da comunidade Satmar, muito rígida a nível religioso e e muita conservadora a nível cultural. Que coisas a supreenderam sobre esta comunidade?
Tantas coisas. Toda a comunidade judaica é diferente e não podemos generalizar. Nesta comunidade, em particular, havia muitos rituais que desconhecia, incluindo a prática de rapar o cabelo após o casamento. Eu já tinha ouvido alguma coisa do género há anos, mas não sabia que ainda acontecia. 

Como foi rapar o cabelo para este papel?
Essa foi a cena final do primeiro dia de rodagem. Quando a Maria [Schrader, a realizadora] me disse que ia acontece logo no início, fiquei muito chocada. Mas, foi ótimo porque me colocou, relamente, na pele da personagem. É claro que o teu cabelo só pode ser rapado uma vez, então tinha a noção de que teria que ficar bem logo à primeira. Estava nervosa, mas disposta a fazê-lo para contar esta história. 

"As pessoas são pessoas e é disso que se trata nesta história." Shira Haas

Unorthodox © Netflix

O guarda-roupa de Esty transforma-se ao passarmos de Brooklyn para Berlim, deixando as saias compridas de lado e passando a usar jeans e t-shirts. A Shira trabalhou com a Justine Seymour, a costume designer, neste processo?
Recebi um email da Justine logo no início para conversarmos sobre o guarda-roupa da Esty. Na história da Esty, que trata de liberdade e mudança, as suas roupas são muito importantes. Queríamos trazer um pouco de cor ao guarda-roupa, mesmo quando ela esta na comunidade hassídica, uma vez que ela é muito diferente de todos os outros personagens. Há uma cena em Berlim, quando ela está a experimentar uns jeans pela primeira vez. No início, pensámos: “Sim, ela vai experimentar os jeans e sai da loja já com eles vestidos.” Mas depois pensámos: “Não, ela veste-os mas, de repente, é muita coisa para ela, então ela sai da loja com a saia vestida.” É só no episódio a seguir é que vemos que ela tem coragem de vestir os jeans. Estamos sempre a falar da Esty de Nova Iorque e da Esty de Berlim, mas elas são a mesma personagem. O que foi preciso fazer foi unir estes dois pontos e mostrar a jornada emocional pela qual ela está a passar.

Como foi ver a história da Esty a tocar em tantas pessoas?
Não estava à espera do feedback que tivemos. Esta é uma história sobre uma comunidade muito específica, Há pessoas em todo o mundo que dizem relacionar-se com a Esty, que choram por ela e que ela os lembra dos próprios traumas. Não importa se és judeu, muçulmano, cristão ou qualquer outra coisa - as pessoas são pessoas e é disso que se trata nesta história. 

Unorthodox estreou na Netflix no momento em que grande parte do mundo estava a entrar em confinamento social. Foi estranho para a Shira processar isto tudo?
Está tudo a ser muito diferente. Atualmente, estou de quarentena em minha casa, em Tel Aviv. Fiz, recentemente, a Pessach via Zoom [risos]. Mas, ao mesmo tempo, estou a sentir muito amor - pela Esty e pela série - nas redes sociais. Claro, eu gostava que a série tivesse sido lança sob circunstâncias diferentes, mas também me proporcionou uma fuga a tanta gente. Estou grata por isso.

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