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Notícias 27. 9. 2019

Plástica corrente

by Rossana Mendes Fonseca

 

Alterações climáticas, extinção animal ou redução da biodiversidade são tópicos de discussão muito complexos que têm sempre o excesso de consumo e poluição associados. Mas de que tipo de poluição é que se fala quando se trata de detritos que não se dissipam facilmente na natureza? A poluição plástica.

© Nik Mirus

Abanalização do uso de plástico nas últimas décadas tem sido alvo de preocupação nos nossos dias e uma série de propostas para a sua substituição têm sido colocadas na mesa. No entanto, sentimos a balança da sustentabilidade constantemente a oscilar. Se, por um lado, achamos que “estamos a pôr” quando encontramos materiais supostamente mais amigos do ambiente, rapidamente nos vemos “a tirar” quando descobrimos que esses materiais necessitam de processos de produção mais dispendiosos, que envolvem mais recursos e que nem sequer são fáceis de reciclar.

Zero Waste Lab é uma associação sem fins lucrativos, cujo objetivo é a promoção de uma prática de “lixo zero”. Iniciativas educativas e de sensibilização, tal como workshops, palestras ou atividades comunitárias, bem como instalações tecnológicas de transformação e reutilização de plástico, constituem alguns dos focos de ação desta associação. De modo a obtermos um esclarecimento sobre o plástico e os seus possíveis substitutos, falámos com Débora de Sá, membro da equipa da Plastic Sun Days, um dos projetos da Zero Waste Lab, criado por Ana Salcedo, em 2016, que começou por ser um movimento de limpeza de praias aos domingos com amigos. “O plástico é um material fantástico”, declara. “É versátil, leve, duradouro, barato... e foi graças a ele que evoluímos muito em áreas como a tecnologia, a saúde ou os transportes.” A ativista da Plastic Sun Days, embora ache que este material teve um papel relevante na democratização de bens e serviços, considera que é também o protagonista de uma poluição fora de controlo, que está “a afetar países e comunidades mais vulneráveis.” “Um dos grandes erros em relação à sua empregabilidade — sendo o plástico um material eterno, que nunca desaparece, pois quebra-se em micropartículas —, é ser utilizado em produtos de consumo de curto prazo ou simplesmente desnecessários, como os descartáveis”, afirma. “Outro grande problema tem a ver com a falta de regulamentos na sua composição. Aditivos, químicos, misturas, que além de prejudiciais para a saúde, dificultam ou até impossibilitam a sua reciclagem”, conclui.

Susana Fonseca, membro da ZERO - Associação Sistema Terrestre Sustentável, corrobora a posição de Débora de Sá: “O plástico é um material muito durável que está a ser usado para inúmeras funções de vida muito curta, os descartáveis, que, uma vez excluídos, ficam no ambiente muitos e muitos anos”, sustenta. “É difícil de degradar e de reciclar nas muitas formas e utilizações em que o encontramos hoje. Muitas vezes, possui substâncias que provêm de fontes não renováveis, podendo ser perigosas e migrando para o ambiente com impacto na nossa saúde”.

A também investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa indica-nos um documento desta organização não governamental — fundada em 2015, de promoção contra a degradação ambiental e a insustentabilidade no uso dos recursos naturais —, que defende uma abordagem circular da economia. O documento sobre o problema da descartabilidade do plástico, emitido em fevereiro deste ano, expõe que as práticas de produção e consumo atuais, lineares e crescentes, deveriam ser substituídas pela circularidade. No entanto, para que este modelo seja relevante, a representante da ZERO explica que tem de se focar, sobretudo, na redução da quantidade e da perigosidade dos materiais, e na sua reutilização — na qual os processos de reparação e atualização estão incluídos. E que, a reciclagem — que é para este tipo de economia, aquilo que a incineração ou o aterro são para uma economia linear de desperdício, ou seja, o fim de linha —, é ainda uma solução muito incompleta.

Foi estimada uma produção de 300 milhões de toneladas de plástico por ano, do qual metade é para objetos descartáveis, ou seja, de consumo único e desperdício instantâneo. Ao mesmo tempo, 20% a 70% do plástico enviado para reciclagem é inutilizado, indo parar à natureza ou a aterros sanitários, em vez de ser transformado em novos objetos. “As misturas, de facto, não favorecem a reciclagem”, refere Débora. “Embalagens de plástico com rótulos de papel, por exemplo, ainda que sejam separadas e encaminhadas corretamente para o caixote amarelo, o custo do seu tratamento não é compensatório e, por isso, acabam muitas vezes em aterros sanitários ou incineradoras. O mesmo vale para tipos de plástico que são misturas, que têm valor de reciclagem baixo”. “Alguns plásticos (polímeros) são mais fáceis de reciclar, muito embora a junção de aditivos, colas ou cores possa por vezes prejudicar a sua reciclagem. Alguns são também mais seguros para a nossa saúde e para o ambiente, ao passo que outros estão claramente identificados como sendo desaconselháveis, como é o caso do PVC”, comenta Susana. “De qualquer modo, se descartados no ambiente, todos têm impactos significativos, nem que seja através da transformação em microplásticos”. A fragmentação dos objetos plásticos em partículas muito pequenas é uma das grandes preocupações na manutenção da vida animal, principalmente aquática.

Em março deste ano, foi encontrada uma baleia morta nas Filipinas, um dos países que recebe lixo de grandes consumidores como os Estados Unidos, com 40 quilos de plástico no estômago. Façamos o seguinte exercício: imaginemos que fazíamos parte da equipa de limpeza do set de filmagens de Romeo + Juliet de Baz Luhrmann e que chegávamos ao set no fim da festa. É mais ou menos assim que está o mundo, só que aquele glitter todo está distribuído pelo território aquático e nós somos os países importadores de lixo das grandes potências. Segundo a posição da ZERO, a redução de plástico de origem fóssil (petróleo) e a substituição por plástico descartável ou biodegradável é uma proposta insuficiente. O processo de reciclagem do plástico é tão complexo que a substituição ou a adição de um elemento num polímero pode impedi-lo de ser reciclado em conjunto com outros. Assim, plásticos fósseis e plásticos biodegradáveis não são, muitas vezes, misturáveis.

No documento emitido pela organização de defesa de desenvolvimento sustentável, é referido que a insuficiência de uma recolha seletiva de resíduos orgânicos faz com que os bioplásticos não entrem num processo de circularidade e ainda contaminem outros resíduos em tratamento pela dificuldade numa dissipação natural. A análise do ciclo de vida dos materiais, que vai desde a sua extração da natureza até ao seu fim de vida, é relevante nas escolhas que fazemos. Os materiais biodegradáveis, como o papel ou, então, os bioplásticos, requerem condições naturais de dissolução muito específicas. Os bioplásticos precisam de temperaturas de 50 graus Celsius ou exposição a raios UV para se degradarem, o que não acontece nem em oceanos, nem em aterros. Aliás, todos os detritos biodegradáveis que se acumulam, sem oxigénio, produzem metano, que é um gás com um grau de ação muito pior que o dióxido de carbono.

Por outro lado, a fabricação de opções de papel ou algodão, como sacos de compras, consome imensa água. Trata-se, portanto, do modo como o material será usado que poderá ditar o impacto ambiental que vai ter, e não apenas a sua composição mais ou menos biodegradável. “Devemos ter cuidado, acima de tudo, com as substituições. Vale de facto muito pouco trocar um prato descartável feito de plástico, por um biodegradável de farelo de trigo. A ideia é evitar a todo o custo descartáveis e qualquer artigo desnecessário, seja ele feito de que material for, pois em última instância, todos os produtos são feitos de materiais retirados da natureza”, afirma Débora. A substituição de sacos ou embalagens de plástico é muitas vezes feita por descartáveis ditos de papel. Esta opção, de acordo com a representante da Plastic Sun Days, pode revelar-se uma pior alternativa: “[O papel] gasta mais recursos, além de que quando são substitutos de copos descartáveis plásticos, por exemplo, são piores, pois não são 100% papel e, portanto, não são recicláveis”.

Um estudo sobre o impacto ambiental de sacos de plástico versus alguns atuais substitutos, publicado no site da QUARTZ em abril deste ano, revela que os primeiros não são necessariamente os mais nocivos. Este material continua a ser o maior problema relativamente ao depósito de lixo aquático. Não obstante, naquilo que concerne outras variáveis como alterações climáticas, destruição da camada de ozono, poluição do ar, toxicidade humana ou o uso excessivo de recursos — como o de água —, há outros materiais mais impactantes.

“Se usam mais recursos, simplesmente não são materiais mais amigos do ambiente”, declara Débora. “Acho que vai demorar alguns anos até que materiais verdadeiramente sustentáveis cheguem a grande escala. É preciso pesar toda a cadeia de produção para realmente calcular se aquilo é mais sustentável ou não”, explica, clarificando: “Por exemplo, se uma pessoa utiliza um saco de compras reutilizável de algodão, este saco tem de ser utilizado quase 7.100 vezes para neutralizar o seu impacto no ambiente. E se a mesma pessoa comprar sacos de lixo, mais valia reutilizar os sacos plásticos das compras para este fim, seria mais sustentável. É um cálculo super complexo.”

“DEVEMOS TER CUIDADO, ACIMA DE TUDO, COM AS SUBSTITUIÇÕES. VALE DE FACTO MUITO POUCO TROCAR UM PRATO DESCARTÁVEL FEITO DE PLÁSTICO, POR UM BIODEGRADÁVEL DE FARELO DE TRIGO. A IDEIA É EVITAR A TODO O CUSTO DESCARTÁVEIS E QUALQUER ARTIGO DESNECESSÁRIO.” DÉBORA DE SÁ

Perante o supremo tribunal ecológico, nenhum material é inofensivo relativamente à sua pegada ecológica. Tal como o plástico, o papel ou o tecido, o vidro e o alumínio também têm as suas culpas no cartório. O alumínio é proveniente de um mineral chamado bauxite, cuja exploração provoca contaminação de águas e erosão dos solos, entre outros efeitos. No entanto, constitui uma boa opção quanto à incorporação de embalagens ou recipientes descartáveis, pois é completamente reciclável, bem como leve e resistente para transporte e embalamento.

Já o vidro, que é o inverso do alumínio pelo seu peso e fragilidade, necessita de um transporte e embalamento mais cuidadosos e, portanto, dispendiosos, é uma óptima preferência face a uma forma de economia circular. “A grande vantagem do vidro é que ele é infinitamente reciclável, diferentemente do plástico, que perde qualidade de todas as vezes que é reciclado”, defende Débora de Sá. “Além disso, o vidro é esteticamente mais bonito e mais higiénico, tornando-o numa melhor escolha em termos de reutilização”. Nesta lógica da reutilização dos materiais, uma das medidas apoiadas pela ZERO é a implementação do sistema de tara.

Este sistema não só torna mais evidente para o consumidor os recursos de que dispõe, sem o prejudicar — pois é imediatamente atribuído um valor monetário ao objeto que pode ser recuperado aquando da devolução, impedindo o fácil abandono ou desperdício —, como também fomenta hábitos de consumo mais comedidos e circulares. Para Susana Fonseca, a solução passa por apoiar a redução da produção e consumo e a aposta na durabilidade e na circularidade. “Repensar, reduzir, reutilizar e só então reciclar. As mudanças mais importantes passam por pensar bem se realmente é necessário comprar algo e depois, se for mesmo preciso, comprar algo que possa ser reutilizado, que já seja reutilizado ou em segunda mão, que seja reparável, que possa ser atualizado, etc.”, argumenta. “Também é muito importante que quem coloca produtos no mercado integre, desde a origem, no design do produto, as características que lhe permitirão ser mais durável, reutilizável e menos tóxico”.

Com todas estas variáveis em mente, a escolha de cada um pertence a cada qual. E deve ser feita consoante uma real necessidade, que muitas vezes se prende com olhar à volta e, tal como tentamos fazer sentido daquilo que são as nossas necessidades vitais, tentar perceber essa vida dos objetos, que vão permanecer connosco no mundo. E, ainda que este mundo tenha concorrido, ao longo dos últimos anos, para uma economia do descartável (a vários níveis), pensarmos então melhor sobre as soluções mais duradouras, mais sólidas, mais intemporais, e que são coerentes com o mundo que queremos ter. E tornar isso uma prática corrente.

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