Beleza  

Querido diário: os benefícios do journaling

22 Jun 2026
By Francisca António

Nora van der Tuin fotografada por Jakov Baricic, com styling de Manda Javorina, a edição Memory da Vogue Portugal, publicada em abril de 2024.

Numa época em que tudo acontece depressa — as notificações, as decisões, as emoções —, há algo de radical em pegar numa caneta e escrever. Não para publicar. Não para partilhar. Apenas para nós.

Há certas emoções que não conseguimos ou não queremos dizer em voz alta. Mas precisamos, ainda assim, de as deitar cá para fora. O journaling, ou a prática de escrever num caderno as nossas emoções, em bom português, é uma espécie de resposta a essa necessidade terapêutica a solo, uma forma de expressar os sentimentos mais profundos numa escrita que fica só para nós e que funciona como método que nos ensina a parar e a observar o estado de espírito e a vida que nos rodeia.

Colocar por escrito o que sentimos é uma tendência que está a ganhar cada vez mais adeptos. Mas o que é, exatamente, o journaling? É a prática de escrever de forma intencional e regular sobre pensamentos, emoções e experiências, hoje reconhecida pela psicologia, pela neurociência e pela medicina como uma das ferramentas mais acessíveis e mais eficazes para o bem-estar mental e físico: escrever regularmente sobre o que sentimos a cada dia é uma forma de tera- pia pessoal. É uma espécie de diário, mas não a mesma coisa, uma vez que um diário, enquanto termo de um imaginário mais adolescente, será o recorte episódico do quotidiano, muitas vezes em descrições superficiais dos eventos do dia; o journaling, por sua vez, é uma ferramenta de autoconhecimento e organização mental. É uma forma de dar estrutura a pensamentos, aliviar a ansiedade e, em muitos casos, até de aumentar a criatividade.

O psicólogo James Pennebaker, da Universidade do Texas, dedicou décadas a estudar o efeito da escrita expressiva no corpo humano. As conclusões que tirou foram surpreendentes e esclarecedoras: escrever sobre experiências ou momentos emocionalmente significativos durante apenas 15 a 20 minutos, ao longo de três a quatro dias, produz melhorias mensuráveis na saúde, implicando menos visitas ao médico, sistema imunitário mais forte e menor pressão arterial. A explicação disso está no cérebro. Quando escrevemos sobre aquilo que sentimos, ativamos o córtex pré-frontal — responsável pelo pensamento racional e pela regulação emocional —, reduzindo a atividade da amígdala, centro de alarme do nosso sistema nervoso. Em termos simples: colocar as emoções por palavras ajuda o cérebro a processá-las em vez de as ponderar em demasia.

O journaling não substitui a conversa, mas prepara-nos para ela. (...) Ensina-nos a distinguir o que sentimos, o que queremos dizer, o que é nosso e o que é do outro.

Os benefícios são vastos e transversais ao corpo inteiro. Escrever sobre preocupações dá-nos a sensação de que as tiramos da cabeça para um espaço externo, onde perdem parte do seu poder — com os níveis de cortisol a diminuir, os sintomas de ansiedade recuam. Se optar por o fazer ao final do dia, o sono melhora, porque escrever antes de dormir ajuda a fechar o dia mentalmente, facilitando a transição para o descanso. O journaling tem sido usado clinicamente no acompanhamento de pessoas em processos de luto, recuperação de traumas ou transições difíceis — dar esta forma narrativa à dor não a elimina, mas permite integrá-la. E há ainda um benefício, que surpreende quem chega ao journaling pela primeira vez: uma investigação publicada no Journal of Consulting and Clinical Psychology demonstrou melhorias na função imunológica em pessoas que escrevem regularmente sobre as suas emoções.

Para além do corpo, há também o que acontece à mente. Quando estamos sobrecarregados de pensamentos, tudo parece igualmente urgente. Escrever obriga a ordenar; hierarquizar e perceber o que é essencial naquele momento. E reler entradas de semanas ou meses anteriores é, frequentemente, um ato revelador e até surpreendente — padrões de comportamento, gatilhos emocionais recorrentes, medos que se repetem, emoções que naquele momento nos transbordavam, mas que agora são meras recordações, existe assim uma evolução do nosso estado de espírito e mental. O diário torna-se um espelho honesto, sem filtros. Há também uma dimensão profundamente relacional na prática deste método. Ao escrever sobre os outros, sobre uma conversa que ficou por resolver, sobre uma amizade que se foi afastando, sobre um conflito que não encontrou palavras —, ganhamos distância suficiente para ver a situação com mais clareza e menos rancor. O journaling não substitui a conversa, mas prepara-nos para ela: com a escrita, podemos reconhecer certos pontos de vista que poderíamos ter tido, ou mudar a nossa perceção sobre tal assunto, ou seja, no início, pensávamos de uma certa forma e agora vemos esse momento com outros olhos através da escrita. Ensina-nos a distinguir o que sentimos, o que queremos dizer, o que é nosso e o que é do outro.

A relação com o próprio corpo é outro território que a escrita pode transformar. Vivemos numa cultura que nos habituou a observar o corpo de fora — a avaliá-lo, a compará-lo e a corrigi-lo. O journaling propõe o inverso: escrever a partir do corpo, sobre o que ele sente, sobre o que carrega ou sobre o que precisa. Mulheres que adotaram esta prática descrevem, com frequência, uma mudança delicada mas significativa dos seus pensamentos sobre o seu corpo — não necessariamente na forma como se mostra, mas na forma como é habitado.

Uma das maiores resistências à prática (de journaling) é a ideia de que é preciso ter jeito para as palavras. Não é. (...) É precisamente esse desprendimento que torna a prática terapêutica.

Na prática, há diferentes formatos dessa escrita que as pessoas usam para expressar o que sentem: há quem use as famosas morning pages, popularizadas pela escritora Julia Cameron, que consiste em escrever três páginas logo de manhã, sem rodeios ou filtros. Existem também os prompts guiados, que incentivam as pessoas a fazer reflexões específicas; e o método dos diários visuais, que unem a escrita com colagens e desenhos, onde se expressam os momentos passados ou até as emoções que se quer sentir.

Existe ainda uma forma particular de journaling que tem ganho expressão nos últimos anos: o journaling somático. Diferente da escrita livre ou do registo emocional, esta abordagem convida a começar pelo corpo, para libertar emoções armazenadas — a notar uma tensão no peito antes de a nomear, a perceber onde se instala o medo e onde reside a alegria. Une a escrita à consciência corporal e ajuda a identificar sensações físicas; parte do princípio, sustentado pela investigação em neurobiologia, de que o corpo processa e armazena experiências antes de a mente as conseguir articular. A prática deste journaling resume-se a três palavras: conexão, observação e escrita. Fazer algumas respirações profundas, identificar qualquer área de tensão e escrever livremente sobre o que sente e que emoções parecem estar associadas a esta sensação. Escrever a partir dessa escuta física é, para muitos, a forma mais honesta e mais reveladora de aceder ao que realmente se passa por dentro.

Existe ainda o journaling de gratidão, talvez o método desta prática mais estudado cientificamente. Registar diariamente três coisas pelas quais se é grata — por mais pequenas que sejam —, ajuda a equilibrar gradualmente a atenção do cérebro. Em vez de se fixar no que falta, começa a notar o que existe. Investigadores da Universidade da Califórnia, liderados por Robert Emmons, demonstraram que pessoas que praticam journaling de gratidão, relatam níveis mais elevados de bem-estar, mais energia, menos sintomas físicos e maior otimismo em relação ao futuro.

Uma das maiores resistências à prática é a ideia de que é preciso ter jeito para as palavras. Não é. O caderno não tem leitor, fica só para si quando quiser ler ou relembrar que, num certo ponto, se sentiu dessa forma. Não tem gramática obrigatória. Pode ser uma frase, uma lista, um rabisco seguido de três palavras soltas. O que importa é a regularidade e a honestidade — escrever sem se editar, sem se julgar ou sem pensar em como soa. É precisamente esse desprendimento que torna a prática terapêutica.

Há qualquer coisa de profundamente contracultural na prática do journaling. (...) Acontece no silêncio, nas páginas dobradas e nas frases que nunca ninguém vai ler.

Não é necessário o caderno perfeito, nem o momento ideal. Basta escolher um horário — de manhã, antes de dormir ou até na pausa do almoço — e comprometer-se com dez ou quinze minutos e escrever. Uma pergunta de partida pode ajudar: O que estou a sentir agora, sem tentar justificar? O que me pesou hoje? O que preciso de deixar ir? Com o tempo, a prática instala-se. E aquilo que começa como um exercício torna-se um ritual — o momento do dia em que se para, se respira, e o foco são os seus sentimentos.

A ciência do sono tem dedicado atenção crescente ao papel da escrita no descanso noturno. Um estudo publicado no Journal of Experimental Psychology revelou que as pessoas que escreveram uma lista de tarefas concretas para o dia seguinte — não um diário emocional, mas um plano simples e específico do seu dia — adormeceram significativamente mais depressa do que aquelas que escreveram sobre o que já tinham concluído. A hipótese é que o cérebro, ao ver as tarefas pendentes registadas no papel, consegue finalmente soltar a vigilância que as mantinha ativas. É como se a página funcionasse como uma extensão da memória e que a mente, aliviada, finalmente pudesse descansar.

Há qualquer coisa de profundamente contracultural na prática do journaling. Vivemos num tempo que valoriza a produtividade visual, a partilha constante ou o desempenho público de uma vida bem vivida. O diário não apresenta nada disso. Não tem audiência, não gera conteúdo e não é utilizável. É um espaço que existe apenas para quem o escreve — imperfeito, contraditório, e às vezes incoerente. E é precisamente por isso que funciona. Porque o bem-estar real não acontece em frente à câmara. Acontece no silêncio, nas páginas dobradas e nas frases que nunca ninguém vai ler.

Talvez o mais surpreendente de tudo seja isto: não é o que se escreve que transforma. É o ato de parar. De escolher, dia após dia, sentar-se consigo própria sem agenda, sem julgamento, sem a pressão de ser produtiva ou se chegou a uma conclusão na sua escrita. Esta prática ensina, acima de tudo, uma forma de estar — que é presente, curiosa e gentil em relação ao próprio interior. E essa gentileza, praticada em privado, numa página que ninguém vai ler, acaba inevitavelmente por transbordar. Para a forma como se fala e de como se aparece ao mundo. O que torna o journaling verdadeiramente singular, no panorama das práticas de bem-estar, é a sua completa ausência de requisitos. Não exige equipamento, subscrição, espaço específico. Exige apenas a vontade de se sentar consigo própria — e isso, num mundo que nos convida permanentemente para fora, é talvez o gesto mais corajoso de todos.

Numa época em que somos constantemente distraídos — pelos ecrãs, pelas opiniões dos outros, para o que ainda falta fazer —, o journaling é um ato de regresso. Ao silêncio. À página em branco. A si.

Originalmente publicado no The Words Issue, a edição de junho de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui.

Francisca António By Francisca António
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