Ator, argumentista e comediante, o britânico John Cleese na gravação de um dos sketches de Monty Python Flying Circus, em 1070. Fotografia de George Wilkes.
Falar no humorista inglês é sinónimo imediato de humor. De bom humor. Mas acima de tudo, de humor em bom. Trouxe-nos "Monty Python" e "Fawlty Towers", mudando para sempre a faceta do fazer rir britânico não só em Terras de Sua Majestade, mas também no mundo: ninguém esperava a Inquisição Espanhola tal como ninguém esperava o impacto de John Cleese, mas estamos todos gratos — e mais felizes — por isso.
Há quem se lembre da frase sobre a Inquisição Espanhola, de Monty Python, como o sketch que estreou em setembro de 1970, na BBC; há quem a reconheça dos memes que circulam no ciberespaço do séc. XXI. É este o poder dos Monty Python, é este o poder de Cleese, é este o poder do humor: atravessa os tempos e as gerações como quem passa dos cabos de eletricidade para a fibra ótica sempre a acumular qualidade — e relevância. John Cleese é peça-chave dessa intemporalidade: com quase 87 anos, prova que o humor não envelhece, aprimora-se, e que uma boa piada não fica datada — ainda que haja graças que, se fossem feitas hoje, provavelmente, não veriam a luz do dia ou seriam chacinadas pelos críticos que proliferam nas redes sociais. Ainda bem que estes Python surgem no final da década de 60, para poderem chegar aos nossos dias no seu estado mais incólume, permitindo catapultar os seus elementos, entre eles Cleese, não só para o estrelato, mas também para outros formatos de comédia que também chegaram de boa saúde a 2026.
Mas falando em John Cleese, em particular: é uma figura imponente na história da comédia — tanto literalmente, com os seus 1,95 metros de altura, como culturalmente, como um dos principais arquitetos da sátira moderna. Emergindo profissionalmente nos sixties, Cleese cofundou os Monty Python, cocriou Fawlty Towers e escreveu o argumento do filme nomeado para os Óscares, Um Peixe Chamado Wanda. Falar do seu contributo apenas como entretenimento é redutor: alterou permanentemente o ADN do humor ocidental, combinando o absurdo intelectual com uma performance física inigualável. Cleese canalizou as suas neuroses peculiares e o seu intelecto acutilante para redefinir onde a comédia podia chegar. Antes de Cleese e os infames Graham Chapman, Eric Idle, Terry Jones, Michael Palin e Terry Gilliam revolucionarem o panorama com o Flying Circus de Monty Python, em 1969, a comédia televisiva era em grande parte polida, linear e previsível. Os Monty Python quebraram esse molde, com Cleese a trazer uma energia distinta e agressiva ao grupo, interpretando frequentemente figuras de autoridade cujas aparências rígidas se desmoronavam completamente sob o peso do nonsense lógico. Fosse a discutir sobre um papagaio morto, a apresentar o Ministério das Caminhadas Ridículas ou a defender o absurdo da tal Inquisição Espanhola, as performances do britânico expunham a hipocrisia da pompa institucional. Os trabalhos cinematográficos subsequentes do grupo, (Monty Python and the Holy Grail, de 1975, Life of Brian, de 1979, e The Meaning of Life, de 1983, são de visionamento obrigatório e continuam tão ou mais atuais que nessas alturas), consolidaram o legado de Cleese como um destemido transgressor de tabus culturais.
Não foi o seu único contributo, ainda que lhe sirva de cartão de visita maior: foi também um dos argumentistas e protagonista da sitcom Fawlty Towers (1975-1979). O formato, muito menos satírico e surrealista que o outro, é, ainda assim, um veículo perfeito do tipo de humor que Inglaterra assina e exporta com orgulho — se os Monty Python foram uma rebelião contra a estrutura, este triunfo seguinte de Cleese foi uma lição exímia sobre ela. Coescrita com Connie Booth, na altura mulher de Cleese, Fawlty Towers é considerada uma das maiores sitcoms alguma vez produzidas. Na série, o comediante deu vida à personagem Basil Fawlty, um gerente de hotel profundamente inseguro e snob, perpetuamente preso num inferno criado por si, com um empregado espanhol com pouca formação em tudo — incluindo inglês. Através de Basil, Cleese aperfeiçoou a comédia do pânico crescente. A série era uma dissecação cirúrgica do sistema de classes britânico e da impaciência humana, utilizando um enredo meticuloso onde pequenos mal-entendidos se transformavam em desastres monumentais. A prestação de Cleese era exaustiva de acompanhar, mas impossível de desviar o olhar, misturando a malícia verbal com uma comédia física elástica e espetacular. O papel valeu-lhe o prémio BAFTA de Melhor Interpretação em Entretenimento, em 1980. Em 2000, Fawlty Towers liderou a lista BFI TV 100, e numa sondagemBFI TV 100l 4 em 2001, Basil ficou em segundo lugar na lista dos 100 Melhores Personagens de TV. Não foram os únicos galardões e aplausos que colecionou: a sensibilidade de Cleese traduziu-se de forma perfeita para o cinema global e, em 1988, escreveu e protagonizou Um Peixe Chamado Wanda, um sucesso de crítica e de público que misturou o humor britânico refinado com a comédia de palhaçada americana, valendo-lhe não só nomeações para os Óscares, mas também para os BAFTA e para os Globos de Ouro. Fez parte do elenco de películas como Mary Shelley’s Frankenstein (1994), Rat Race (2001) e até na saga James Bond, 007 - The World Is Not Enough (1999) e 007 - Die Another Day (2002), bem como Harry Potter and The Philosopher's Stone (2001) e Harry Potter and the Chamber of Secrets (2002). Ainda recebeu um Primetime Emmy Award de Melhor Ator Convidado em Série de Comédia, por Cheers (1987), e foi nomeado por 3rd Rock from the Sun (1998) e Will & Grace (2004). Mas falar nas suas participações em séries e filmes, sejam deste ou do outro lado do Atlântico, é quase como falar em cameos — há sempre um gosto a privilégio quando se tem John Cleese a fazer parte de um filme, por mais breve que seja a sua participação. É que a sua notoriedade já está conquistada e suplanta o CV deste artista que se especializou em sátira política e religiosa, humor negro, sketches de comédia e humor surreal e foi considerado o segundo melhor comediante de todos os tempos numa sondagem de 2005 com outros comediantes.
(John Cleese) alterou permanentemente o ADN do humor ocidental, combinando o absurdo intelectual com uma performance física inigualável.
Com efeito, reduzir Cleese aos seus papéis de ator ignora a profundidade das suas buscas intelectuais. Licenciado em Direito por Cambridge, Cleese sempre teve uma profunda curiosidade sobre o comportamento humano. Foi coautor de livros de sucesso sobre psicologia (Famílias e Como Sobreviver a Elas), tanto que nos últimos anos, tornou-se um orador em demanda sobre os mecanismos da mente humana, culminando no seu texto Creativity: A Short and Cheerful Guide. O impacto de John Cleese na cultura contemporânea é difícil de sobrestimar. Para compreender o seu humor, é necessário compreender a mecânica do caos controlado. Enquanto muitos comediantes se apoiam em piadas simples, Cleese aborda a comédia com a precisão de um cientista e a energia frenética de um homem à beira de um ataque de nervos. O humorista pegou no arquétipo tradicional e formal do cavalheiro britânico do pós-guerra e subverteu-o, revelando o subconsciente caótico, desesperado e hilariante que se escondia por baixo — mas sem nunca perder a sua postura de gentleman, afiança esta jornalista que testemunhou em primeira mão as suas boas maneiras e a honra da sua palavra, como mandam as regras de etiqueta. Hoje, a sua influência ecoa por gerações de comediantes — do realismo cínico de The Office ao surrealismo do humor moderno da Internet —, porque John Cleese não fez apenas o mundo rir; ensinou-nos a ver a profunda e libertadora sanidade escondida dentro do completamente absurdo, como quem tem sempre um sorriso no rosto. Aliás, por falar em sorriso: o apelido de família original de John Cleese era, na verdade, Cheese, mas o pai de Cleese considerava-o embaraçoso e usou o nome Cleese quando se alistou no Exército durante a Primeira Guerra Mundial; mudou-o oficialmente em 1923. O que torna o título deste texto ainda mais engraçado. Mas não tão engraçado e mordaz como esta entrevista ao icónico comediante.
Esta edição da Vogue Portugal é dedicada ao humor. Acha que o seu sentido de humor mudou ao longo dos anos?
Acho que o meu sentido de humor mudou ao longo dos anos. Lembro-me de quando era jovem e ouvia programas de rádio; sempre gostei de programas um pouco anárquicos, mas à medida que se descobrem novos tipos de humor, incorporamo-los. Lembro-me de ir a uma festa quando tinha uns 16 anos e de conversar com um ator que me perguntou: “O que é preto e branco e rasteja pelo chão?”. A resposta foi: “Uma freira ferida”. Foi aí que descobri o humor negro, que considero particularmente divertido. Por exemplo, piadas sobre a morte e morrer!
Faz rir toda a gente. O que o faz rir? Ou é difícil achar graça às coisas quando se faz humor como sustento?
Muitas coisas me fazem rir. A última vez que me ri histericamente durante muito tempo foi durante a coroação do Rei Carlos III. A minha mulher estava a assistir e pediu-me para me juntar a ela. E quando me sentei na cama com ela e os quatro gatos, assisti aos primeiros segundos da entrada de Charles na Abadia de Westminster e fiquei histérico, porque parecia exatamente um sketch dos Monty Python. Um monte de gente com fatos ridículos a levar tudo muito, muito a sério. Eu ri desalmadamente durante cerca de uma hora, achei maravilhoso. Mas tenho um sentido de humor muito católico. Gosto de humor seco e espirituoso por vezes, e adoro um bom humor físico, como o de Laurel e Hardy, Charlie Chaplin ou Buster Keaton. É verdade que, à medida que se envelhece neste ramo — estou nisto desde 1962 — acaba-se por conhecer a maioria das piadas, os formatos e as formas das piadas, por isso é um pouco invulgar para mim hoje em dia encontrar algo realmente original. E, por isso, talvez me ria um pouco menos de comédia encenada. Mas rio-me muito das coisas engraçadas do dia a dia.
Será que a hipersensibilidade moderna destrói por completo o elemento surpresa na comédia, ou seja, o politicamente correto está a matar o sentido de humor? E se os Monty Python fossem feitos hoje, acha que teriam o mesmo sucesso ou o mesmo impacto?
Sim, a hipersensibilidade moderna destruiu a comédia, mas não creio que isso tenha a ver com o elemento surpresa. Tem a ver com o facto de o processo criativo só funcionar se não for interrompido. As interrupções são a morte da criatividade. Assim, se um jovem comediante pensa numa piada e se pergunta imediatamente se esta vai ofender alguém, a continuidade é quebrada pela interrupção do pensamento causada pela sua apreensão em relação ao público. Acho que os Monty Python não seriam feitos hoje em dia. Foi algo pontual — o chefe de comédia da BBC, Michael Mills, correu um risco enorme connosco, embora, para ser sincero, o facto de o programa ser tão barato de produzir tenha provavelmente ajudado a mantê-lo no ar no início, quando muita gente na BBC não gostava nada dele.
"A principal importância evolutiva do humor é que nos leva do modo fechado para o modo aberto mais rapidamente do que qualquer outra coisa.”, disse. Num mundo que parece cada vez mais intolerante e fechado, será o humor uma porta de entrada para o pensamento crítico?
Penso que, do ponto de vista evolutivo, é verdade que nos leva do modo fechado para o modo aberto mais rapidamente do que qualquer outra coisa. Também nos relaxa mais rapidamente do que qualquer outra coisa. Acho que o riso é muito bom para nós. Há todo o tipo de investigação fisiológica que mostra, por exemplo, que o riso fortalece o sistema imunitário. O seu valor também é psicológico. Quando nos rimos das coisas, afastamo-nos um pouco, e muitas pessoas já me disseram: "Obrigado por me ajudares a ultrapassar momentos difíceis". Costumava ficar muito surpreendido, mas ouço isto com tanta frequência que tenho pensado sobre o assunto. A minha conclusão é a seguinte: quando rimos, olhamos para as coisas com um pouco mais de objetividade e, se nos estivermos a sentir sobrecarregados por sentimentos negativos, isso ajuda-nos a afastarmo-nos e a observar a nossa situação de uma perspetiva mais ampla. Isto é inestimável e provavelmente o maior benefício que a comédia traz.
No seu livro de memórias, "So, Anyway", diz que o que lhe deu o seu sentido de humor foi o facto de os seus pais não se darem bem. É preciso ter problemas para se ser humorista?
Não creio que as desavenças entre os meus pais me tenham dado sentido de humor. Mas tinham sentido de humor diferentes. Acho que incorporei os dois. O meu pai tendia a rir-se de coisas secas, espirituosas e verbais. Lembro-me de ter visto um mau programa de televisão com ele uma vez, e ele comentou: “Acho que isto nunca vai substituir o entretenimento, certo?”. A minha mãe, por outro lado, adorava comédia mais ridícula. Quando passávamos férias em Bournemouth todos os anos, íamos à pista de patinagem no gelo, e ela desmanchava-se a rir com todas as pessoas a cair. Nunca a vi rir assim em mais lado nenhum. Pessoas a deslizar, escorregar, tropeçar e cair umas em cima das outras faziam-na rir muito.
“A vida é uma comédia para quem pensa e uma tragédia para quem sente”. A sua vida é mais uma comédia ou uma tragédia... ou algo entre os dois?
Penso que há alguma verdade na ideia de que a vida é uma comédia para quem pensa e uma tragédia para quem sente. Penso que a comédia ajuda enormemente a distanciarmo-nos das coisas e pode muitas vezes ser usada como uma defesa. O que não tem muito a ver com humor, é mais uma defesa psicológica. Mas penso que a própria vida é um mistério tão grande que, à medida que envelhecemos, cada vez mais da vida comum parece ridículo. Por isso, acho que a comédia em si é boa porque se ri das imperfeições dos seres humanos. Um ser humano perfeito simplesmente não tem piada. São as nossas peculiaridades e fraquezas que são engraçadas, e muitas das figuras mais engraçadas seriam pessoas absolutamente horríveis na vida real. Pense em Basil Fawlty.
O que significa para si o humor britânico? E o que acha que o torna tão único?
Para mim, o humor britânico é intrínseco à personalidade inglesa com que cresci. Penso que os ingleses tinham um orgulho discreto no seu sentido de humor e no facto de conseguirem ver graça em situações onde muitas pessoas não iriam achar graça nenhuma. Afasta-nos do que está a acontecer, torna-nos mais objetivos e mais abertos a ver o lado ridículo da vida, fazendo com que não levemos as coisas tão a sério. Acho notável que as pessoas que causam mais problemas no mundo — os fundamentalistas — parecem não ter sentido de humor ab- solutamente nenhum. A sua mentalidade literal é muito perigosa para todos nós e penso que precisamos de estar constantemente em guarda para garantir que estas pessoas fervorosas, literais e hipócritas, como diz a Bíblia, não afetem a nossa cultura inglesa.
Originalmente publicado no The Humor Issue, na edição de outubro de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui.
Most popular
Relacionados
