Lifestyle  

Para lá da pop: Pierre et Gilles

05 Feb 2024
By Maria Inês Pinto

The Fame Issue | Portefólio

A dupla que dá vida a uma das capas do The Kitsch Issue com Luz Pavon como protagonista, já foi a estrela do Portefólio do The Fame Issue. Recordamos o artigo.

Pierre et Gilles dedicam-se a representar a experiência humana refletida em caras conhecidas. Mas há muito para além do óbvio, e estas imagens estão repletas de significados inesperados, que transcendem a pop culture.

Antes da fotografia, da pintura, dos holofotes e das celebridades, foi o amor. Pierre Commoy e Gilles Blanchard conheceram-se em Paris, em 1976, durante a abertura de uma loja da Kenzo. Pierre era fotógrafo, Gilles pintor. Costuma dizer-se que o prazer e o trabalho não se juntam, mas a dupla Pierre et Gilles é inseparável no amor e na arte há mais de 40 anos – e juntos representam o melhor da pop culture como poucos conseguem. “É difícil pensar na cultura contemporânea sem a influência de Pierre et Gilles, desde a publicidade à fotografia de moda, videoclipes e filmes. As suas imagens altamente saturadas, que fazem referência à história da arte e à iconografia religiosa, criam um impacto visual que transcende as culturas de todo o mundo. Esta é uma arte verdadeiramente global.” A frase  é do artista americano Jeff Koons, mas poderia ser de qualquer amante de arte que se debruce sobre as imagens de Pierre et Gilles por mais de dois segundos. À primeira vista são vibrantes, altamente camp e kitsch e, na sua maioria, representam celebridades mundialmente conhecidas. Mas o trabalho desta dupla vai para além dessa primeira impressão óbvia. Está carregado de significado e é simultaneamente uma representação da realidade e um escape dela. Abraçam vários temas sensíveis na sociedade, do sexo à religião, e causam provocações subtis, embrulhadas em flores, borboletas e cenários oníricos. A arte da dupla é facilmente reconhecível, e muitas vezes descrita como “internacional, religiosa e exótica” combinando o sagrado com o profano: da homossexualidade à religião, do hinduísmo à mitologia grega, do erotismo ao cristianismo. Juntos produzem “imagens que misturam realidade, vida quotidiana, sonhos e fantasias”, não esquecendo alguns dos maiores astros do planeta como Madonna, Karl Lagerfeld, Jean Paul Gaultier ou Dita Von Teese.

Mas regressemos ao início, a como tudo começou. O princípio da sua carreira foi no mundo da fotografia de moda e na publicidade, mas um ano depois de se conhecerem (e de se apaixonarem) perceberam que também na arte eram compatíveis – e tudo com uma brincadeira entre amigos: um dia, Pierre decidiu fotografá-los e Gilles pintou por cima destas fotos – um processo que lhes deu a imagem de marca e que, até aos dias de hoje, se mantém. Pierre começa cada obra com alguns esboços e, depois, juntos, reúnem acessórios para compor o cenário, vestem e maquilham o modelo. Pierre tira a fotografia e, após escolherem a melhor, Gilles pinta-a, realçando inúmeros pormenores ou acrescentando elementos. Contam que todo o conceito é inspirado no modelo em questão: tudo é pensado de acordo com a sua personalidade e estética, num processo simbiótico entre o mundo dos artistas e da celebridade, se for o caso. A jornada criativa é altamente artesanal porque é aí que encontram “surpresas constantes” e nada pode substituir o ato de pintar à mão – nem mesmo o Photoshop, que se recusam a usar. As novas tecnologias têm os seus limites e, para eles, o trabalho da inteligência artificial é “frio” e tem “falta de humanidade”, de alma. No fim deste processo, acrescentam uma moldura e o resultado é sempre fantasioso e quase hipnótico mas, apesar disso, sentimos uma proximidade inegável com os autores, talvez porque, como contam, as suas imagens se assemelham ao mundo pessoal, com amores, sonhos e encontros. A vida imita a arte.

A capa do The Kitsch Issue criada pela dupla.

Sempre estiveram próximos do universo das celebridades, e são altamente cobiçados por elas, mas, às vezes, nem o título de “rei da pop” é suficiente para pertencer ao portefólio da dupla: uma vez, Michael Jackson encomendou-lhes 70 imagens a serem feitas num mês. Contudo, uma obra requer um mês de trabalho, porque cada criação é especial e pensada ao pormenor. Apesar de representarem estas caras tão conhecidas, encaram-nas mais como figuras que interpretam papéis feitos para si, e não como estrelas. E não têm receio de as transformar em algo completamente diferente do que são. Talvez seja esta abordagem que torna as suas obras tão especiais, por representarem facetas que não estamos habituados a ver, fundindo a realidade com a ficção. Há muito para além da pop culture, do mundo dos ícones e das passadeiras vermelhas – e ver este universo assim representado tem tanto de fascinante como de uncanny. A arte imita a vida.

Mas nem só de caras conhecidas vive o seu trabalho. Não existem fronteiras para a inspiração de Pierre et Gilles: tudo interessa aos artistas, da moda à natureza e à vida moderna, nada é proibido. Existem três temas que se veem referenciados em quase todas as suas criações: a religião, a mitologia e a cultura indiana. De facto, foi após algumas viagens à Índia que encontraram a sua assinatura. Nos filmes de Bollywood, revistas ou souvenirs religiosos viram um potencial que nunca tinham explorado antes. Contam a Danny with Love que a sua educação católica deixou uma marca profunda, ainda que a tenham rejeitado a dada altura das suas vidas. Porém, estas viagens ajudaram-nos a reformular a perspetiva em relação ao tema, especialmente depois de verem como os indianos representavam figuras sagradas de forma tão colorida (opondo-se talvez à tragédia inerente ao cristianismo). Ser artista é, para eles, também ser um admirador da religião, porque o misticismo da criação sagrada é quase indissociável da arte – e tem tanto de violento como de delicado. Talvez por isto optem por tantas vezes ascender os seus modelos a uma versão endeusada deles próprios, elevando-os a um patamar idealizado onde só cabem Deuses e santos.

Mesmo quando as imagens possam evocar comicidade, revelam, nunca o fazem por ironia. É, na verdade, por amor e nunca por troça: da libertação sexual à pandemia da sida, da homossexualidade a questões políticas, há muito para lá do cor-de-rosa e dos fatos de marinheiro. A sua visão do mundo tem mudado muito com estas experiências e tragédias e mesmo nas imagens mais bonitas, inocentes ou adornadas com uma mega celebridade, há profundidade e desejo de tornar o mundo “mais bonito e mais habitável” – e é esse o valor supremo da sua arte. E mesmo depois da fotografia, da pintura, dos holofotes e das celebridades, tudo isto permanece.

Encontre o portefólio completo no The Fame Issue, disponível aqui

Maria Inês Pinto By Maria Inês Pinto
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