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Notícias 15. 7. 2021

Para onde vai a roupa usada que já ninguém quer?

by Mariana Silva

 

15 milhões de peças de roupa em segunda-mão chegam a Acra semanalmente. Este é o destino do que já não se vende no Ocidente.

Fotografia de Luca Meneghel, com realização de Michele Bagnara. Modelo Nana Skovgaard. Vogue Portugal, setembro 2019

Destralhar. Foi esta a palavra que se impôs circa 2019 após o lançamento daquele que seria o maior fenómeno de organização até ao momento. Marie Kondo e o seu método de “spark joy” funcionaram como um motor para que um pouco por todo o mundo sacos e sacos de roupa fossem entregues a lojas de caridade e de venda de roupa usada. O objetivo: encontrar uma nova casa e uma nova família a quem pudessem trazer alegria. O que Marie Kondo não sabia é que nem sempre isso acontece. 

Uma peça doada a uma loja secondhand e que aí não seja vendida pode ter vários destinos. Existem serviços de reaproveitamento têxtil que recolhem a roupa em piores condições para que esta seja transformada e usada como matéria-prima para a produção de “tapeçarias, isolamentos e enchimentos”, explicou Daniela Pereira, gestora do projeto inVista nO Ambiente, em entrevista ao Dinheiro Vivo. É ainda possível que algumas peças para as quais não seja encontrada uma solução eficaz de reutilização acabem em aterros. Por ser uma solução muitas vezes adotada às escuras, é difícil saber qual a percentagem de roupa que vê o lixo como morada final. Sabe-se, todavia, que a grande maioria dos excedentes da indústria da Moda tem um destino internacional, nomeadamente ao ser exportada para países onde o setor se encontra em menor desenvolvimento.

O mercado mundial de troca de roupa usada é um negócio no quadrante dos mil milhões de dólares. Segundo o Observatório de Complexidade Económica, Estados Unidos da América, Reino Unido, Alemanha, China e Coreia do Sul representam os cinco países que mais peças de roupa em segunda-mão exportam. E quem se encontra do outro lado? Ucrânia, Gana, Quénia, Polónia, Rússia e Nigéria perfazem cerca de 21% do total mundial de importações. Um dos países que mais se destaca enquanto destinatário dos excedentes do mercado ocidental é o Gana, cuja capital, Acra, se tornou num depósito a céu aberto de peças que não encontraram o seu lugar em casas ocidentais. Só do Reino Unido chegam a esta cidade cerca de 50% das exportações britânicas. Ao todo, estima-se que o mercado de Kantamanto - o principal mercado ganês de roupa usada - receba mais de 15 milhões de peças todas as semanas. Sendo o Gana um país com uma população de pouco mais de 30 milhões, torna-se impossível que tal volume de encomendas chegue a ser efetivamente consumido por habitantes locais. Na verdade, os dados apontam para que 40% da roupa que chega a Acra tenha o aterro como rumo quase imediato. 

Kantamanto Market © Getty Images

Foi com esta lógica em mente que Liz Ricketts e Branson Skinner criaram, em 2011, a organização ativista conhecida por The OR Foundation. Acima de tudo, o seu trabalho procura “identificar alternativas ao modelo dominante da indústria da moda”, trabalhando na interseção entre “justiça ambiental, educação e desenvolvimento sustentável do setor”, como escrevem no seu website

Diversas iniciativas da fundação têm sido desenvolvidas em redor do mercado de Kantamanto. Entre elas, destaca-se o projeto de multimédia Dead White Man’s Clothes. Traduzido da expressão tradicional Obroni W’awu, o nome desta ação de consciencialização representa a perspetiva da população ganesa face à roupa recebida. Sendo o desperdício um conceito estrangeiro aos habitantes de Acra, era deduzido que as peças em boas condições que chegavam à cidade pertenceriam à população ocidental que já havia falecido e ainda hoje são conhecidas como “roupa do homem branco morto.”  

 
 
 
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Um dos objetivos primordiais da The OR Foundation é chamar à atenção para os malefícios que podem estar associados a este mercado internacional. A nível económico, a importação de roupa usada “tem influenciado as dinâmicas sócio-económicas do Gana, conduzindo o consumo da indústria domésticas e artesanais para a tendência global de consumo rápido”, já que os baixos preços das peças importadas se revelam mais apelativos. Todavia, é importante frisar que a revenda de roupa usada não é um negócio lucrativo para a população ganesa. Na grande parte dos casos, o dinheiro angariado com a transação de roupa usada serve apenas para cobrir as despesas decorrentes do processo. E não é somente ao nível económico que as consequências transparecem. Poluição e problemas sanitários são exemplos do que pode  também vir associado à importação de roupa usada. 

O que se verifica no mercado de Kantamanto é apenas uma pequena parte das dificuldades associadas à gestão dos excedentes da indústria da Moda. Todos os anos, sem exceção, o número de peças produzidas e consumidas aumenta vertiginosamente. E todos os anos, sem exceção, o número de peças que chega a aterros e depósitos a céu aberto, como os que se encontram em Acra, é cada vez maior

 

 

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