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Tendências 10. 9. 2019

Será que os protetores solares são mesmo perigosos para os oceanos?

by Joana Moreira

 

Um estudo foi o suficiente para criar o alvoroço em torno dos protetores solares e do seu possível impacto nos recifes de corais – e na saúde humana. Seguiram-se proibições de ingredientes, alternativas questionáveis e uma comunidade científica muito longe do consenso. Não vestimos o fato, mas mergulhámos até ao fundo da questão. 

 © Getty Images

Fosse a Beleza uma religião e “usarás sempre proteção solar” seria o primeiro dos mandamentos. Mas, nos últimos tempos, começámos a deparar-nos com informações de que os protetores solares, cujo uso tanto apregoávamos durante anos, podiam, afinal, estar a destruir os recifes de corais, que estão a morrer um pouco por todo o mundo, a um ritmo absolutamente inédito. 

No centro de tudo isto está um estudo de 2015, publicado no Archives of Environmental Contamination and Toxicology (Arquivos de Contaminação e Toxicologia Ambiental), intitulado Toxicopathological Effects of the Sunscreen UV Filter, Oxybenzone (Benzophenone-3), on Coral Planulae and Cultured Primary Cells and Its Environmental Contamination in Hawaii and the U.S. Virgin Islands. Em linhas gerais, o estudo procura demonstrar como a exposição à oxibenzona - um ingrediente comum nos produtos de proteção solar - pode causar a erosão e branqueamento dos corais, conduzindo à sua morte. 

De um ponto de vista político, os efeitos desta publicação científica não tardaram. Em fevereiro, o Havai tornou-se o primeiro estado norte-americanoa proibir a venda e distribuição de protetores solares que contivessem oxibenzona e octinoxato, dois ingredientes apontados como responsáveis pela destruição dos corais e presentes em muitos protetores. Ao estado do Havai, já se seguiu também o Palau.

Em pouco tempo, as conclusões do estudo foram não só notícia, como chegaram à indústria da cosmética. Só este verão, várias foram as empresas de protetores solares a mudar a sua estratégia de comunicação no sentido de diabolizar a oxibenzona em favorecimento de outros ingredientes e promovendo os seus produtos “amigos dos oceanos” e dos recifes de corais.

Simultaneamente, na crista da onda deste movimento levantou-se outra suspeita: o impacto da oxibenzona sobre a saúde. A dúvida instalou-se: podem os protetores solares, afinal, fazer mal e não bem? 

Comecemos pelo princípio, e pela oxibenzona. Trata-se de um filtro solar, tendo por isso a função de bloquear os raios UV. Cristina Vasconcelos, dermatologista, explica que esta é uma substância “absorvente eficaz da radiação solar e por isso largamente utilizada nos protetores [solares] químicos”. Sobre o impacto deste ingrediente na saúde humana, a dermatologista esclarece: “Em relação ao ser humano, estes dois produtos [oxibenzona e octinoxato] estão apenas relacionados com raros casos de reação alérgica. Sabe-se que a oxibenzona pode ativar os recetores estrogénios e por isso influenciar o sistema endócrino [sistema formado pelas glândulas endócrinas, que produzem as hormonas], embora até hoje não haja evidência científica de relação com o desenvolvimento de alguma patologia deste foro.” Também Marta Ferreira, farmacêutica e autora do blogue A Pele que Habito, assume a falta de provas para as alegações de que estes ingredientes são maléficos para a saúde. “O controlo de alguns ingredientes cosméticos, como são os filtros solares, é especialmente apertado. A segurança dos ingredientes cosméticos usados na Europa é avaliada periodicamente por um comité independente, pertencente à Comissão Europeia, e nunca foi provado qualquer malefício decorrente da aplicação da oxibenzona à superfície da pele humana nas concentrações máximas permitidas, e em indivíduos não sensíveis a esta substância”.  

No entanto, como admite Cristina Vasconcelos, “a maioria das empresas de indústria farmacêutica estão a fazer um esforço para substituir estes dois componentes [oxibenzona e octinoxato] por outras substâncias eficazes na fotoproteção”, graças a “estudos recentes [que] mostram que a oxibenzona e o octinoxato, lançados em várias toneladas anualmente para os oceanos, prejudicam o desenvolvimento dos corais levando ao seu branqueamento e destruição”. Mas prejudicarão mesmo?

Comunidade científica divide-se

Apesar de ter sido aceite por muitas marcas de cosméticos, o estudo de, entre outros, Craig Downs não está livre de críticas. À revista norte-americana Pacific Standardo ecologista Eric Hochberg mostra-se cético com os resultados da investigação, que acusa de “falta de realismo” nas condições laboratoriais. Além disso, lembra que as águas do Havai sofreram com o fenómeno climático El Niño. “Se estes químicos fossem perigosos, já veríamos um impacto”, diz à mesma publicação. “Se estes químicos estão no ambiente há tanto tempo, há uma década pelo menos, porque é que há tantos corais ainda?”. Marta Ferreira, farmacêutica, adianta outros fatores que nos devem motivar a ter um olhar crítico sobre o documento publicado em 2015. “Este estudo permite-nos apenas conhecer a concentração mínima necessária de oxibenzona para se observar branqueamento da espécie de coral na sua fase larvar, não em colónias como encontramos nos recifes, e em condições laboratoriais, onde não há correntes marítimas capazes de diluir esta substância pelos oceanos”, diz. “Segundo o mesmo estudo, as condições laboratoriais usadas poderão ultrapassar aquilo que muitas vezes encontramos na realidade, já os investigadores apenas encontraram alguns locais nas Ilhas Virgens Americanas onde estas concentrações serão atingidas, sendo que a oxibenzona não foi sequer detetada na maioria das zonas analisadas”, atenta. 

A tentação de tirar uma conclusão precipitada é grande. “À primeira vista, a conclusão deste estudo pode parecer alarmista. Mas se, por um lado, seria necessário replicar estas medições, inclusivamente em outros locais do mundo não frequentados por turistas e onde se observa um maior branqueamento de corais, será igualmente importante perceber se as concentrações consideradas "perigosas" pelo estudo serão nocivas para outras espécies, se há bioacumulação destas substâncias, e estudar este fenómeno em colónias de corais, visto que o estudo se debruçou apenas no estudo das larvas. Mas o mais importante é que este estudo não permite clarificar qual será a relevância da exposição à oxibenzona no processo de branqueamento dos corais quando comparada com o aquecimento global, pesca excessiva, exposição a poluentes ou acidificação da água decorrente da absorção de dióxido de carbono. Ao contrário da oxibenzona ou de outros filtros solares, estes fatores são atualmente reconhecidos como ameaças para os recifes de corais, e por isso poderemos estar a confundir a origem deste problema”, remata a farmacêutica. 

Também Terry Hughes, diretor de um centro de pesquisa dedicado aos recifes de corais, na Universidade James Cook, na Austrália, mostra descrença nos resultados apresentados. À Pacific Standard, Hughes diz que as experiências laboratoriais podem efetivamente ser reveladoras quando acompanhadas por investigação de campo que corrobore as conclusões. Por isso mesmo, aponta o facto de, até à data, não existirem estudos que comprovem o impacto dos químicos presentes nos protetores solares em corais no seu ambiente natural. “O comportamento do protetor solar na água quando sai das costas de um turista é uma folha em branco – nunca ninguém estudou isso”, afirma. 

Pedro Frade é investigador do Centro de Ciências do Mar do Algarve (CCMAR). À Vogue, explica como é necessário ter especial consideração pelos dados apresentados. “Eu diria que a evidência científica existente é forte tendo em conta os resultados científicos, mas é limitada em termos de número de estudos”, começa por dizer. “O que isto quer dizer é que não sabemos ainda exatamente as reais proporções deste problema, e por isso devemos agir com cautela. Agir com cautela nestas questões pressupõe, no meu entender, precaver-nos para a pior situação”, afirma. É o clássico “mais vale prevenir do que remediar”, mas a que custo? “É muito melhor agir no sentido de proteger os recursos naturais dos quais dependemos como sociedade global e como espécie humana, do que correr o risco e enfiar a cabeça debaixo da areia, para descobrir mais tarde que devíamos e podíamos ter feito algo se tivéssemos agido atempadamente no sentido de acautelar eventuais consequências. A evidencia científica, no entanto, não aponta apenas para um efeito destes químicos no branqueamento dos corais, mas para um efeito nos seus estados juvenis (larvas de coral) e, portanto, na sua capacidade reprodutiva e de regeneração de recifes já afetados por outros fatores mais reconhecidos, como o aquecimento global”, diz.

A prudência é, para o investigador de recifes de corais, a chave: “Temos de oferecer a estes ecossistemas as melhores possibilidades de sobrevivência no contexto das alterações climáticas, e fazer o melhor para limitar o acumular de stresses de diferentes origens é essencial porque o problema do aquecimento das águas é suficientemente devastador por si mesmo. Na minha opinião, temos o dever ético, como sociedade global, de limitar o nosso impacto ecológico a um mínimo possível. Muito desse impacto depende de decisões individuais no nosso dia-a-dia, nas nossas casas, nas nossas férias, na maneira como usamos os recursos e como interagimos com o ambiente. Modificar pequenas coisas, como reduzir ou limitar o uso de protetores solares que podem danificar os recifes de coral, pode reduzir a sobrecarga de diferentes stresses que afetam os recifes e, portanto, ajudá-los a sobreviver.”

Alternativas: um novo problema? 

Por enquanto, a alternativa aos protetores solares agora banidos em alguns pontos do planeta passa por compostos minerais como o óxido de zinco e o dióxido de titânio. Estes “formam uma barreira física fazendo uma reflexão da radiação UV”, explica a dermatologista Cristina Vasconcelos. Isto é, refletem a luz solar em vez de absorverem os raios solares.  

Podemos escolher um destes e ficar de consciência tranquila? Not so fast. “Para os apoiantes da teoria de que os filtros solares terão um papel no branqueamento dos corais será também importante saber que óxido de zinco e dióxido de titânio também já levantaram algumas dúvidas acerca da sua contribuição para este fenómeno, especialmente na forma de nano partículas. Até que ponto um aumento da utilização deste tipo de produto não será contraproducente? Tal como no caso da oxibenzona, estas conclusões são igualmente dúbias e precisam de ser clarificadas antes de avançarmos para medidas drásticas”, diz Marta Ferreira, farmacêutica.  

Com tantas alternativas a supostos problemas e informação contraditória a ser veiculada, fica difícil tomarmos decisões sustentáveis e conscientes. Por enquanto, o que devemos fazer? “Se o consumidor pretende viajar para zonas contendo espécies de corais protegidas, e sobretudo se pretender nadar junto desses corais, será importante que haja produtos que obedeçam à legislação do país de destino”, diz Marta. “Fora dessas zonas, e numa perspetiva global, talvez seja mais produtivo começarmos a encarar a luta contra as alterações climáticas e a redução da biodiversidade atuando sobre as suas causas conhecidas e predominantes.” E, em todo o caso, usar protetor. 

 

Artigo originalmente publicado na edição de agosto de 2019 da Vogue Portugal.

 

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