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Notícias 27. 2. 2020

Um batom chamado desejo

by Joana Moreira

 

Além de ser a maquilhadora eleita pelas maiores estrelas de cinema, Lisa Eldridge é também a detentora de uma impressionante coleção de maquilhagem vintage. À Vogue conta sobre uma das suas mais preciosas peças: um suporte de batom que pertenceu a Audrey Hepburn. 

 

Há objetos que atravessam mundos e fundos. Este é certamente um deles. Estaríamos em plenos anos 50 quando Audrey Hepburn, musa do cinema, recebeu um elegante suporte de batom, em ouro e com uma pequena safira, da Cartier. O objeto, gravado com as iniciais AF [o marido da atriz, na época, era o americano Mel Ferrer, o que poderá explicar a segunda letra] acompanhá-la-ia até ao final dos anos 60. Várias décadas mais tarde, o objeto da coleção pessoal da protagonista de Breakfast at Tiffany’s e My Fair Lady foi arrematado por mais de 56 mil libras (qualquer coisa como 66 mil euros). “Soube através de um amigo advogado que os filhos de Audrey estavam a pensar em levar a leilão alguns dos seus pertences pessoais. Estive durante meses à espera para ver se era mesmo verdade, na esperança de que o suporte de batom lá estivesse”, relata Lisa Eldrige à Vogue. 

O desfecho desta história é já conhecido. A maquilhadora britânica publicou há meses, no seu canal de Youtube, um vídeo sobre a sua preciosa aquisição. Mas o caminho da casa de leilões até às mãos (de luvas calçadas, claro) da makeup artist foi mais atribulado do que pode aparentar. “Havia já tanto interesse à volta disso e senti que estava a entrar numa competição frenética. O leilão tinha sido anunciado em muitos sítios. Estava num hotel em Paris uns dias antes e houve uma reportagem enorme sobre o suporte de batom na CNN News!”, conta. “Por isso soube logo que ia ser competitivo”, acrescenta. Na hora H, Lisa estava para lá de nervosa. “Quando o leilão começou todos os itens estavam a chegar a preços muito altos graças a um licitante muito persistente no Minnesota. Esperava que quando aparecesse o suporte de batom ele ou ela já tivesse ficado sem dinheiro, mas infelizmente não! (...) O preço do suporte de batom subiu rapidamente e a maioria dos licitantes caiu um a um, até que só restava eu e a pessoa de Minnesota. Depois andámos ali taco a taco até que eu finalmente ganhei. Foi uma luta”, admite. 

Lipstick Holder, Cartier, circa 1950, Audrey Hepburn: The Personal Collection © Christie's Images Limited 2017

Lisa não é uma novata no mundo da maquilhagem que carrega história, com uma coleção já capaz de compor uma mais do que satisfatória exposição. “Sempre me senti muito inspirada por maquilhagem vintage, e tenho uma coleção fantástica de batons de cada era”, explica, assumindo que parte do entusiasmo do colecionismo está relacionado com “o significado que proprietários originais davam às peças”. “As vidas dos proprietários, e o contexto social e histórico é sempre fascinante (...) A maquilhagem vintage guarda algo de íntimo da história das mulheres, das suas vidas, das suas alegrias, batalhas e sonhos. A qualidade dos objetos é também algo que hoje raramente se vê... O que explica porque é que as minhas peças mais antigas estão em tão boas condições. As coisas eram definitivamente feitas para durar, e um artigo de maquilhagem era visto como um pequeno tesouro, que tinha de ser estimado. Ainda existem alguns artigos assim hoje, mas geralmente a construção e o design são bem menos robustos e mais ‘de deitar fora’”. 

No caso de um produto de beleza pertencente a Audrey Hepburn “há também o facto de ela ser uma figura tão icónica que as mulheres em todo o mundo olham para ela e querem emulá-la”, reconhece, acrescentando que “além de ser um ícone, as imagens de Audrey Hepburn a aplicar batom são um sinónimo daquele glamour antigo de Hollywood. E isso combinado com a história desta peça era tão atraente para mim que eu sabia que tinha de a ter”. 

Quando viu a peça pela primeira vez, Lisa não podia ter ficado mais feliz: “Senti que estava quase a vibrar com energia nas minhas mãos. E fiquei chocada ao encontrar uma pequena quantidade de batom ainda dentro do suporte, não estava à espera! Foi tão entusiasmante, para uma historiadora da maquilhagem, ver a cor verdadeira que ela tinha escolhido e poder examiná-la de perto”, conta. 

Indagamos sobre o facto de não manter a peça em casa, mas num cofre, externo à sua residência. “Há alguns itens que são tão raros e tão valiosos que é sensato mantê-los num cofre. Apesar de que para mim cada item é precioso e raro”, diz, admitindo que “apesar de [o suporte de batom] ter um lugar muito especial na minha coleção, não é mais charmoso do que imaginar o significado que a desconhecida dona das pestanas de 1930 que tenho na minha coleção, lhes dava, e que foram tão obviamente amadas, reutilizadas e cuidadas”. 

Artigo originalmente publicado na edição de fevereiro 2020 da Vogue Portugal. 

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