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Red carpet (style) is back

26 Jan 2023
By Ana Murcho

Depois de quase vinte e quatro meses em cativeiro, os vestidos compridos de gala, também conhecidos por “gowns”, voltaram à rua. Mas não foi só a pandemia que os empurrou para o fundo do armário. Na última década, a Moda preferiu o lado prático ao lado formal e, como consequência, a fantasia e o glamour que associamos ao eveningwear foram desaparecendo. Agora, num volte-face mais ou menos esperado, vários designers voltam a propor looks carregados de drama e carisma, cujo propósito parece ser apenas um: desfilar numa passadeira vermelha.

Depois de quase vinte e quatro meses em cativeiro, os vestidos compridos de gala, também conhecidos por “gowns”, voltaram à rua. Mas não foi só a pandemia que os empurrou para o fundo do armário. Na última década, a Moda preferiu o lado prático ao lado formal e, como consequência, a fantasia e o glamour que associamos ao eveningwear foram desaparecendo. Agora, num volte-face mais ou menos esperado, vários designers voltam a propor looks carregados de drama e carisma, cujo propósito parece ser apenas um: desfilar numa passadeira vermelha.

Artwork: Miguel Canhoto
Artwork: Miguel Canhoto

Chama-se Academy Red e, ao contrário do que se pensa, não é vermelha, mas bordeaux. Diz-se que o seu tom exclusivo (“Uma cor secreta, cujas especificações precisas os organizadores do espetáculo não revelam por medo de imitações”, de acordo com o LA Times) enaltece os famosos que por ela passam. E apesar do aparente aspeto aveludado, é feita a partir de nylon num moinho em Dalton, Geórgia, conhecida como a “Capital Mundial do Tapete.” Uma vez usada, é destruída “de forma não revelada” pela organização do evento. Desde 2008 que a American Turf & Carpet, uma divisão da Signature Systems Group, é a empresa responsável por a instalar. É necessária uma equipa de cerca de 18 trabalhadores e quase 900 horas/homem para montar cerca de 30 rolos de carpete, cujo total chega aos 286 quilos. O seu preço é proporcional à sua notoriedade: 23 mil euros, custos de instalação não incluídos. A passadeira vermelha dos Óscares — ou, se preferirmos, a mais famosa red carpet do planeta — parece indissociável da história do cinema. No entanto, ela apenas surgiu em 1961, quando a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas decidiu adicioná-la como parte da cerimónia. Golpe de génio — tal como Sid Grauman, magnata do teatro, tinha previsto quando orquestrou a primeira grande estreia de Hollywood, em 1922, e colocou uma impressionante passadeira vermelha no Egyptian Theatre para exibição de Robin Hood. A red carpet tornou-se, quase imediatamente, num dos momentos mais esperados da transmissão televisiva dos Óscares. Não será exagerado afirmar que, hoje em dia, aquele desfile de brilho e glamour é responsável por boa parte das audiências do programa — a resposta à pergunta “O que é que ela tem vestido?” parece, por vezes, ser tão ou mais relevante do que o anúncio do vencedor da categoria X ou Y. Contudo, durante cerca de um ano e meio não foi preciso encomendar nenhum exemplar de Academy Red. A pandemia de COVID-19 obrigou à realização de um mini-evento em 2021, relegando a 93.a edição dos Óscares a uma nota de rodapé. Foi por isso com alegria e alívio que, em abril deste ano, o Dolby Theatre, em Los Angeles, recebeu os convidados para uma noite de festa. Como no final de uma longa batalha — não obstante a invasão russa da Ucrânia, semanas antes —, nomeados e outros convidados chegaram à passadeira vermelha com elevadíssimas doses de pizazz, numa celebração da vida e da beleza como há muito não se via: Billie Eilish, Serena Williams e Jessica Chastain (Gucci), Maggie Gyllenhaal (custom Schiaparelli), Megan Thee Stallion (Gaurav Gupta), Zoë Kravitz (Saint Laurent), Jada Pinkett Smith (Jean Paul Gaultier), Nicole Kidman (Armani), Olivia Colman (Dior), e Aunjanue Ellis (Versace) foram algumas das mais bem vestidas da noite, com vestidos que faziam lembrar o glamour de outros tempos. Será que a red carpet está finalmente de volta? É possível. Meses e meses de isolamento forçado. Dias a fio em que as únicas peças de roupa necessárias eram umas calças de fato de treino e uma sweater, já que o contacto com o exterior estava limitado. Não vamos lançar foguetes antes da hora, mas é bem provável que tão depressa não voltemos a querer sair à rua como o abominável homem das neves. A culpa não é nossa, claro. Somos apenas o produto da época em que vivemos. E a época em que vivemos esteve, durante anos, de costas voltadas para tudo o que rimasse com “protocolo”, focada que estava no minimalismo e seus derivados, obsessão que nos levou as peças com mais personalidade — nomeadamente os vestidos, compridos ou não, onde as lantejoulas, os veludos, os cetins e os brocados costumavam aparecer. Durante algumas temporadas, não fazer um esforço era considerado cool. Ai de quem tivesse a infeliz ideia de passar um batom vermelho e calçar uns saltos altos quando a ideia era trazer de volta o heroin chic ou elevar a deus da Moda um qualquer parente próximo do athleisure. Até que, forçados a conviver com a nossa própria fixação, nos vimos cansados de tanto “deixa andar” e percebemos que, afinal, um bocadinho de “dressing up” não faz mal a ninguém. É aqui que entra um conjunto de nomes do qual fazem parte Christopher John Rogers, LaQuan Smith, Nensi Dojaka ou a dupla Taller Marmo, cujas criações dão um novo significado à palavra eveningwear. São eles os responsáveis por desconstruir (uma vez mais) a nossa relação com a “roupa de sair à noite”, como que inspirados pelo glamour de outras épocas — Grace Jones, Bianca Jagger, Tina Turner, Marilyn Monroe, Elizabeth Taylor, Angelica Huston, as mulheres que inspiram estes designers tinham orgulho em praticar a máxima “mais nunca é demais.” Foram estes criadores que, a par com algumas marcas já estabelecidas, foram responsáveis pela recente lufada de ar fresco (revolução?) nos looks que agora vemos nas passadeiras vermelhas. A primeira mudança diz respeito à cor. Onde anteriormente encontrávamos apenas tons neutros (preto, azul noite, bege) vemos agora uma explosão digna do mais brilhante arco-íris: as cores néon, nomeadamente o rosa choque e o verde lima, são tão apropriadas para a red carpet como qualquer outra. Prova disso é o incrível Gucci que a cantora St. Vincent usou nos Grammys, ou o Maison Margiela que Gwen Stefani escolheu para a Met Gala — e que, como escreveu uma publicação americana, “se conseguia ver de Staten Island.” A segunda novidade é a introdução de capas/capuzes, algo que tem tanto de moderno como de empoderador, pela sensação de confiança que proporcio- na. Ver Tessa Thompson, uma das novas musas de Hollywood, no Festival de Veneza com um minivestido vermelho Elie Saab — que incluía ainda um capuz amovível que se estendia da cintura até ao ombro e uma gigantesca cauda que envolvia a atriz numa nuvem escarlate — foi uma espécie de sonho. Era ela que comandava o vestido, e não o contrário. A terceira mudança digna de registo é o regresso das costas. É preciso coragem para “despir as costas”, por isso esta sempre foi uma tendência à qual nunca foi dada muita importância. Renate Reinsve, protagonista do filme The Worst Person in the World, escolheu um estonteante Louis Vuitton sem costas para a cerimónia dos Óscares e provou que há ditados que nunca morrem: “As pessoas vão-te ver entrar na sala, mas lembrar-se-ão sempre de como a abandonas.” Há quem tenha vivido uma vida inteira com a noção exata do que é abandonar uma sala com as costas à mostra. “I never go outside unless I look like Joan Crawford, the movie star. If you want to see the girl next door, go next door” (“Nunca vou à rua a menos que pareça Joan Crawford, a estrela de cinema. Se queres ver a rapariga do lado, vai à porta do lado”), dizia a própria Joan Crawford, que raramente era vista sem o equivalente a duas horas na cadeira de maquilhagem. E se os hábitos de uma estrela de ci- nema lhe parecem demasiado exorbitantes, pergunte à sua avó ou a qualquer parente mais velha como se vestiu durante a Segunda Guerra Mundial. Em pleno conflito, o prazer de usar meias de nylon teve de ceder face à procura urgente deste material para fabricar paraquedas. Longe de renunciar totalmente a esse capricho, as mulheres pegaram nos lápis de sobrancelhas e desenharam linhas ao longo da parte de trás das pernas para dar a ilusão das costuras (hipersensuais) dos collants. Estaríamos dispostas a isso em 2022? Definitivamente não. A introdução do pronto-a-vestir, em meados do século passado, provocou a massificação das tendências, a cópia e a banalização das modas. A roupa deixou de ser elitista e passou a ser democrática. Resultado? O estilo, que até então era algo inegociável, passou a ser acessível e “vendável”; o glamour deixou de ser relevante e tornou-se algo ambíguo; a Moda tornou-se fútil, desinteressante, impessoal; a criatividade sumiu-se, tantas que passaram a ser as exigências da sociedade de consumo; a originalidade deu lugar ao plágio e ao constante déjà-vu. O novo milénio glamorizou — e esta é uma expressão interessante — o uso despreocupado de chinelos de praia em plena metrópole e aplaudiu os jeans rasgados e deslavados em locais de culto. Em menos de cem anos, fomos de um extremo ao outro: deixámos de andar impecavelmente vestidos para, em nome de um conforto qualquer, aplaudirmos o desmazelo. Deixámos de ter tempo para nós e para o glamour, que ficou fechado numa televisão a preto e branco. Até agora. Entre os momentos que prometem ficar para a história da Moda deste ano — independentemente do que vier a acontecer nas primei- ras semanas de dezembro, claro, quanto a isso nada podemos fazer —, dois são particularmente impressionantes: no final de novembro, Dua Lipa participou num dos últimos concertos da tour final de Elton John, ao qual chegou num magnífico Balenciaga em tafetá de seda preto com uma gigantesca (maravilhosa, incrível) cauda — uma recriação da peça originalmente usada por Nicole Kidman na apresentação da coleção couture 2021 da maison —, coordenado com os já famosos pantaleggings, uma das mais copiadas invenções de Demna, luvas compridas e joias Bulgari; meses antes, em setembro, Lizzo aterrou na passadeira vermelha dos Emmys num impressionante vestido de tule Giambattista Valli, cujas camadas acrescentavam ainda mais dramatismo à sua já intensa cor — carmesim. Numa hipotética lista de “most glamorous of the year” ainda caberiam os nomes de Zendaya, que deu consecutivas lições de estilo em todas as suas aparições (nomeadamente na after-party dos Emmys, onde surgiu num Valentino ultra-sexy), Lady Gaga, uma visão da golden age de Hollywood em Ralph Lauren, nos BAFTA, ou Hailey Bieber, elegantíssima num shawl Saint Laurent marfim, na Met Gala. Não será uma escolha consensual, evidentemente, até porque muitas celebridades “obrigatórias” ficam de fora — onde estão Zoë Kravitz, Lily James, Blake Lively, Olivia Wilde, Taylor Swift, Florence Pugh, Anne Hathaway, Beyoncé, e dezenas de outras estrelas que deram cor e brilho a este (estranhíssimo) 2022? Na nossa memória coletiva. É lá que encontramos, um por um, os looks que vimos desfilar em várias passadeiras vermelhas, e que nos fizeram acreditar que talvez seja possível sonhar com um (muito desejado) regresso do glamour. 

Ana Murcho By Ana Murcho

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