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Inspiring Women 1. 11. 2018

Raquel Strada: "A minha motivação na vida é o amor"

by Irina Chitas

 

Conversar com Raquel Strada - e sim, isto é uma conversa, não é uma entrevista, porque entrevista é um termo demasiado duro para a generosidade do que se lê abaixo - é das coisas mais libertadoras que se pode ter. Porque a honestidade é das coisas mais libertadoras que se pode ter.

Foram horas de conversa, de troca de ideias, de ping-pong de palavras. Horas que só não estão aqui na totalidade porque o scroll seria infinito. Mas o que está aqui é alma, é liberdade, é amor. Só poderia ser, Raquel Strada é alma e liberdade e amor, é sinceridade brutal, é um universo sem filtros. É refrescante ouvi-la, é refrescante lê-la, porque nos lembra sempre que é possível manter algo de profundamente humano neste mundo de aparências e redes sociais. É possível manter a verdade, porque só a verdade pode ser sinónimo de inspiração.

Raquel Strada © Gonçalo Silva

Se há dez anos te dissessem que estarias aqui hoje, a fazer o que fazes, acreditavas? 

Não. [Risos] Não. Eu nem sei o que é que estava a fazer há dez anos… Eu há dez anos já fazia televisão. Tenho 35 anos agora, vou fazer 36… Ai, credo, não, estava na Floribella.

Bom, isso é de facto diferente. 

Não, nunca pensei. Mas também sei porque é que estava a fazer a Floribella, porque não tinha muita hipótese, na realidade. Tinha um contrato de exclusividade com o canal, quando isso acontece não podes recusar mais do que um ou dois projetos. Na altura havia a possibilidade de me porem numa novela e foi lá que eu fui parar. Foi uma grande dificuldade, porque eu não queria mesmo fazer, mas depois no fim até gostei. No início não gostei nada. Eu não gosto de representar, sabes? Acho que não tenho jeito. Não era a equipa, não era nada, eles são todos muito queridos e sou amiga deles até hoje, não é isso. Eu gosto sempre de conhecer pessoas novas e de áreas diferentes. É mesmo só porque acho que não tenho jeito. Mas nunca me imaginei estar aqui, não. Mas sabes que eu também não imagino muita coisa. Não sou aquela pessoa que está em casa, ou num sítio qualquer, a pensar: onde é que eu vou estar para o ano? Não penso muito nisso. Eu tento viver o dia de hoje. O que vou fazer hoje. Acho sempre: uma felicidade e um problema de cada vez. Então não sei, não penso muito nisso. Se me perguntares isso daqui a uns tempos a minha resposta vai ser um bocado igual.

A evolução da carreira tem sido muito orgânica. Avanças para uma coisa porque já fizeste a outra. O que significa que é muito difícil prever o que é que vais fazer a seguir. 

Mas eu digo-te o que é que vou fazer a seguir. À partida. E isto é tudo com um gap temporal muito pequenino… Mas eu estou um bocado cansada. Eu não me farto muito das coisas, tenho os mesmos amigos há anos - muitos deles desde a terceira classe, mas não tenho medo de acrescentar pessoas, claro -, não sou nada de me fartar, eu como um pão com queijo e um galão com leite frio desde miúda. Gosto muito das mesmas coisas. Não faço muitas mudanças. Gosto de ter alguma rotina. Eu gosto do meu trabalho, muito, e dou graças a Deus porque tenho um trabalho incrível, mas ao mesmo tempo acho que é uma coisa que vem muito da imagem. E isso cansa, estar sempre a tirar fotografias. Gosto de me maquilhar, gosto de me arranjar, não te vou mentir, porque gosto mesmo, mas já estou a perder um bocado esse gosto. Eu agora já saio de casa assim, tomo banho e venho-me embora, que era uma coisa que era impensável para mim há um ano ou dois. Por um lado, ter feito este trabalho também me fez valorizar as coisas mais importantes. Eu gosto da forma, gosto da estética - sempre gostei - de qualquer coisa, e sempre achei que o conteúdo era importante. E cada vez mais acho isso. Tu podes embelezar a forma, e podes dar o ar que tu quiseres. Não é difícil. Desde que tenhas uma boa equipa, ou que tenhas gosto estético para isso, desde que saibas embrulhar a coisa, a coisa acontece. Eu gosto de Moda, gosto da indústria, gosto das pessoas, gosto das redes sociais (apesar de neste momento já só ter Instagram, qualquer dia já não tenho nada [risos], cada vez mais me vou desligando das redes sociais, o que é um bocado contraproducente e não tem muita lógica, porque trabalho com redes sociais) mas queria fazer outra coisa. E o que eu queria, e o que estou a fazer, é criar a minha própria marca. Já estou a fazer isto desde março. Pensei nisto um bocadinho antes, mas avancei em março. Estou a fazer agora uma data de testes com coleções-cápsula, de produtos diferentes, porque também quero perceber para o que é que eu tenho mais talento, ou seja, qual é o tipo de coisa com que mais me identifico. Porque não é uma coisa que eu desde miúda dissesse “Tenho um sonho que é desenhar roupa, ou cosmética”, não tenho. Eu quero produzir coisas e quero fazer coisas que deixem as pessoas felizes, bem dispostas, com as quais se sintam mais bonitas, porque também acredito muito nisto: eu posso estar cansada no meu dia a dia, mas eu acredito mesmo que quando as pessoas se sentem mais bonitas, tudo o resto funciona. Claro que a beleza vem de dentro para fora, mas o fora também ajuda ao dentro. É sentires-te confortável, seja para ti o que for, o que quer que te faça sentir bonita. E se, de alguma forma, eu conseguir que as pessoas se sintam mais bonitas por uma coisa que eu produza ou que eu faça, já vou ficar contente. Então vou experimentar coisas diferentes, vou perceber com o que é que me identifico mais, tenho um projeto já muito giro, que vai sair em março. Não posso falar muito sobre ele, mas é sustentável, que é uma coisa que eu sempre quis fazer - é uma coleção-cápsula também -, e descobrimos que é possível fazer, por exemplo, cores néon e fortes de uma forma sustentável, sem ferir o meio ambiente… Estou muito contente. Há muitas coisas que eu descobri, mesmo a nível de processos de fábricas e de tudo, mesmo a forma como eu vejo a roupa, já olho para ela de maneira diferente. Não que eu faça sempre compras sustentáveis, mas estou a tentar ter essa consciência. Passei a comprar muito menos coisas, e não é porque tenho muitas ou porque me dão muitas, é porque prefiro comprar menos, mas melhor, menos mas saber que a empresa trabalha de uma forma com a qual eu me identifico. Não consigo fazer isso sempre… é muito engraçado, porque andei a ver alguns documentários sobre a coisa e percebi que nós não temos capacidade para fazer tudo sustentável no planeta, porque se só produzíssemos algodão sustentável criaríamos outro problema. Temos de encontrar aqui um equilíbrio. Sei que parece que isto não faz muito sentido, mas tem de ser tudo com calma, porque se de repente toda a gente se virasse para isso, não havia capacidade, além de que este tipo de algodão consome três vezes mais água do que o algodão normal. Que é outro problema. Estamos a criar um problema para resolver o outro, por isso tem de ser tudo com calma. Há que haver um equilíbrio para caminharmos para um futuro melhor no sentido de máquinas diferentes, procurar outro tipo de soluções, mais investigação, mas não pode ir tudo para um lado porque senão o planeta não aguenta mesmo. O lema de vida tem de ser tudo equilibrado, e quando as pessoas são equilibradas as coisas até se dão. Isto tudo para dizer - já andava aqui a divagar - que não sei onde é que vou estar daqui a dez anos nem há dez anos me imaginava aqui, tens razão, olha não sei, eu sou um bocadinho de pensar: nunca estragues os planos que a vida fez para ti. Bem ou mal, tudo dar-se-á.

E o lançamento da tua marca é uma coisa que parece fazer-te deveras feliz.

É, eu estou muito, muito feliz. Uma das grandes dificuldades tem sido encontrar um logotipo que me definisse, porque as coisas que eu gostava eram coisas que já existiam. Porque imagina… coisas tão simples como os olhos. Eu perguntei a algumas pessoas - amigos meus, próximos -, a nível estético, o que é que me definia, e todos respondiam que eram os olhos e o cabelo, que está sempre despenteado [risos]. Mas é muito difícil retratar um cabelo para uma marca ou para um logo. Os olhos já há a marca da Chiara Ferragni, que é o que mais associas a ela, portanto não podes fazer uma coisa parecida. E depois é o facto de eu andar sempre a viajar de um lado para o outro desde miúda, ter bicho carpinteiro, nunca parava quieta, e agora nunca paro realmente quieta numa cidade, então tentámos traduzir isso de uma forma gira. Não tem a ver com aviões, nem nada disso, mas vai ficar giro, e na marca vais perceber esta coisa de não parar, de andar sempre de um lado para o outro, de estar sempre a evoluir. Não tem de ser para uma coisa melhor, pode ser só para uma coisa diferente.

Raquel Strada © Gonçalo Silva

O trabalho que tu fazes agora já é em prol de dar felicidade, de tentar que as pessoas se sintam bem com elas próprias. O que acontece a seguir, com a tua marca, acaba por ser uma evolução disso mesmo, só que coloca-te mais nos bastidores.

Sim, exato. Eu sei que vou ter de continuar a fazer algumas coisas, para que a marca tenha força. Eu queria criar uma marca que não fosse o meu nome. Esse era o meu objetivo. Só que entretanto percebemos que eu era a minha marca. O que por um lado me irrita um bocadinho, porque acho sempre difícil usares uma peça com o nome de alguém - e eu consegui dar a volta para que as pessoas não tenham de usar o meu nome, acho isso um bocado fora, não é o tipo de coisas que eu goste de usar, por isso acho que muitas pessoas também não gostarão. Decidi ir por um caminho um bocadinho diferente. Mas sei que há coisas que vou continuar a fazer, acompanhar alguns eventos específicos lá fora, ou a ModaLisboa e o Portugal Fashion cá, mas porque acho que é importante, porque faz sentido. Se gostas de Moda tens de acompanhar, tens de te manter informado, e eu sou super orgulhosa do meu país. Não quero é fazer com este compromisso comercial. Eu vou-te dizer a verdade: eu digo que não a quase tudo - não digo que não a festas, não digo que não a aniversários, porque gosto de celebrar a vida, gosto de celebrar a amizade, gosto de ir às festas todas dos meus amigos, não consigo não ir, tenho de estar, tenho de fazer parte da vida das pessoas que eu gosto - mas no que toca a trabalho, digo que não a muita coisa. Mesmo. Só que mesmo assim, sinto que de vez em quando sou um supermercado. Tenho muita coisa a acontecer e não me sinto confortável. Mesmo só fazendo coisas em que eu acredito. Eu peço para ir às fábricas ver como é que as coisas são feitas antes de assinar o contrato. Estou a ficar chata, eu acho, estou a ficar aquelas velhas chatas. Não quero dar a cara por coisas em que eu não acredito. Eu fiz a McDonald’s, mas é que eu gosto mesmo dos hambúrgueres do McDonald’s. E acreditas que ninguém me fez um comentário chato? Porque as pessoas sabiam que aquilo era verdade, que eu gostava dos hambúrgueres [risos]. Eu gosto de fazer coisas com que eu me identifico, e que gosto, e que consigo defender, e que seja honesto. Acho que cada vez mais caminhamos para uma era em que tens de ser fiel e honesta a ti própria. Toda a gente tem redes sociais, tem um canal para comunicar, e todos nós somos donos do nosso conteúdo, o que por um lado é maravilhoso, mas por outro lado torna a competição muito mais forte. A única coisa que te distingue é seres fiel a ti própria, e haverá sempre alguém que se identificará contigo, que te quererá seguir por algum motivo. É seres fiel. As pessoas hoje em dia estão sempre à procura de inspiração, o que pode ser bom, mas inspirar não é a mesma coisa que copiar, e as pessoas às vezes esquecem-se um bocadinho disso. 

É a procura por validação.

É, e amor. Mas tu podes dar-lhes amor de outra maneira. Foi por isso que eu fui fazer televisão, porque queria que gostassem de mim. Senão não tinha aceite. 

E agora sentes que precisas de outras coisas?

Sim, eu preciso de conseguir trabalhar de qualquer parte do mundo, mas, ao mesmo tempo, perto das pessoas com quem eu quero estar. Eu criei um blogue e toda esta parte digital por causa disso, queria fazer aquilo que me apetecia, não queria estar dependente de um canal de televisão, por mais que eu goste deles na SIC, tratam-me super bem, mas não queria, não renovei o meu contrato de exclusividade por causa disso, expliquei o porquê, eles respeitaram-me imenso e até agora são como a minha segunda casa, cresci com eles e tratam-me como se fosse da família, mesmo não tendo contrato. Na altura tentaram que eu voltasse a assinar, o que também me deixou lisonjeada, porque é sempre bom quando não te querem deixar logo fugir. Mas a minha motivação na vida é o amor. Uma coisa que me perguntaram no outro dia e que eu por acaso achei engraçada era o que é que era comum, sempre, em todas as partes da minha vida. E disseram-me “Sabes que tens uma vida tipo ótima”. E eu, “Sei, mas não me sinto mais feliz agora”. Eu só sou mais feliz agora porque tenho o Kitó [Joaquim, o marido]. Não sou mais feliz porque viajo mais, ou menos. Não se mede o grau de felicidade, mas eu era igualmente feliz quando estava com os meus amigos, e éramos mais miúdos, e cada um trazia uma coisa, eu dava a casa ou as latas de atum, e outro levava as batatas, e alguém trazia a maionese, e uns iam buscar umas garrafas de vinho… a minha felicidade é igual. A única diferença é quando tens uma pessoa que tu amas e torna as coisas mais fáceis. E tudo faz sentido. E como eu percebo que é ele que faz a diferença na minha vida toda, eu tenho de arranjar uma forma de estar mais tempo ao pé dele. Porque ele não consegue mesmo deixar o trabalho dele, já percebemos por várias razões que é quase impossível, e passa-se lá em cima, e eu achei que ao criar um blogue que poderia ter essa liberdade. Só que quanto mais bem sucedido és, mais viajas, e menos tempo passas cá. É aquela coisa de te internacionalizares e ires mais vezes para fora e trabalhares com mais marcas internacionais… é bom, mas também não era bem aquilo que eu queria. Eu queria ser bem sucedida, mas achava que isso me ia permitir estar mais tempo ao pé dele. E não está a ser o caso. Então fui à procura de outra coisa - por isso é que cheguei à marca - que me permitisse produzir mas que não me implicasse tantas viagens, todos os meses, que me dê mais liberdade, que eu possa trabalhar de qualquer parte, mas ao pé dele. Nem que seja ver stocks, nem que seja a criatividade… e há muita coisa que eu posso produzir cá. Essa parte deixa-me contente. Era isso que eu queria. Ando sempre à procura de ficar mais perto daquilo que me deixa feliz. Quando tu percebes o que é que é, só não fazes se não quiseres. 

Andamos sempre à procura da nossa liberdade, e cada liberdade é diferente. A tua é o amor.

É o amor, sim. Porque eu agora ganho mais dinheiro, mas não me faz diferença. Claro que é bom teres mais dinheiro, mas não é fundamental. Eu comparo-me com alturas em que eu não tinha tanto dinheiro e a felicidade era igual. Se agora não tivesse dinheiro e o tivesse a ele, estava feliz na mesma. Porque com ele não tenho medo. Sabes aquela coisa de não teres medo que aconteça alguma coisa? Eu não tenho. Ele sabe cozinhar, eu não tenho vergonha de fazer nada, nunca tive, sempre trabalhei em sítios diferentes e fiz coisas diferentes e agora não teria vergonha de voltar a fazer nada. Eu tenho medo de não ter jeito para alguma coisa, de não ser bem sucedida, de falhar. Mas de trabalhar em qualquer lado não tenho. Agora queria caminhar para outro sítio, porque me quero sentir realizada e porque quero estar mais perto dele. 

Essa mudança também tem a ver com o que falávamos sobre a honestidade. A partir do momento em que não sentes que estás a ser 100% honesta com aquilo que fazes, tens de avançar.

Às vezes as pessoas não percebem. Dizem, “Mas está a correr tão bem”. E eu ainda vou continuar a fazer isto durante mais um tempinho, no máximo mais um ano. Depois não quero fazer muito mais. Mesmo. Já meti uma meta na minha cabeça. Que fique aqui registado que vou fazer o que quero, mas que se aparecer outra coisa, se a vida me preparar outra coisa qualquer, seja para a esquerda ou para a direita, está tudo bem. Desde que eu decida aceitar isso, não há problema. Às vezes tomamos decisões mas não sabemos o dia de amanhã, mas se puder, se tudo correr bem, era isto que eu gostava. Neste momento, estou cansada. Eu sou o meu boneco, eu é que decido tudo por mim, mas estou um bocadinho cansada. Acho que a era digital nos fez muito bem, que nos está a fazer muito bem e que é muito interessante, mas é muito desgastante. Tem de ser na hora. Tem de ser ao minuto. Está tudo à espera. Por isso é que eu acho que as revistas têm de ser especiais, tu tens de dar um conteúdo diferente de tudo o resto. O online é rápido, é ontem, é a notícia do bebé real, tens de falar ao mesmo tempo que toda a gente. Preciso de um bocadinho de calma na minha vida. Não sei onde é que a vou buscar, mas era o que eu queria. 

A liberdade, a escolha, é das melhores coisas que temos enquanto mulheres hoje em dia.

É, mas também é difícil. Eu por acaso nunca fui daquelas mulheres que se sentiram mal por ser mulheres, que se sentiram oprimidas, ou que tinha menos oportunidades. Senti muito, quando era miúda, a pressão da beleza física. Quando olhava para a televisão e para as mulheres na televisão - que horror, isto é um estereótipo muito grande -, havia um arquétipo físico da mulher, e eu era um bocado diferente daquilo que se estava à espera em televisão, e foi-me dito isso muitas vezes, que eu era diferente - e não era necessariamente uma coisa boa, a forma como me era dito [risos]. “Tu és assim, diferente, e dizes tudo o que pensas, e depois andas assim meia marrequinha, tens a voz muito fininha, falas muito alto”, na altura não tinha muitas maminhas… Mas eu ouvia e não me aquecia nem me arrefecia. Passava-me um bocado ao lado. Eu sempre fui assim, acho que és tu que constróis o teu mundo, e desde que as pessoas que tu gostas gostem de ti, está tudo bem. Realmente há coisas que tu não consegues controlar, às vezes outra pessoa é escolhida por determinadas coisas que tu não tens, e não tem mal, às vezes a questão é essa. Podem ser coisas que tu não controlas, mas mais cedo ou mais tarde as coisas que tu controlas vão-te levar a algum lado. Já deixei de me preocupar com isso. Quando era miúda preocupava-me muito, agora não. Já não olho para o lado, sequer. Antes olhava, aí nos meus 24, 25 anos, olhava e dizia “Uau, esta miúda faz isto”. Agora deixei de olhar, quero fazer o meu caminho. Olho para ver o que se está a fazer bem, olho para aplaudir, não olho para copiar, isso irrita-me um bocado. Tens mesmo de procurar a tua história e o teu caminho.

Raquel Strada © Jim Rosemberg

Só que o facto de seres figura pública significa que as pessoas vão sempre tentar pôr-te uma etiqueta, encaixar-te numa gavetinha. Por exemplo: dizes muito abertamente que não queres ter filhos. E isso é automaticamente notícia.

Sim… Mas isso é daquelas coisas: começaram por me perguntar quando é que eu me casava, eu nunca me quis casar. Vou-te dizer a verdade: para aí em duas entrevistas que eu dei quando era miúda, respondi que queria casar e ter três filhos. Lembro-me perfeitamente de ter respondido isto e de ir para casa, as duas vezes, a pensar, “Porque é que mentiste?”, porque eu nunca quis casar nem quis ter filhos. Eu gosto muito de crianças, e estou casada e estou feliz, mas não era uma coisa que eu quisesse. Eu menti porque tinha medo de dizer a verdade, porque achava que era uma coisa que a sociedade queria, o que é que vais responder? Estás a começar, e vais dizer o quê? Fui medrosa, é o que é. Mas a partir de uma certa altura, em que deixei de ter tantos medos, comecei a dizer a verdade e acho que as pessoas ficaram um bocado chocadas. Eu não sei o dia de amanhã, eu não te vou dizer “nunca”. Eu só costumo dizer “nunca” porque já não quero que me perguntem mais [risos]. A partir do momento em que te casas, é a primeira coisa que te perguntam. “E bebés?”. É a primeira coisa que querem saber quando dás uma entrevista. O que não tem mal, é o nosso instinto de nos reproduzirmos e de continuarmos a nossa espécie, mas não tenho muita vontade.

Talvez as pessoas não estejam à espera de uma honestidade tão grande, especialmente em assuntos que acabam por não ser consensuais no que toca ao papel da mulher na sociedade.

Sabes que há mulheres incríveis, que eu admiro, que me dizem, “Como é que tu não queres ser mãe? É um dom que só nós mulheres é que temos, é o dom de dar vida a alguém”, e eu consigo perceber e respeito. Talvez seja algo que esteja mesmo no nosso ADN, o instinto de nos reproduzirmos, mas para quem não tem isso assim tão forte, ou assim tão presente, é mais difícil de perceber. Eu não tenho um instinto maternal assim tão apurado. E nem tem a ver com egoísmo, eu nem sou muito de guardar as coisas para mim ou de não partilhar. Com o meu tempo se calhar sou, isso sou, mas as coisas físicas não. Mas tenho medo de se calhar não lhe dar a atenção que precisa, tenho medo de uma data de coisas. Eu sei que as pessoas dizem que se desencadeia aqui uma coisa qualquer, acredito muito nisso, foram muito poucas as pessoas que me disseram que se arrependeram de ter filhos, é muito raro, quase nunca acontece. Uma vez li uma entrevista sobre isso, pessoas que não queriam mesmo ter sido mães e foram, e que se pudessem voltar atrás não teriam tido filhos. Tudo tem a ver com a tua individualidade e com o teu processo de poderes escolher o que queres fazer com a tua vida, e acima de tudo seres honesta com a pessoa com quem estás, se quiseres fazê-lo com alguém, ter um filho com alguém. Quando o Kitó me pediu em casamento, a primeira coisa que eu lhe disse, antes de lhe responder, foi “Mas tu sabes que eu não quero ter filhos”, porque é uma coisa que é muito fraturante nos casamentos. E não tem mal, tu não podes querer partilhar a tua vida com alguém e quererem coisas completamente diferentes. Ter filhos, se ele quiser e eu não, ou se eu quiser e ele não, isto pode fazer com que nós não fiquemos juntos. A minha sorte é que ele por acaso também não quer, apesar de ele sempre me ter dito “a partir do momento em que tu quiseres ter, eu tenho muito pouco voto na matéria, porque és tu que vais decidir, porque é o teu corpo, vou ajudar a criá-lo mas passa muito por ti. Se tu quiseres muito ter, eu terei” [risos]. Foi decidido em conjunto, eu não enganei ninguém. Irrita-me um bocado essa pergunta, mas entendo-a, e é por isso que dou respostas tão claras.

O facto de seres tão clara e tão assertiva e sincera também ajuda outras mulheres que estão na tua posição, e que têm poucas pessoas que as entendam, e que assim se sentem identificadas com alguém, percebem que é normal e não estão sozinhas.

Eu espero que sim, espero que as pessoas não tenham filhos quando não querem, é uma grande responsabilidade. Já montes de miúdas me disseram isso, vieram ter comigo e disseram, “Ai, fico tão contente por tu não quereres ter filhos, porque eu também não quero e ninguém me percebe, não tenho um instinto maternal”. E a uma delas eu disse, “Olha, tu és livre de mudares de ideias se um dia quiseres, também não te metam na cabeça que por teres dito isto uma vez, tens de dizer para sempre. Eu se quiser mudar de ideias um dia, mudo, mas aquilo que sinto é que nós não temos de ser obrigadas a fazer nada, a procriar só porque somos mulheres”. Eu adoro crianças, vou ser uma ótima tia Raquel. Eu não gosto de estar sozinha, gosto muito dos meus amigos, de companhia. Mas não me vejo a tomar conta de uma criança. Se um dia mudar de ideias, terei, ou tentarei ter. É uma coisa que só com o tempo é que sabes. Eu não posso dizer que não nem que sim determinantemente a nada. A vida muda. Nós mudamos. As pessoas são livres de mudar de opinião e eu não julgo ninguém em relação a isso, por isso espero que não me julguem a mim.

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