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Semana de Moda de Nova-Iorque: o renascimento do otimismo americano

21 Sep 2026
By Pedro Vasconcelos

Thom Browne SS27

Para primavera/verão 2027, os designers americanos ilustraram um novo começo.

Nova Iorque parece, finalmente, interessada outra vez em ser Nova Iorque. Há anos que a cidade vive entre duas versões de si própria: a cidade que foi e a cidade que insiste em querer ser. O declínio cultural dos Estados Unidos e a exponencial invasão de influencers deteriorou o que em tempos foi a capital cultural do Ocidente. A mitologia tornou-se pesada. A cidade mais excitante do mundo passou, por momentos, a parecer demasiado consciente de que tinha sido a cidade mais excitante do mundo. Mas agora, após um renascimento político—abençoado seja Zohran Mamdani—há esperança de que a Nova Iorque pode voltar a ser vivida, e não apenas publicada. A primavera/verão 2027 nova-iorquina não foi uma temporada obcecada com a novidade pela novidade. Pelo contrário. Muitas das coleções mais interessantes partiram de coisas que já conhecemos (denim, alfaiataria, jersey, vestidos, crochet, T-shirts) e perguntaram o que ainda pode ser feito com elas.

Na Eckhaus Latta, Mike Eckhaus e Zoe Latta continuam a transformar o quotidiano em desejo. Denim, jersey, crochet, transparências e malhas continuam no centro, mas tudo surge mais preciso, mais seguro. Uma saia-lápis atravessada por fibras metálicas abre a coleção, depois chegam malhas transparentes sobrepostas em diferentes cores, enquanto os jeans aparecem com costuras torcidas que dão à roupa americana mais banal uma estranheza quase escultural. O corpo está presente, mas nunca como espetáculo. A sensualidade é casual, quase acidental. É essa a inteligência particular da Eckhaus Latta: fazer roupa que parece poder ser realmente vivida, sem nunca cair em clichê. A colaboração com a J.Crew levou essa linguagem para um território mais acessível, ligeiramente preppy, sem lhe retirar a ironia. A Eckhaus Latta já não parece interessada em ser um segredo guardado por uma pequena comunidade do downtown. As roupas estão preparadas para viajar uptown.

Eckhaus Latta SS27

Na Proenza Schouler, Rachel Scott encontra uma confiança cada vez maior dentro da marca americana no que é a sua terceira estação. A sua Nova Iorque é feita de mulheres que não mudam de personalidade conforme a ocasião. Um vestido de lantejoulas pode ser usado com sandálias rasas. A alfaiataria pode ser sensual sem se tornar formal. Crochet, riscas geométricas, peplums e padrões de zebra convivem com peças quase deliberadamente simples. Essa sensação de liberdade continua em Diotima, a marca fundada pela designer, onde Scott vai para um lugar muito mais pessoal. Aqui, o ponto de partida é o mar — as Caraíbas enquanto geografia, memória e herança. A organza aparece em azuis e verdes aquáticos. O crochet continua a ser uma das linguagens fundamentais da coleção. Os vestidos de seda movem-se à volta do corpo em vez de o prenderem.

Proenza Schouler; Diotima SS27

Na Diane von Furstenberg, começa uma nova etapa. Henry Zankov, agora diretor artístico da casa, regressa àquele que talvez seja o princípio mais elementar do universo DVF: o corpo, sobre a premissa, e título, de “Body language”. Parece quase óbvio numa casa construída sobre a relação entre uma mulher e aquilo que veste, mas é precisamente aí que reside a força da coleção. Jersey, chiffon, seda e alfaiataria são utilizados para criar silhuetas longas e fluidas: drapeados, assimetrias, blocos de cor, tecidos franzidos e vestidos que revelam o corpo sem parecerem desenhados apenas para o expor. O wrap dress continua a fazer parte da mitologia da casa, mas perde a sua qualidade de arquivo, é uma peça de roupa do agora, não do passado. Primeiro vem a mulher, depois, o vestido.

Diane von Furstenberg SS27

Na Calvin Klein, Veronica Leoni continua a construir uma ideia de luxo através da contenção. Depois das camadas e complexidades de temporadas anteriores, primavera/verão 2027 reduz o guarda-roupa ao essencial: calças estreitas, T-shirts, saias justas, denim, blazers, gabardines e vestidos próximos do corpo. Leoni olha para Georgia O'Keeffe e para a ideia de uniforme pessoal: roupa repetida, aperfeiçoada, até se tornar parte da identidade de quem a veste. Um blazer de algodão. Jeans claros de cintura subida. Uma gabardine aos quadrados.

Calvin Klein SS27

De uma ponta do espectro para a outra. Nesta estação, Thom Browne ergue uma enorme crisálida. Desta surgiram borboletas, abelhas e outros insetos, pousados nos ombros estruturados dos casacos de tweed ou transformados em intrincados padrões. O universo habitual de Browne — alfaiataria, uniformes, cinzento, gravatas, proporções exageradas — foi invadido pela natureza. Vestidos estruturados transformam-se em cabeças de insetos, mary-janes em joaninhas. A metamorfose de Browne é tematicamente relevante. A atitude muda, a cidade segue e a Moda ilustra. 

Thom Bronw SS27

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