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Entrevistas 13. 4. 2020

Rute Caldeira: “Meditar: a forma de encontrar paz, no meio do caos!”

by Rui Matos

 

Concentração, tranquilidade, combate ao stress e foco no presente. Estes são quatro dos vários benefícios que a meditação nos pode proporcionar. Para Rute Caldeira, autora e professora de meditação, esta modalidade é o “ginásio da mente” e através dele vamos poder ficar a conhecer melhor o nosso eu interior e encontrar a paz que precisamos para enfrentar estes dias tão incertos, muitas vezes repletos de stress e ansiedade.

© José Alexandre Guerra

Para todos aqueles que se mostram mais céticos à meditação, como é que lhes explicaria a prática desta modalidade?

Vejo a meditação de uma forma muito simples e em simultâneo muito eficaz. Assim como sentimos a necessidade de exercitar o corpo para que ele fique tonificado e saudável, deveríamos sentir a mesma necessidade de purificar, exercitar e treinar a nossa mente. A meditação é, para mim, o ginásio da mente, assim como nos sentimos livres e leves fisicamente após umas horas de treino, a meditação oferece-nos essa mesma sensação a nível mental - é uma forma de higiene simples e profunda que clarifica e ajuda a selecionar os nossos pensamentos.

A maior parte das pessoas nem se dá conta do tipo de pensamentos que tem, não têm “poder sobre a própria mente", enchendo o seu cérebro de uma "acidez emocional" que se espalha inevitavelmente por todo o corpo. A meditação transforma-nos em profundos observadores do nosso corpo - só posso alterar aquilo do qual tenho consciência, se não tiver consciência tudo se mantém igual. A meditação é então, essa consciência que permite a alteração, o fluxo de pensamentos e por consequência de comportamentos irrefletidos e impulsivos.

Foi aos 22 anos que a meditação entrou na vida da Rute, depois de descobrir que tinha um problema de saúde. De que forma é que fazer meditação a ajudou?

A meditação foi na altura a minha grande medicação. O meu corpo estava extremamente inflamado, mas essa inflamação vinha de uma dor profunda (perda de uma irmã aos meus 14 anos de idade), dor essa que provocava irritabilidade, revolta, entre outros sentimentos com os quais não sabia de todo lidar. Ao começar a meditar todos os dias, em jejum, de manhã bem cedo, descobri uma nova Rute - afinal eu conseguia não só, compreender as minhas emoções, como também controlá-las, em vez de serem elas a tomarem conta de mim. Levei esta prática tão a sério, tal como a mudança de alimentação, que em três meses, estava a receber um novo diagnóstico - de que tinha conseguido fazer retroceder a inflamação. A meditação é efetivamente uma medicação natural, é preciso realmente fazer "essa toma diária", para se compreender e sentir na pele, os milagres que nos traz a vários níveis. 

Que conselhos daria para quem quer começar a fazer meditação? 

É essencial não começar sozinho, é muito importante ter umas aulas iniciais, ler um livro (o meu terceiro livro, O Poder da Meditação, ensina para iniciantes mas também praticantes), ver vídeos, pois existem bases que são necessárias ter, para não desistirmos por não sabermos chegar à meditação. 

Existe a crença de que meditar é uma ausência de atividade mental, uma paragem total dos nossos pensamentos, e isso não corresponde de todo à verdade. Os pensamentos vão existir sempre, contudo, o observador aprende a não se apegar a eles, aprende a olhá-los com distanciamento, ao ponto deles desaparecerem sem causarem stress, ansiedade, medo. Todos nós, podemos estar ativos em tranquilidade, mas isso exige treino e conhecimento das técnicas de meditação, quando iniciamos um treino num ginásio ou com um PT, os músculos não se desenvolvem logo, é preciso trabalho, determinação e vontade para se observarem resultados, com a meditação é exatamente a mesma coisa.

Para aprender a meditar, é preciso aprender a relaxar o corpo; introverter os sentidos - retirar a atenção do mundo exterior e voltar a nossa atenção para dentro; sentar numa posição confortável e permanente; tornar a respiração serena, completa e profunda; testemunhar/observar calmamente os objetos que viajam no comboio da mente; aprender a “inspecionar” a qualidade dos pensamentos e aprender a promover aqueles que são positivos e úteis para o nosso crescimento e como permanecer centrado e estável em qualquer situação, independentemente de a julgarmos como boa ou má, positiva ou negativa.

 
 
 
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Há alguma altura do dia mais propícia para meditar?

Sim, existem duas alturas em que a nossa mente está mais "disponível para esta prática”: de manhã, quando acordamos, ou ao final do dia/antes de nos deitarmos. Logo de manhã, quando acordamos a mente ainda está com as suas ondas cerebrais com baixa amplitude, pois não estivemos em atividade, e ter as ondas cerebrais reduzidas, isto é, não estar nas ondas Delta, é uma grande ajuda, para conseguirmos entrar em estados meditativos (mergulhando assim nas ondas Alfa - onde existe a calma e o relaxamento). Relativamente ao final do dia, embora tenhamos estado em atividade durante horas, a partir de uma certa altura, o corpo e a mente predispõem-se naturalmente, para o recolhimento, para o "desligar", e por essa razão, torna-se também mais fácil serenar e praticar meditação.

Contudo, e embora estas duas alturas sejam favoráveis para a prática, sou da opinião que qualquer hora do dia (se desejamos realmente praticar, há que adaptar às nossas rotinas) é uma boa altura para o fazer, na verdade, uma vez que se aprende realmente o sentido, o significado e o objetivo da meditação, a ideia é transpô-la para todo e qualquer momento do nosso dia-a-dia. E porquê? Por que a meditação nos ensina a arte do estado de presença, não importa o que estamos a fazer, estou totalmente consciente de mim, dos meus pensamentos, das emoções, do meu corpo, do ego (que quer competir, quer ser superior, quer ter razão, quer sobressair) e da atividade que estou a desempenhar. 

Pode surgir uma outra questão com esta explicação: por que razão isto é importante? Dou dois exemplos muito simples: podemos ir muitas vezes a conduzir e estar completamente alienados da condução (o uso do telemóvel no ato da condução é um bom exemplo disto), por vezes, até nos enganamos no caminho precisamente por não estarmos presentes; outro exemplo é a ansiedade, a pessoa que sente ansiedade está com a sua mente sempre no futuro - a criar cenários na sua mente que geram stress, medo de falhar, medo que corra mal. Se a pessoa ganha a consciência de que não está presente no que está a acontecer e que a constante vivência no futuro provoca acelaramento do ritmo cardíaco, produção de mais adrenalina no sangue, entre outros sintomas, pode através desta consciência alterar os seus comportamentos, mas para alterar um comportamento padrão, primeiro é necessário alterar os pensamentos que levam a esse resultado e isso consegue-se a partir de um estado de observação que adquirimos na meditação.

Há algum tipo de exercício que possamos fazer em casa? Para acalmar a ansiedade, por exemplo?

O próprio exercício em si, para a ansiedade e para serenar a mente tem um nome: meditação. Partilho por isso, uma prática que tenho no meu canal de Youtube, que nos ensina a estar focados somente na respiração. A nossa mente é como um macaco, a chamada monkey mind, e por isso, tal como um macaco salta de galho em galho, a nossa mente salta de pensamento em pensamento. É preciso por isso, oferecer-lhe um objeto de atenção (assim como oferecemos bananas aos macacos), para que ela se torne focada. Nesta prática que partilho - o objeto de atenção é a respiração, desta forma damos uma direção à mente, para que ela não disperse, podendo assim serenar e "baixar a guarda”.

Com que frequência devemos meditar? Sempre que acharmos que estamos a precisar, diariamente, semanalmente?

Na minha opinião, e principalmente para quem vai começar, a meditação deve ser praticada todos os dias. Se a meditação é a higiene da mente, assim como tomamos banho e escovamos os dentes, deveríamos ter igual necessidade e preocupação, de "lavar" o motor da nossa mente, é uma questão de prevenção até. Depois de enraizarmos esta prática a nível mental, torna-se mais fácil transpô-la para as várias atividades do nosso dia-a-dia (ou seja, permanecer no estado de presença e de atenção plena), mas para isso acontecer, há que existir muito treino mental, ou seja muita prática de meditação (o ginásio da mente). Todos nós perdemos por dia, mais do que 15 minutos no telemóvel, a ver televisão, entre outras coisas, basta dedicarmos 15/20 minutos por dia, a esta prática, para sentirmos ao final de uma semana, os seus benefícios.

Fazer meditação pode ser o contrapeso que precisamos para uma vida tão agitada

Tenho uma frase que vejo quase como um slogan (risos) para a meditação: “Meditar: a forma de encontrar paz, no meio do caos!”. Por isso sim, sem dúvida que a prática é excelente para mediar a nossa vida agitada e para aumentar o nosso sistema imunológico. O stress é uma grande ameaça à nossa saúde - estarmos submetidos a uma boa quantidade de cortisol (uma hormona produzida pelas nossas glândulas suprarrenais) todos os dias, tem a longo prazo, vários malefícios para o nosso corpo - perda de memória, perda de massa muscular, aumento de peso, diminuição da testosterona, entre outros. Se temos um "medicamento natural" totalmente gratuito à nossa disposição, para reduzir este stress e, ao mesmo tempo, nos tornarmos mais presentes e conscientes na nossa vida, porque não tomá-lo?

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