VIVE LA RÉVOLUTION. Thomas Riguelle, Lulu Tenney e Abény Nhial com Re{form} Zara Authored by the Couturier John Galliano (aqui e em toda a reportagem); zara.com. Editor de moda: Olivier Rizzo. Fotografia de Rafael Pavarotti. Vogue, novembro de 2026.
O reconhecido designer associa-se ao gigante do retalho numa nova coleção: “Re{form} Zara Authored by the Couturier John Galliano”.
Ira. Incredulidade. Curiosidade. Estas foram apenas algumas das muitas reações públicas manifestadas quando foi anunciado, em março, que a Zara, cuja empresa-mãe, a Inditex, é o maior retalhista de Moda do mundo, tinha contratado o couturier John Galliano (o talento que define a nossa época nesse métier já tão raro) para criar uma coleção. Essas reações, como é evidente, ficaram muito aquém, em número e em intensidade, da resposta suscitada quando, no mês passado, Galliano anunciou, em colaboração com o Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque, que a retrospetiva da sua carreira ali prevista para a próxima primavera não se realizaria. "Continuo a ser inteiramente responsável pela dor causada pelas minhas palavras no passado", afirmou Galliano num comunicado na altura, referindo-se a várias explosões antissemitas e anti-asiáticas no final de 2010 e em 2011, "particularmente pela mágoa que causei às comunidades judaica e asiática, e continuo profundamente arrependido… Reconheço e respeito também que uma exposição em homenagem ao meu trabalho seria dolorosa para alguns."
Tanto o trabalho como o nome de Galliano ressoam há muito numa plataforma cultural mais ampla. Pessoas que nunca vestiram as suas roupas têm opiniões profundamente enraizadas e apaixonadas sobre elas e sobre ele. É por isso que tem estado a trabalhar neste projeto da Zara num ateliê inundado de sol, no interior de uma bela vivenda no subúrbio parisiense de Boulogne-Billancourt, literal e metaforicamente a quilómetros de distância do burburinho dos mexericos dos arrondissements elegantes da cidade. Paris é o palco de alguns dos maiores triunfos de Galliano (quase três décadas de desfiles aclamados pela crítica que deslocaram o eixo da Moda vezes sem conta), mas também do seu momento mais baixo: o despedimento da casa Dior na sequência dessas explosões, alimentadas, segundo ele, pela dependência de drogas e álcool. (Galliano está agora sóbrio há 15 anos.)

LES MERVEILLEUSES
As silhuetas de Galliano para a Zara (em Riguelle, Nhial e Ruth Deng, da esquerda para a direita), exageradas e arcanas, lembram um bando aristocrático de dândis rebeldes que remonta à Revolução Francesa.
Quando me encontrei com Galliano em julho (vestido de forma descontraída, com uns calções largos e uma camisola de malha verde-azeitona da coleção única de Dario Vitale para a Versace), a retrospetiva do Met, ainda por anunciar, não estava em discussão. A sua nova coleção (ou colaboração, ou parceria, ou pas de deux) com a Zara, iniciada em sigilo absoluto em janeiro deste ano, teve a sua génese ainda mais cedo, em 2022, quando Galliano conheceu Marta Ortega Pérez, presidente não executiva do conselho de administração da Inditex e a cabeça por trás das colaborações da Zara. "A Marta apoia verdadeiramente a criatividade", diz Galliano. "E é obcecada por Moda."
No outono de 2022, essa obsessão levou à realização de uma exposição da obra do fotógrafo Steven Meisel na Fundação MOP de Ortega Pérez, em La Coruña, cidade natal da Inditex, no noroeste de Espanha. "O Steven tem sido um dos meus maiores apoiantes na ilustração do meu trabalho", diz Galliano, recordando o seu marcante portefólio de 1994 para a Vogue US, que permitiu ao designer obter o apoio financeiro necessário para apresentar aquele que viria a ser o seu lendário desfile todo a preto de outono/inverno, nesse mesmo ano. Galliano e o seu companheiro de longa data, Alexis Roche, foram a Espanha por causa de Meisel, conheceram Ortega Pérez, e "a relação começou a florescer", conta. "E depois ela perguntou-me se eu teria interesse numa qualquer colaboração."
A sua resposta: não.
Galliano ri-se. Essa foi, pelo menos, a sua reação inicial, ainda absorvido pelas funções de diretor criativo da Maison Margiela, onde trabalhava desde 2014, embora o interesse estivesse decerto presente. "Há muito, muito tempo, tive imensas conversas com o meu querido amigo Alber [Elbaz], e ele ficava sempre super entusiasmado com a ideia de fazer algo para a grande distribuição", diz Galliano. Mas, depois de deixar a Margiela em 2024, Galliano manteve um silêncio deliberado, a podar rosas secas no seu jardim de campo na Picardia, a norte de Paris. Ele e Ortega Pérez tinham mantido o contacto, almoçando juntos com frequência, e numa dessas ocasiões Galliano lançou, de forma discreta, um novo conceito (Re{form} foi o nome que sugeriu) "e", conta-me Galliano, "ela disse: 'Sim, vamos fazê-lo.'"
A ideia que Galliano explicou a Ortega Pérez ao almoço é hoje uma coleção, intitulada Re{form} Zara Authored by the Couturier John Galliano. O nome pouco prático deve-se em parte a razões legais (a marca John Galliano, enquanto marca, continua a pertencer à LVMH), mas também a razões criativas: como o próprio Re{form} sugere, Galliano não está a criar inteiramente de raiz, mas sim a retrabalhar peças já existentes para descobrir algo novo. "Isto é uma inovação: esta ideia de ir lá e tratar as peças que já existem", diz ele. "Chamei-lhe os arquivos da Zara… mas, nesta era veloz, o que é que define um arquivo?"

FULL FLOWER
A proficiência técnica da Zara, do abastecimento de tecidos ao fabrico, impulsionou Galliano para uma expressão plena dos seus talentos. ‘Não tive qualquer intenção de simplificar’, diz.
O que Galliano chamou arquivo, o resto de nós chamaria, talvez de forma mais pragmática, stock. "Basicamente, eram as peças que estavam por ali", diz. "Tornaram-se os meus protótipos de trabalho." A Re{form} nasceu de uma seleção de arquétipos da Zara (um casaco comprido de mistura de lã, um vestido de alças, uma camisa de algodão), o tipo de peças que a maioria de nós tem. Ele e a sua equipa cortaram depois essas peças, passaram-nas a ferro e viraram-nas do avesso e de pernas para o ar, para transformar cada uma num original de Galliano. "Como poderia eu mudar a forma, reinventá-la, reapresentá-la?" era o tipo de pergunta que Galliano colocava a si próprio, não como criador, mas como recriador. "Não havia limites."
Os olhos de Galliano brilham enquanto me conduz pelo seu complexo processo criativo ("Vê-lo trabalhar é uma inspiração", diz Ortega Pérez), embora, diga-se, o processo seja a única coisa que consigo ver. As peças finais da sua primeira coleção Re{form}, fotografadas para esta reportagem no dia anterior, já estavam num avião de regresso a La Coruña, pelo que Galliano recorreu a imagens para ilustrar o seu novo modus operandi. Folheámos pilhas de fotografias para acompanhar a transformação alquímica das peças da Zara, de vestuário do quotidiano a algo excecional. Um casaco de mistura de lã é cortado à frente, com os bolsos empurrados cada vez mais para trás, as lapelas a prolongarem-se e as abas a descerem sorrateiramente pela perna. Um vestido de alças, com remate de renda ("um vestido de verão perfeitamente encantador", nas palavras de Galliano), vai subindo pelo corpo até se tornar pouco mais do que um extravagante jabot junto ao pescoço. Uma camisa da Zara, aumentada para três ou quatro vezes o tamanho XL, transforma-se num casaco quando estampada com um padrão de pele em trompe l'oeil. Os bolsos são torcidos e reposicionados para alterar a forma como os corpos se comportam nas roupas. "É o que fazem os hackers, o que fazem os DJs: resampling, mistura digital", diz Galliano. "É a gramática de hoje."
"Conseguiria eu obter estas posturas quase de Alta-Costura?", pergunta (retoricamente, porque é claro que consegue). "Há coisas que, obviamente, me correm nas veias."

THE REAL DEAL
O trabalho de Galliano para a Zara está imbuído da sua linha ilustrativa e do seu domínio da cor, o mesmo génio do corte. ‘Há coisas que me correm nas veias’, diz. Da esquerda para a direita: Nhial, Riguelle, Tenney, Emeline Hoareau e Deng.
Mesmo hoje, ver os primeiros desfiles de Galliano no YouTube arrepia a nuca, tanto a observadores de Moda experientes como a novas gerações de fãs, e as suas novas peças para a Zara provocam a mesma embriagante sensação de entusiasmo, repletas como estão das suas marcas registadas: a mesma linha ilustrativa e o mesmo domínio da cor, o mesmo génio absoluto do corte. "Nunca abandonei por completo uma ideia ou um conceito", diz Galliano. "Tornam-se parte da minha identidade, parte da minha assinatura." Há vestidos cortados em viés em magníficos tons de pedras preciosas, uma alfaiataria técnica engenhosa, camadas transparentes de tule a cair como véus de memória e gestos históricos arcanos, incluindo toucas com fitas de um requinte fútil, gravatas de pescoço e bicornes saídos diretamente de Napoléon (1927), a epopeia de Abel Gance, um dos filmes preferidos de Galliano.
À medida que Galliano cortava, deslocava e reformava estas roupas, começaram a surgir personagens: homens de fraque curto e colarinhos altos, mulheres com vestidos drapeados justos ao corpo. O novo, de algum modo, conduzia ao antigo: as suas silhuetas, exageradas e arcanas, lembravam um bando de dândis aristocratas rebeldes que remonta à Revolução Francesa, conhecidos na época como les Incroyables ("os Incríveis"; as suas homólogas eram les Merveilleuses, ou "as Maravilhosas"). Mas têm também uma história profundamente pessoal para Galliano. Os Incroyables foram a inspiração da sua coleção de licenciatura de 1984 na Saint Martins, com o mesmo nome, em que decadentes vaidosos, cobertos de maquilhagem, desfilaram roupas reveladoras que o catapultaram para o palco mundial da Moda. É um tema e uma época a que regressa vezes sem conta: dândis rebeldes e afetados, enfeitados com folhos e requinte; a rebelião através do vestuário. "Vive la révolution." (Galliano disse-me isto mesmo.)
Como poderia eu mudar a forma? era a pergunta que Galliano colocava a si próprio, não como criador, mas como recriador. Não havia limites.
Colaborar com a Zara, afinal, é uma jogada perfeitamente coerente com o sempre desconcertante Galliano. Tendo o rei da Alta-Costura tomado de assalto todas as bastilhas da Moda de luxo ao longo de uma carreira de quatro décadas (e a contar), porque não haveria de se render à grande distribuição? A nova coleção evidencia também uma dualidade no cerne do trabalho de Galliano: embora pareça encontrar a sua expressão mais pura no trabalho manual da alta-costura, o seu fabrico de sonhos, à semelhança do das velhas epopeias de Hollywood, apela às massas. Para muitos, esta coleção da Zara será o primeiro encontro com um vestido de Galliano (um que talvez possam pagar) cá fora, no mundo. (Até o mercado em segunda mão do seu trabalho anterior é desvairado: em janeiro, uma peça de Alta-Costura de Galliano para a Christian Dior bateu um recorde mundial, sendo vendida por 663 mil euros; a coleção da Zara começa nos 29,90 dólares.)
"É uma honra levar a magia do John a um público alargado pela primeira vez", diz Ortega Pérez, enquanto Galliano, por seu lado, refere que a colaboração tem "um alcance muito maior do que alguma vez tive: é enorme". Ficou também estupefacto com as instalações da Inditex, em particular no que toca ao abastecimento de tecidos e ao fabrico, que classifica de "de cair o queixo". E, como as imagens desta reportagem sugerem, a proficiência técnica que isto permitiu impulsionou Galliano para uma expressão verdadeiramente plena dos seus prodigiosos talentos. "Não tive qualquer intenção de simplificar", diz.

SEEMS LIKE A PICNIC
‘Tenney (à esquerda) e Riguelle: Paris é uma festa.’
Para que fique claro: esta nova coleção não é um mero parêntesis ou interregno. Ao recapitular o alcance da sua carreira, Galliano designa os primeiros 30 anos, mais ou menos (da Saint Martins até à passagem pela Dior), como o primeiro ato, e a sua década nos sapatos de biqueira Tabi da Margiela como o segundo. A Re{form}, diz, inaugura o terceiro ato. O contrato com a Zara tem a duração de dois anos, durante os quais irá conceber um total de quatro coleções.
Quando lhe pergunto o que procurava ao embarcar neste terceiro ato, a resposta de Galliano é desarmantemente simples. "Queria que fosse divertido", diz, e as toucas em forma de boné de basebol, as plataformas desirmanadas e o jogo de pernas para o ar com roupas extraordinárias da Re{form} certamente o são. Mas é também, inegável e inequivocamente, incroyable.
Traduzido do original, disponível aqui.
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