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Tendências 2. 10. 2020

De que forma é que a saúde mental é representada na cultura pop?

by Oliver Lunn

 

Retratos complexos e relacionáveis de bem-estar emocional e psicológico tornaram-se cada vez mais comuns em programas de televisão e filmes, mas nem sempre foi o caso. De The Shining a Fatal Attraction, um olhar sobre o que é que já alcançámos - e quanto mais ainda temos que alcançar - quando se trata de representar a saúde mental no grande e pequeno ecrã.

Girl, Interrupted, 1999 © Getty Images

As representações de saúde mental não eram exatamente muito complexas no século XX. Os filmes, com poucas exceções, retrataram a "loucura" com enorme sensacionalismo. Lembra-se da histeria de Glenn Close com os olhos arregalados em Fatal Attraction (1987)? Ou o rosnar sinistro de Jack Nicholson em The Shining (1980)? Louco era louco, sensato era sensato. Termos como 'maluco', ‘descompensado’ e ‘insano’ foram usados ​​descuidadamente, enquanto as histórias se focavam em colapsos mentais dramáticos, em todo o seu esplendor caricaturístico. 

A cultura pop do século XX está repleta de exemplos de como não representar a saúde mental. A maioria dos casos são esboços bidimensionais de algo que merece muito mais cuidado e consideração. Se estes são reproduzidos com mais cuidado hoje, é por causa da saúde mental ser cada vez mais um tema de discussão - conforme a discussão e a consciencialização evoluíram, o mesmo aconteceu com as representações. Afinal de contas, quando é que a cultura pop acertou? E quando é que errou?

De volta ao início 

Quanto mais voltamos atrás no tempo, menos complexas são as representações. Na literatura, Charles Dickens deu-nos Miss Havisham, a solteirona arquetípica em Great Expectations (1860), que insiste em usar sempre o seu vestido de noiva. Porque sim, ela é uma velha "louca".

Nos filmes, se um personagem estava deprimido (assim se pensava), devia haver uma razão muito boa. Pense em James Stewart em It’s a Wonderful Life (1946). Ele está pronto para se atirar de uma ponte porque perdeu o seu emprego e os meios para sustentar a sua família. É horrível, mas onde está a subtileza? Onde estão os personagens que sofrem de depressão a um nível mais quotidiano e identificável?

Parte do problema era que as histórias geralmente favoreciam os extremos. Assistir a filmes de terror como Psycho (1960), em que o psicótico Norman Bates se veste como a sua falecida mãe, é ver o quão intimamente ligados estavam os conceitos de "loucura" e assassinato no imaginário popular. Esses filmes sugerem que uma saúde mental precária e violência andam sempre de mãos dadas – sem necessidade de examinação.

Se Hollywood alguma vez teve representações decentes de problemas mentais, isso verificou-se a com histórias de jovens. Caso em questão: o adolescente atormentado de James Dean em Rebel Without a Cause (1955) e a sua fala inimitável, "Estás a destruir-me!" Há claramente alguma turbulência interna a ferver por trás das aparências, subjacente a uma angústia que é difícil de identificar. 

O novo Hollywood e as profundezas da condição humana

Nas décadas de 1970 e 1980, os jovens cineastas inspiravam-se no cinema europeu para sondar as profundezas da condição humana. Entre os melhores estava o vencedor do Óscar Ordinary People (1980), da autoria de Robert Redford, sobre uma família suburbana que lida com a perda de um filho. Inclui trauma, luto e depressão, à medida que o filho sobrevivente da família luta contra pensamentos suicidas e o colapso da sua família.

Outro filme inteligente que coloca a saúde mental debaixo de um microscópio é A Woman Under the Influence (1974), no qual Gena Rowlands interpreta uma mãe cujo estado mental em deterioração tem consequências devastadoras. O filme questiona como é essa condição quando se trata de uma mãe amorosa que ajuda os seus filhos a sair do autocarro escolar todos os dias.

Um ano depois, no entanto, chegou o vencedor do Óscar One Flew Over the Cuckoo’s Nest (1975). O filme - baseado no romance de Ken Kesey de 1962 - retrata um asilo psiquiátrico como uma prisão com janelas gradeadas e terapia eletroconvulsiva aterrorizante, que não ajudou muito a dissipar o estigma de estar internado.

Coelhinhos e assassinos psicóticos

Anomalias à parte, "loucura" ainda era perigosamente sinónimo de maldade na década de 1980. Jack Nicholson, em The Shining, é um exemplo óbvio, assim como o paciente mental em fuga Michael Myers no filme Halloween (1978). Veja também o favorito dos yuppies, Christian Bale, como Patrick Bateman, em American Psycho (2000). Como outros thrillers, ele joga com os nossos medos básicos sobre personagens psicóticos que estão dessincronizados com o mundo.

Depois, há o cliché da "mulher histérica". Embora assuma muitas formas - a namorada que não o larga, a esposa irritante - está enraizado em estereótipos de que as mulheres são emocionalmente instáveis ​​e irracionais. Pense em Ally Sheedy em The Breakfast Club (1985) ou Diane Keaton como o papel principal em Annie Hall (1977) sobre quem Woody Allen graceja: “Deves estar com o período”, porque ela está a reclamar com alguma coisa.

Esses papéis femininos são facilmente caracterizados como "loucos", sem qualquer diagnóstico mais profundo pelos cineastas, muitas vezes homens. Atração fatal (1987) é um ótimo exemplo. Alex Forrest, de Glenn Close, é o estereótipo da mulher considerada emocionalmente instável e reivindicativa que leva a ideia de hot mess ao extremo - mas nada leva a questionar a sua saúde mental. É mais sobre o personagem de Michael Douglas a tentar apagá-la da sua vida e o erro que foi ter um caso com ela. Imagine se fosse a sua esposa a problemática, como lidaria com ela e a apoiaria nesse desafio? Em 2017, Close refletiu sobre o seu papel, dizendo ao The New York Times: “Ela é considerada má, mais do que uma pessoa que precisa de ajuda”.

Girl, Interrupted vs The Virgin Suicides

Na década de 1990, houve algumas tentativas mais subtis, embora sem grandes melhorias. Girl, Interrupted (1999), por exemplo, era um One Flew Over the Cuckoo's Nest de género invertido que retratava uma ala psiquiátrica como se fosse uma festa do pijama divertida, mas perturbadora. A personagem de Winona Ryder, Susanna Kaysen, que foi diagnosticada com transtorno de personalidade limítrofe, é a mais multifacetada. No entanto, o filme acaba por voltar à caricatura de mulheres "loucas" com daddy issues que se concentra no sorriso sinistro de Angelina Jolie enquanto pressiona uma caneta na garganta.

No mesmo ano, uma abordagem mais forte sobre raparigas que lidam com ansiedade foi encontrada em The Virgin Suicides, de Sofia Coppola. Pode-se dizer que Coppola estava interessada na vida interior das irmãs Lisbon, a sua depressão e ações profundamente enraizadas são mal interpretadas pelo mundo como "um grito de ajuda". Um médico até diz a uma das meninas que ela não tem idade para saber como a vida é difícil. A sua resposta? "É evidente, o doutor nunca foi uma miúda de 13 anos." 

Os anos 2000 e o nascimento do psicodrama tabloide

A cultura pop ainda não tinha conversas significativas sobre saúde mental, mesmo no início dos anos 2000. Vale a pena mencionar Britney Spears, que ficou famosa por ter os seus colapsos mentais em 2007 após uma separação do seu então marido. Em retrospetiva, a coisa mais chocante de se observar é a forma grosseira como a história foi coberta pelos media. ‘O drama suicida de Britney!’, ‘Britney Shears!’ e simplesmente ‘Insana!’ Foram apenas algumas das manchetes dos tabloides. Naquela década, não havia o nível de sensibilidade que se veria agora, em que os media seriam responsabilizados, quando não cancelados completamente por tal abordagem.

Silver Linings Playbook (2012) parecia significar um salto positivo nas representações da saúde mental, até porque Jennifer Lawrence ganhou o Óscar de melhor atriz pelo seu papel de jovem viúva com um transtorno sem nome. A sua personagem encontra o personagem bipolar de Bradley Cooper e inicia-se um romance excêntrico. É inteligente e abraça um assunto sério com humor. Crucialmente, coloca um personagem bipolar debaixo dos holofotes, em vez de o colocar “o maluco” esquecido no background

A importância de uma representação complexa

Só nos últimos anos é que o pequeno ecrã começou a refletir as conversas sobre a consciencialização da saúde mental. A série 13 Reasons Why (2017) retratava a automutilação e o suicídio. Após a sua morte, os amigos de Hannah Baker perguntam: quais foram os sinais? Porque é que ninguém percebeu que ela tinha uma depressão? A série mostrou o lado negro das redes sociais e do cyberbullying, mas de acordo com muitos, abordou mal algumas coisas, nomeadamente a cena gráfica de suicídio (posteriormente removida pela Netflix) na qual a câmara se demorou desnecessariamente em Hannah enquanto tirava a sua própria vida. 

No entanto, a série 13 Reasons Why destacou o facto desses assuntos imensamente sensíveis deverem ser tratados na televisão, a importância de retratar certas histórias de forma responsável e de avisos pré-programa que sinalizam cenas gráficas.

A televisão tornou-se oficialmente o lugar onde os contadores de histórias enfrentam os figurões de Hollywood. Há Atypical (2017), que se foca num adolescente com transtorno do espectro do autismo, capturando as suas interações quotidianas. (“Às vezes eu não sei o que as pessoas querem dizer quando dizem coisas.”) E depois há Normal People (2020), que implacavelmente mina o primeiro amor enquanto mostra os seus personagens com os quais é fácil o público identificar-se ​​e que lidam com ansiedade e autoaversão sem exagerar. 

Mais recentemente, Steven Soderbergh foi aclamado por seu hábil tratamento da doença mental em Unsane (2018), no qual Claire Foy interpreta uma mulher detida contra a sua vontade num hospital psiquiátrico e cuja sanidade é continuamente questionada.

Felizmente, ao contrário de há 20 anos, o thriller psicológico de Soderbergh não parece uma exceção. Isso sugere que a maioria dos filmes e programas de TV já não retratam a saúde mental em termos simplistas para o propósito de uma narrativa organizada. Isso mostra que as conversas estão a acontecer na fase do guião e que os sinais de alerta estão a ser vistos.

Como qualquer outro tema, a saúde mental é uma faceta da condição humana que merece um exame mais profundo. Para os contadores de histórias agora, talvez a pergunta deva ser como posso fazer com que um espetador que se relaciona com essa personagem se sinta menos sozinho? Porque as representações são importantes. Os detalhes são importantes. Fazer bem é importante. Pode ser a diferença entre deixar alguém a sofrer em silêncio e encorajar alguém a procurar ajuda.

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